Poesias dispersas - TRISTEZA [94]

Ah! Pobre criança!

Triste ludíbrio de funesta estrela!

SHAKESPEARE — Otelo

És triste. Que mal te oprime?

Que sombrio pensamento,

Como nuvem procelosa,

Ponto negro no horizonte,

Vem pousar, mulher formosa,

Em tua formosa fronte?

És triste. E pálida. As cores,

De vivas que eram outrora,

Como pétalas das flores

Que o tempo amareleceu,

Ora vejo-as apagadas...

E ao teu olhar peregrino

Fecham pálpebras cansadas

À luz que tinhas do céu,

A ausência de brilho e cores

E essa mórbida magreza,

Esse teu ar de abatida,

Com que, se perdes em vida,

Vens a ganhar em beleza,

Que são? Remorso de um crime

De certo não é? Responde,

Dize, que mágoa te oprime?

Teu silêncio obstinado

Tudo me explica.., já sei..

Mísero anjo infortunado,

Li tu’alma e adivinhei

Guardavas ao que primeiro

Tocasse a flor dos teus anos,

Não esse amor passageiro,

Das almas vãs, mas o amor

Profundo, intenso, exclusivo,

O amor que sonha e não dorme,

O amor sincero, o amor vivo,

Os transportes, a ternura,

De um coração palpitante,

Os desejos de ventura,

Ambiciosa fantasia,

As ânsias d’alma abundante,

Em suma — a felicidade:

Tal foi o sonho primeiro

Da tua primeira idade.

Em vez de uma alma irmã

Que a tua alma compreendesse,

Que achaste? Boçal figura,

Matéria, máquina, prosa,

Toda cegueira e espessura,

Corpo sem alma e sem vida,

E a esperança radiosa

Da vida que procuravas,

A ternura que guardavas,

Em teus chorados quinze anos.

Tudo arrefeceu, criança,

Ante os frios desenganos.

Entre a presente agonia

E o tempo em que, solta, aérea,

Tua ardente fantasia

A vida mágica e etérea

Evocava e embelecia,

Que tempo vai! Longo espaço

De solidão, de tristeza,

De ternura e de cansaço.

Uma quase eternidade

A contar na mente acesa:

Esperanças da incerteza,

Certezas da realidade!

Enfim, à morte completa

Da ilusão que alimentavas,

Olhaste pálida e inquieta

Para o futuro... e não viste

Nada do que procuravas

E nada do que pediste,

Olhaste ainda — e confusa

Viste o amor, a paz alheia,

Os que logravam sentir,

E tu, mísera reclusa,

Da prisão em que te achaste

Nem já te é dado fugir!

E agora, fria, abatida,

Secas as rosas do rosto,

Olhos já sem luz, nem vida,

Depois de tanta provança,

Tua mente em vão procura

A derradeira esperança:

O frio da sepultura...

Seja o primeiro a comentar

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Troca de Links - Parceiros RSS Search Site no Esquillo Directorio Twingly BlogRank Teaching Blog Directory GoLedy.com Divulgue seu blog! Blogalaxia BRDTracker Directory of Education/Research Blogs Top Academics blogs Education and Training Blogs - BlogCatalog Blog Directory blog directory Blog Search: The Source for Blogs Submit Your Site To The Web's Top 50 Search Engines for Free! Sonic Run: Internet Search Engine Estou no Blog.com.pt
http://rpc.twingly.com/

  ©Trabalhos Feitos / Trabalhos Prontos - Todos os direitos reservados.

Template by Dicas Blogger | Topo