Poesias dispersas - S. HELENA [73]

Ao Sr. Remígio de Sena Pereira

Cairão Ajax e suas frotas!

HOMERO — Odisséia

Sobre a escarpada rocha — levantada

Na vaga — como um túmulo marinho,

Sob eterno luar,

César — desce como águia derrubada!

No seio agora desse estéril ninho

É força repousar!

Dorme, crânio viril, dorme um momento!

Tens ali um sepulcro de granito

Eça de Briareu!

Como caído sol — teu pensamento

Vague agora — no mar desse infinito

Em meio de água o céu!

As eras de ventura lá passaram

Como frotas no mar. Impetuoso

Soprara o furacão!

As mornas tradições é que ficaram,

Que aquele mesmo gênio belicoso

Não voltará mais, não!

Já não ressoam os clarins da guerra!

E os bravos desse Homero das batalhas

Descansam a dormir!

Essa cruzada que assombrara a terra

Sob as ruínas de pálidas muralhas

E a força cair!

Caiu! Assim o quis o destino infausto,

Que a estrela de seus largos horizontes

Nos limbos despenhou!

Caiu! mas em homérico holocausto!

Sol moribundo erguido em mar de frontes

Um dia descambou!

Dorme agora — na rocha levantada,

César, sobre esse túmulo marinho

É força repousar!

És agora como águia derrubada!

Resta-te um derradeiro e estéril ninho

E um eterno luar!

Foi esta, Bonaparte, a nênia augusta

Com que saudou-te a humanidade a queda!

Descaída a realeza das batalhas

Tinha como um apoio derradeiro

Um alpestre rochedo. Em torno o oceano

Era como que a firme — sentinela

De um oceano subjugado agora!

Folga, Albion! A espada onipotente

Desse rei dos combates e das tendas

Não vergaste, quebrou! A tua glória

Era preciso que ao condor hercúleo

Um vento bravo despenhasse as asas!

Agora, Bonaparte, eis-te sentado

Sobre a escarpada rocha

Que ao corcel dos combates sucedeu!

Essa fronte que o gênio das conquistas

Afogou num abismo das batalhas

Tem agora por troa derradeira

Uma nuvem de pálidas lembranças!

Tudo, tudo passou! os dias belos

Os dias de Marengo

De Arcole, de Montmirail e de Austerlitz,

Lá vão! passaram como as folhas secas

Sacudidas do vento das florestas!

Passaram! resta o sudário

Do pesado esquecimento!

Resta o pálido ossário

De todo um mundo portento.

As cruzadas peregrinas

Moderno César não vens?

Por palmas capitolinas

Capelas de goivos tens?

Como Lázaro, acordaste

A humanidade dormente;

Que um povo de reis, fecha

Sob a mão onipotente.

E tu, que no berço ungiste

A infante revolução,

E toda a submergiste

Em um mais puro Jordão;

Que herdaste? um bronco rochedo

Onde a vaga geme a medo

Ouvindo — Napoleão!

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