Poesias dispersas - A REDENÇÃO [72]

Ao Sr. Dr. Francisco Otaviano

I

E Deus disse ao espírito incriado:

Desce na asa do vento;

Por entranhas humanas — encarnado

Dormirás um momento.

Lá te espera nos limbos palpitantes

De dura escravidão — a humanidade,

Prega a essas nações agonizantes

O dogma da igualdade!

Leva a casta virtude foragida

Entre virentes palmas;

E vai mostrá-la à multidão perdida

Como o pudor das almas.

Vai, meu Cristo — a missão é escabrosa;

Só terás dessas turbas em carinhos

Uma cruz — uma vida dolorosa

E uma c'roa de espinhos.

E descera o espírito incriado

Sobre a asa do vento,

E em seio virgem de mulher — fechado

Foi dormir um momento.

II

Era o sonho dos profetas

Que se encarnara em Jesus;

Daquelas eras provetas

A cara e esperada luz.

Profeta, da liberdade,

Cireneu da humanidade.

Que vinha tomar-lhe a cruz!

A humanidade o esperava

Nos sonhos de redenção;

Ele vinha erguer a lava

De um velho morno vulcão.

Missão de ventura e graça

Que fecundava uma raça

De que ele era novo Adão!

Era o Íris da bonança

No meio dos temporais

A verbena da esperança

Entre desânimo e ais.

Um sol vigoroso e ufano

Rasgando ao gênero humano

Um horizonte de paz.

Não teve Moisés augusto

Mais auréola de luz

Nem um brado mais robusto

A voz do poeta Ilus

Tu foste — Belém proveta

— Berço de um maior profeta

Sacrificado na cruz!

Batera a hora na ampulheta eterna,

E esse fato de um Deus que se agitava

No seio da fecunda humanidade

Surgira à luz. A natureza toda

Estremeceu e se arraiou mais bela!

Mas linda a flor dos campos nessa noite

O seio abrira. — No seu leito o homem

Nessa noite sentiu mais puros sonhos

Por sua mente revoar... E as almas

Que esta terra de abrolhos — maculará

Sentirão todas — um chuveiro de ouro

Vazar nas trevas de enlodados limbos!

E depois - no horizonte azul-escuro

Clara estrela raiou — estranha aos homens

Reis, a pé! — Ide além a um berço humilde

Depor as c'roas... é um rei mais sábio

Que nasceu na humildade e na inocência!

Viajor — que vingas a colina alpestre

Às frias virações da meia-noite,

Pára! — Uma aurora súbito se entorna

Por este céu — e aquela estrela branca

Que vês correndo no horizonte oposto

É a coluna de fogo do deserto

Que outrora o povo de Israel guiara!

É o astro polar que a humanidade

Há de levar à prometida terra,

Para que ela marche na impulsão dos séculos.

Foi assim que o profeta dos profetas,

O circunciso, apresentou-se aos homens!

Nem Roma em seus delírios de triunfo

O nascimento lhe obstava... Aos ombros

Trazia a toga das virtudes castas;

E o ideal da igualdade sobre a fronte

Era a divina, grandiosa auréola

De que vinha cingir a humanidade!

Que deu a terra ao salvador dos povos?

Uma cruz... uma vida dolorosa,

Uma c'roa de espinhos!

III

Dormes, Jerusalém? Morno ossuário

Deitado à sombra de fatais lembranças

Num leito secular,

Não sentes que no altar do teu calvário

O gérmen de verbenas e esperanças

Começa a rebentar?

Essa lenda de pranto e de amargura,

Esse drama da cruz e do calvário

Escárnio e a aflição:

Esses delírios de uma treva escura,

Esse fel e vinagre e esse sudário:

Foi tudo a redenção!

A redenção... A turba delirante

Nem pressentiu essa missão divina

Do filho do Senhor...

E selou num delírio agonizante

Aquela fronte casta e peregrina

Com o sinete da dor!

Deu-lhe a palma e coroa de realeza,

Sentou-se sobre um marco de granito

E a zombar o saudou!

E o Cristo, essa divina singeleza,

Nem um olhar lançara, nem um grito

Arquejante soltou.

Ide, marchai sangrenta caravana!

Cireneu, vem agora e dá teu braço

Pra ajudar a cruz.

Cantai, cantai por essa orgia humana!

A terra treme e se enegreja o espaço,

E o sol desmaia a luz!

Essa cruz, esse poste de suplício,

Em que o cordeiro pálido imolaste

Nas raivas infernais,

Se erguerá como o sol do sacrifício;

Brotarão dos espinhos que entrançaste

Perpétuas festivais!

Dia mais belo vazará do oriente,

E a noite de verão mais vaporosa

Nos vales dormirá...

Nas asas de planeta onipotente

Uma luz mais suave e mais formosa

Aos povos descerá...

Sim! é fecundo o sangue do calvário!

Se o Cristo agonizou daquelas dores

Muita palma nasceu!

Daquela cruz e pálido sudário

Um éden de perfume e de flores

Teremos por troféu!

Assim fechou-se a redenção dos povos!

Do drama do calvário - a humanidade

Uma c’roa viril teve em herança

Mais bela do que as cívicas coroas

De Roma — a triunfante:

A c'roa da igualdade!

Esperai! se essa palma de triunfo

Começa ainda a rebentar do Gólgota,

Não estão longe os tempos — em que a fronte

Há de ovante cingi-la à humanidade!

Assim o passo derradeiro e firme

A Canaã da paz será transposto;

Assim a cruz triunfará eterna,

Assim se fecha a redenção dos povos!

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