Poesias dispersas - O PRIMEIRO BEIJO [95]

(G. BLEST GANA)

Lembranças daquela idade

De inocência e de candor,

Não turbeis a soledade

Das minhas noites de dor;

Passai, passai,

Lembranças do que lá vai.

Minha prima era bonita...

Eu não sei por que razão

Ao recordá-la, palpita

Com violência o coração.

Pois se ela era tão bonita,

Tão gentil, tão sedutora,

Que agora mesmo, inda agora,

Uma como que ilusão

Dentro em meu peito se agita,

E até a fria razão

Me diz que era bem bonita.

Como eu, a prima contava

Quatorze anos, me parece;

Mas minha tia afirmava

Que eram só, — nem tal me esquece!

Treze os que a prima contava.

Fique-lhe à tia essa glória,

Que em minha vivaz memória

Jamais a prima envelhece,

E sempre está como estava,

Quando, segundo parece,

Já seus quatorze anos contava.

Quantas horas, quantas horas

Passei ditoso ao seu lado!

Quantas passamos auroras

Ambos correndo no prado,

Ligeiros como essas horas!

Seria amor? Não seria;

Nada sei; nada sabia;

Mas nesse extinto passado,

De conversas sedutoras,

Quando me achava a seu lado

Adormeciam-me as horas.

De como lhe eu dei um beijo

É curiosíssima história.

Desde esse ditoso ensejo

Inda conservo a memória

De como lhe eu dei um beijo.

Sós, ao bosque, um dia, qual

Aquele antigo casal

Cuja inocência é notória,

Fomos por mútuo desejo,

A ali começou a história

De como lhe eu dei um beijo.

Crescia formosa flor

Perto de uma ribanceira;

Contemplando-a com amor,

Diz ela desta maneira;

— Quem me dera aquela flor!

De um salto à flor me atirei;

Faltou-me o chão; resvalei.

Grita, atira-se ligeira

Levada pelo terror,

Chega ao pé da ribanceira...

E eu, eu não lhe trouxe a flor.

De ventura e de alegria

A coitadinha chorava;

Vida minha! repetia,

E em meus braços me apertava

Com infantil alegria.

De gelo e fogo me achei

Naquele transe. E não sei

Como aquilo se passava,

Mas um beijo nos unia,

E a coitadinha chorava

De ventura e de alegria.

Depois,.. revoltoso mar

É nossa pobre existência!

Fui obrigado a deixar

Aquela flor de inocência

Sozinha à beira do mar.

Ai! do mundo entre os enganos

Hei vivido muitos anos,

E apesar dessa experiência

Costumo ainda exclamar:

Ditada minha existência,

Ficaste à beira do mar!

Lembranças daquela idade

De inocência e de candor,

Alegrai a soledade

Das minhas noites de dor.

Chegai, chegai,

Lembranças do que lá vai.

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