Poesias dispersas - A MORTE NO CALVÁRIO [12]

Semana Santa, 1858

AO MEU AMIGO O PADRE SILVEIRA SARMENTO

Consummatum est!

I

Ei-lo, vai sobre o alto Calvário

Morrer piedoso e calmo em uma cruz!

Povos! naquele fúnebre sudário

Envolto vai um sol de eterna luz!

Ali toda descansa a humanidade;

É o seu salvador, o seu Moisés!

Aquela cruz é o sol da liberdade

Ante o qual são iguais povos e reis!

Povos, olhai! — As fachas mortuárias

São-lhe os louros, as palmas, e os troféus!

Povos, olhai! — As púrpuras cesáreas

Valem acaso em face do Homem-Deus?

Vede! mana-lhe o sangue das feridas

Como o preço da nossa redenção.

Ide banhar os braços parricidas

Nas águas desse fúnebre Jordão!

Ei-lo, vai sobre o alto do Calvário

Morrer piedoso e calmo em uma cruz!

Povos! naquele fúnebre sudário

Envolto vai um sol de eterna luz!

II

Era o dia tremendo do holocausto...

Deviam triunfar os fariseus...

A cidade acordou toda no fausto,

E à face das nações matava um Deus!

Palpitante, em frenético delírio

A turba lá passou: vai imolar!

Vai sagrar uma palma de martírio,

E é a fronte do Gólgota o altar!

Em derredor a humanidade atenta

Aguarda o sacrifício do Homem-Deus!

Era o íris no meio da tormenta

O martírio do filho dos Hebreus!

Eis o monte, o altar do sacrifício,

Onde vai operar-se a redenção.

Sobe a turba entoando um epinício

E caminha com ela o novo Adão!

E vai como ia outrora às sinagogas

As leis pregar do Sião e do Tabor!

É que no seu sudário as alvas togas

Vão cortar os tribunos do Senhor!

Planta-se a cruz. O Cristo está pendente;

Cingem-lhe a fronte espinhos bem mortais;

E cospe-lhe na face a turba ardente,

E ressoam aplausos triunfais!

Ressoam como em Roma a populaça

Aplaudindo o esforçado gladiador!

É que são no delírio a mesma raça,

A mesma geração tão sem pudor!

Ressoam como um cântico maldito

Pelas trevas do século a vibrar!

Mas as douradas leis de um novo rito

Vão ali no Calvário começar!

Sim, é a hora. A humanidade espera

Entre as trevas da morte e a eterna luz;

Não é a redenção uma quimera,

Ei-la simbolizada nessa cruz!

É a hora. Esgotou-se a amarga taça;

Tudo está consumado; ele morreu,

E aos cânticos da ardente populaça

Em luto a natureza se envolveu!

Povos! realizou-se a liberdade,

E toda consumou-se a redenção!

Curvai-vos ante o sol da Cristandade

E as plantas osculai do novo Adão!

Ide, ao som das sagradas melodias,

Orar junto do Cristo como irmãos,

Que os espinhos da fronte do Messias

São as rosas da fronte dos cristãos!

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