Poesias dispersas - À ITÁLIA [69]

Despe esses ferros de dormente escrava,

Que o sol dos livres no horizonte vem!

Velha cratera — o referver da lava

Atento e curvo todo um século tem.

Acorda! o sono da opressão devora!

Pátria de Roma — o Capitólio vê!

Pálida Itália — ressuscita agora

O ardor nos peitos — na esperança a fé.

A velha Europa ao teu arfar cansado

Vem debruçar-se em derredor aí;

E ao som valente do primeiro brado

Braços e espadas acharás por ti.

Apenas bata essa esperada hora

O anjo dos livres se erguerá de pé.

Pálida Itália — ressuscita agora

O ardor nos peitos — na esperança a fé.

O século é belo. A liberdade canta —

Virentes rosas sobre os seios nus!

Feto sublime de uma idéia santa

Vem no horizonte por um mar de luz!

Morte ao opresso que a tremer descora

E à luz nascente deste sol — não crê!

Pálida Itália — ressuscita agora

O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Ontem a Grécia, como um sol caído,

Toda nas águas afogará a luz;

Das meias-luas o pendão temido

No ilustre solo lhe esmagará a cruz.

Um brado ergueu-a. Como estava outrora,

Da Europa à face levantou-se em pé.

Pálida Itália — ressuscita agora

O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Página bela da grandeza antiga,

Tens inda o selo de um real poder;

Os rijos copos dessa espada amiga

A mão do tempo não quebrou sequer.

A rubra púrpura de reinar de outrora

Hoje uma toga popular não é?

Pálida Itália — ressuscita agora

O ardor nos peitos — na esperança a fé.

A idéia é fogo que ateado lavra.

E tudo abrasa nessa ardente ação.

Rompe, desprende essa fatal palavra;

Outras cativas erguerás do chão.

Olha a Polônia escravizada chora:

E o sol dos livres inda espera e vê.

Pálida Itália — ressuscita agora —

O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Ao braço impuro de opressor ingrato,

Bela cativa, não te curves, não!

Da liberdade o sentimento inato

E um incentivo na tremenda ação.

Não, não consintas, tu liberta outrora

Sobre teu colo levantar-se um pé.

Pálida Itália — ressuscita agora

O ardor nos peitos — na esperança a fé.

Levanta as tendas. Uma onda brava

Quebrar-te os ferros pelo mar i vem!

Velha cratera — o referver da lava

Atento e curvo todo um século tem!

Acorda! O sono da opressão devora!

Pátria de Roma — o Capitólio vê!

Pálida Itália — ressuscita agora

O ardor nos peitos — na esperança a fé.

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