Poesias dispersas - A DERRADEIRA INJÚRIA [32]

E ainda, ninfas minhas, não bastava...

CAMÕES, Lusíadas, VII, 81.

I

Vês um féretro posto em solitária igreja?

Esse pó que descansa, e se esconde, e se some,

Traz de um grande ministro o formidável nome,

Que em vivas letras de ouro e lágrimas flameja.

Lá fora uma invasão esquálida braceja,

Como um mar de miséria e luto, que tem fome,

E novas praias busca e novas praias come,

Enquanto a multidão, recuando, peleja.

O gaulês que persegue, o bretão que defende,

Duas mãos de um destino implacável e oculto,

Vão sangrando a nação exausta que se rende;

Dentre os mortos da história um só único vulto

Não ressurge; um Pacheco, um Castro não atende;

E a cobiça recolhe os despojos do insulto.

II

Ora, na solitária igreja em que se há posto

O féretro, se alguém pudesse ouvir, ouvira

Uma voz cavernosa e repassada de ira,

De tristeza e desgosto.

Era uma voz sem rosto,

Um eco sem rumor, uma nota sem lira.

Como que o suspirar do cadáver disposto

A rejeitar o leito eterno em que dormira.

E ninguém, salvo tu, ó pálido, ó suave

Cristo, ninguém, exceto uns três ou quatro santos,

Envolvidos e sós, nos seus sombrios mantos,

Ninguém ouvia em toda aquela escura nave

Dessa voz tão severa, e tão triste, e tão grave,

Murmurados a medo, as cóleras e os prantos.

III

E dizia essa voz: — “Eis, Lusitânia, a espada

Que reluz, como o sol, e como o raio, lança

Sobre a atônita Europa a morte ensangüentada.

“Venceu tudo; ei-la aí que te fere e te alcança,

Que te rasga e te põe na cabeça prostrada

O terrível sinal das legiões de França.

“E, como se o furor, e, como se a ruína

Não bastassem a dar-te a pena grande e inteira,

Vem juntar-se outra dor à tua dor primeira,

E o que a espada começa a tristeza termina.

“És o campo funesto e rude em que se afina

Pugna estranha; não tens a glória derradeira,

De devolver farpada e vencida a bandeira,

E ser Xerxes embora, ao pé de Salamina.

IV

“No entanto, ao longe, ao longe uma comprida história

De batalhas e descobertas,

Um entrar de contínuo as portas da memória

Escancaradamente abertas,

“Enchia esta nação, que aprendera a vitória

Naquela crespa idade antiga,

Quando, em vez do repouso, era a lei da fadiga,

E a glória coroava a glória.

“E assim foi, palmo a palmo, e reduto a reduto,

Que um punhado de heróis, que um embrião de povo

Levantara este reino novo;

“E livre, independente, esse áspero produto

Da imensa forja pôde, achegando-se às plagas,

Fitar ao longe as longas vagas.

V

“Era escasso o torrão; por compensar-lhe a míngua,

Assim foi que dobraste aquele oculto cabo,

Não sabido de Plínio, ignorado de Estrabo,

E que Homero cantou em uma nova língua.

“Assim foi que pudeste haver África adusta,

Ásia, e esse futuro e desmedido império,

Que no fecundo chão do recente hemisfério

A semente brotou da tua raça augusta.

“Eis, Lusitânia, a obra. Os séculos que a viram

Emergir, com o sol dos mares, e a poliram,

Transmitem-lhe a memória aos séculos futuros.

“Hoje a terra de heróis sofre a planta inimiga...

Quem pudera mandar aqueles peitos duros!

Quem soubera empregar aquela força antiga!”

VI

E depois de um silêncio: — “Um dia, um dia, um dia

Houve em que nesta nobre e antiga monarquia,

Um homem, — paz lhe seja e a quantos lhe consomem

A sagrada memória, — houve um dia em que um homem

“Posto ao lado do rei e ao lado do perigo

Viu abater o chão; viu as pedras candentes

Ruírem; viu o mal das cousas e das gentes,

E um povo inteiro nu de pão, de luz e abrigo.

“Esse homem, ao fitar uma cidade em ossos,

Terror, dissolução, crime, fome, penúria,

Não se deixou cair coos últimos destroços.

“Opôs a força à força, opôs a pena à injúria,

Restituiu ao povo a perdida hombridade,

E donde era uma ruína ergueu uma cidade.

VII

“Esse homem eras tu, ó alma que repousas

Da cobiça, da glória e da ambição do mando,

Eras tu, que um destino, e propício, e nefando,

Ao fastígio elevou dos homens e das cousas.

“Eras tu que da sede ingrata de ministro

Fizeste um sólio ao pé do sólio; tu, sinistro

Ao passado, tu novo obreiro, áspero e duro,

Que traçavas no chão a planta do futuro.

“Tu querias fazer da história uma só massa

Nas tuas fortes mãos, tenazes como a vida,

A massa obediente e nua.

“A luminosa efígie tua

Quiseste dar-lhe, como à brônzea estátua erguida,

Que o século corteja, inda assustado, e passa.

VIII

“Contra aquele edifício velho

Da nobreza, — elevado ao lado do edifício

Da monarquia e do evangelho, —

Tu puseste a reforma e puseste o suplício.

“Querias destruir o vício

Que a teus olhos roía essa fábrica enorme,

E começaste o duro ofício

Contra o que era caduco, e contra o que era informe.

“Não te fez recuar nesse áspero duelo

Nem dos anos a flor, nem dos anos o gelo,

Nem dos olhos das mães as lágrimas sagradas.

“Nada; nem o negror austero da batina,

Nem as débeis feições da graça feminina

Pela veneração e pelo amor choradas.

IX

“Ah! se por um prodígio especial da sorte,

Pudesses emergir das entranhas da morte,

Cheio daquela antiga e fera gravidade,

Com que salvaste uma cidade;

“Quem sabe? Não houvera em tão longa campanha

Ensangüentado o chão do luso a planta estranha,

Nem correra a nação tal dor e tais perigos

Às mãos de amigos e inimigos.

“Tu serias o mesmo aspérrimo e impassível

Que viu, sem desmaiar, o conflito terrível

Da natureza escura e da escura alma humana;

“Que levantando ao céu a fronte soberana,

— “Eis o homem!” disseste, — e a garra do destino

Indelével te pôs o seu sinal divino”.

X

E, soltado esse lamento

Ao pé do grande moimento,

Calou-se a voz, dolorida

De indignação.

Nenhum outro som de vida

Naquela igreja escondida...

Era uma pausa, um momento

De solidão.

E continuavam fora

A morte, dona e senhora

Da multidão;

E devastava a batalha,

Como o temporal que espalha

Folhas ao chão.

XI

E essa voz era a tua, ó triste e solitário

Espírito! eras tu, forte outrora e vibrante,

Que pousavas agora, — apenas cintilante, —

Sobre o féretro, como a luz de um lampadário.

Era tua essa voz do asilo mortuário,

Essa voz que esquecia o ódio triunfante

Contra o que havia feito a tua mão possante,

E a inveja que te deu o pontual salário.

E contigo falava uma nação inteira,

E gemia com ela a história, não a história

Que bajula ou destrói, que morde ou santifica.

Não; mas a história pura, austera, verdadeira,

Que de uma vida errada a parte que lhe fica

De glória, não esconde às ovações da glória.

XII

E, tendo emudecido essa garganta morta,

O silêncio voltara àquela nave escura,

Quando subitamente abre-se a velha porta,

E penetra na igreja uma estranha figura.

Depois outra, e mais outra, e mais três, e mais quatro.

E todas, estendendo os braços, vão abrindo

As trevas, costeando os muros, e seguindo

Como a conspiração nas tábuas de um teatro.

E param juntamente em derredor do leito

Último em que descansa esse único despojo

De uma vida, que foi uma longa batalha.

E enquanto um fere a luz que as tênebras espalha,

Outro, com gesto firme e firmíssimo arrojo,

Toma nas cruas mãos aquele rei desfeito.

XIII

Então... O homem que viu arrancarem-lhe aos braços

Poder, glória, ambição, tudo o que amado havia;

Esse que foi o sol de um século, que um dia,

Um só dia bastou para fazer pedaços;

Que, se aos ombros atara uma púrpura nova,

Viu, farrapo a farrapo, arrancarem-lha aos ombros;

Que padecera em vida os últimos assombros,

Tinha ainda na morte uma última prova.

Era a brutal rapina, anônima, noturna,

Era a mão casual, que espedaçava a urna

A troco de um galão, a troco de uma espada;

Que, depois de tomar-lhe esses sinais funestos

Da sombra de um poder, pegou dos tristes restos,

Ossos só, e espalhou pela nave sagrada.

XIV

Assim pois, nada falta à glória deste mundo,

Nem a perseguição repleta de ódio e sanha,

Nem a fértil inveja, a lívida campanha,

De tudo o que radia e tudo que é profundo.

Nada falta ao poder, quando o poder acaba;

Nada; nem a calúnia, o escárnio, a injúria, a intriga,

E, por triste coroa à merencória liga,

A ingratidão que esquece e a ingratidão que baba.

Faltava a violação do último sono eterno,

Não para saciar um ódio insaciável,

Insaciável como os círculos do inferno.

E deram-ta; eis-te aí, ó grande invulnerável,

Eis-te ossada sem nome, esparsa e miserável,

Sobre um pouco de chão do ninho teu paterno.

Seja o primeiro a comentar

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Troca de Links - Parceiros RSS Search Site no Esquillo Directorio Twingly BlogRank Teaching Blog Directory GoLedy.com Divulgue seu blog! Blogalaxia BRDTracker Directory of Education/Research Blogs Top Academics blogs Education and Training Blogs - BlogCatalog Blog Directory blog directory Blog Search: The Source for Blogs Submit Your Site To The Web's Top 50 Search Engines for Free! Sonic Run: Internet Search Engine Estou no Blog.com.pt
http://rpc.twingly.com/

  ©Trabalhos Feitos / Trabalhos Prontos - Todos os direitos reservados.

Template by Dicas Blogger | Topo