Poesias dispersas - ÁLVARES D'AZEVEDO [10]

AO SR. DR. M. A. D'ALMEIDA

Vejo em fúnebre cipreste

Transformada a ovante palma!

PORTO ALEGRE.

Morrer, de vida transbordando ainda,

Como uma flor que ardente calma abrasa!

Águia sublime das canções eternas:

Quem no teu vôo espedaçou-te a asa?

Quem nessa fronte que animava o gênio,

A rosa desfolhou da vida tua?

Onde o teu vulto gigantesco? Apenas

Resta uma ossada solitária e nua!

E contudo essa vida era abundante!

E as esperanças e ilusões tão belas!

E no porvir te preparava a pátria

Da glória as palmas e gentis capelas!

Sim, um sol de fecunda inteligência

Sobre essa fronte pálida brilhava,

Que à face deste século de indústria

Tantos raios ardentes derramava!

E pôde a morte destruir-te a vida!

E dar à tumba a tua fronte ardente!

Pobre moço! saudaste a estrela d’alva,

E o sol não viste a refulgir no Oriente!

Morrer, de vida transbordando ainda,

Como uma flor que ardente calma abrasa!

Águia sublime das canções eternas:

Quem no teu vôo espedaçou-te a asa?

Voltaste à terra só — Não morrem Byrons,

Nem finda o homem na friez da campa!

Homem, tua alma aos pés de Deus fulgura,

Teu nome, poeta, no porvir se estampa!

Não morreste! estalou a fibra apenas

Que a alma à vida de ilusões prendia!

Acordaste de um negro pesadelo,

E saudaste o sol do eterno dia!

Mas cá fica no altar do pensamento

Teu nome como um ídolo pomposo,

Que a fama com o turíbulo dos tempos

Perfuma de um incenso vaporoso!

E ao ramalhete das brasílias glórias,

Mais uma flor angélica se enlaça,

Que a brisa ardente do porvir passando

Trêmula beija e a murmurar abraça!

Byron da nossa terra, dorme embora

Envolto no teu fúnebre sudário,

Murmure embora o vento dos sepulcros

Junto do teu sombrio santuário.

Resta-te a c’roa santa de poeta,

E a mirra ardente da oração saudosa,

E pelas noites calmas do silêncio

Os séculos da lua vaporosa!

Ela te chora, e ali com ela a pátria,

Pobre órfã de teus cânticos divinos,

E das brisas na voz misteriosa,

Da saudade e da dor sagram-te os hinos!

Dorme junto de Chatterton, de Byron,

Frontes sublimes, pra sonhar criadas,

Almas puras de amor e sentimento,

Harpas santas, por anjos afinadas!

Dorme na tua fria sepultura

Guarda essa fronte vaporosa, ardente,

Tu, que apenas saudaste a estrela-d'alva

E o sol não viste a refulgir no Oriente!

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