O Almada - ÍNDICE


Texto-fonte:

Poesias Completas, Machado de Assis,

W. M. Jackson, Rio de Janeiro, 1938.

Publicado originalmente em Outras Relíquias, Rio de Janeiro, Garnier, 1910.

ÍNDICE

ADVERTÊNCIA

CANTO PRIMEIRO

CANTO II

CANTO III

CANTO IV

CANTO V

CANTO VI

CANTO VII

CANTO VIII

O ALMADA

Poema herói-cômico em 8 cantos

(Fragmentos)


* Verso de Odorico Mendes, na tradução da Eneida.



[1] Senado chamo eu em todo este livro ao que naquele tempo tinha o simples título de Câmara. A mercê de se chamar Senado foi feita à Câmara do Rio de Janeiro por provisão de 11 de março de 1748, segundo monsenhor Pizarro (Memórias Históricas, tom. VII, pág. 159). Segundo o Dr. Haddock Lobo (Tombo das Terras Municipais, tom. 1, pág. 39) foi essa provisão datada de 11 de março de 1757. Vê-se que os dois autores combinam no dia e no mês. Para o nosso caso, não vale a pena examinar se foi efetivamente em 1757, se em 1748.

Apesar de só ter obtido aquela mercê no meado do século XVIII, a Câmara do Rio de Janeiro já anteriormente recebera a denominação de Senado em provisão régia datada de 1712.

Mais. No século anterior, em 1667, num auto de mediação nas terras do conselho, por mandado do ouvidor-geral Manuel Dias Raposo, deu-se à Câmara do Rio de Janeiro o título de Senado. (Veja Tombo das Terras Municipais, tom. 1, pág. 88).

Finalmente, Lisboa (Anais, tom. III, pág. 323) traz uma carta da Câmara ao prelado Almada, com a data de 1659, que é a mesma da ação do poema, e escrita anteriormente ao episódio da devassa, a qual carta começa assim:

"Neste Senado se fez por parte do povo..."

Usava pois a Câmara, ainda que não legalmente, do título que lhe dou.

[2] Mais de uma vez tenho lido e ouvido que a cidade do Rio de Janeiro nada tem de airosa e garbosa, ao menos na parte primitiva, a muitos respeitos inferior aos arrabaldes.

Não me oponho a esse juízo; mas eu não conheço as belas cidades estrangeiras, e depois, falo da minha terra natal, e a terra natal, mesmo que seja uma aldeia, é sempre o paraíso do mundo. Em compensação do que não lhe deram ainda os homens, possui ela o muito que lhe deu a natureza, a sua magnífica baía, as montanhas e colinas, que a cercam, e o seu céu de esplêndido azul. Acresce que nesta dedicatória comparo eu o que é hoje ao que era a cidade em 1569, diferença, na verdade, enorme.

[3] Tomé Correia de Alvarenga, alcaide-mor do Rio de Janeiro e natural desta cidade, exercia interinamente o cargo de governador por não ter ainda chegado da Bahia o governador efetivo Lourenço de Brito Correia, como tudo fora ordenado na carta régia de 27 de março de 1657.

[4] Ocorreu esta revolta em novembro de 1660. Era então Governador Salvador Correia de Sá e Benevides; mas tendo partido para São Paulo, a fim de visitar as minas, ficara no governo Tomé de Alvarenga. A revolta foi muito séria, como se pode ver do citado Lisboa (Anais, tomo IV, no princ.). Tomé de Alvarenga refugiara-se no convento de São Bento; foi dali arrancado e metido na fortaleza de Santa Cruz.

[5] Ouvidor geral era o seu título; chamo-lhe simplesmente ouvidor por liberdade e conveniência poética.

[6] O Rev. Dr. Manuel de Sousa Almada, presbítero do hábito de São Pedro, foi nomeado prelado administrador por provisão de 12 de dezembro de 1658, e tomou posse no mesmo ano em que se passa a ação do poema, 1659.

[7] Duas vezes alude Chateaubriand à emigração das cegonhas da Grécia para a África. Uma, no Itinerário, parte I, e diz assim: “Vi, quando estávamos no alto da colina do Museu, formarem-se em bando as cegonhas e abrirem vôo para a África. Fazem elas há dois mil anos esta mesma viagem; vivem livres e felizes na cidade de Sólon como na cidade dos eunucos gregos”.

Nos Mártires, canto XV, põe na boca de Demódoco estas palavras (trad. de F. Elísio):

“Cada ano erguem seu vôo, essas cegonhas,

De abas do Ilisso e areias de Cirene,

E aos campos de Ereteu cada ano voltam.

Quantas vezes não acham erma a casa

Que florente ficou, quando partiram!

Quantas o mesmo teto em vão buscaram

Onde não tinham de lavrar seus ninhos!”

Nada há tão deveras melancólico como esse contraste do homem com toda a mais natureza. Muita vez, subindo a alguma das eminências da nossa cidade, e lançando os olhos do corpo a essa vasta aglomeração de obras que a civilização criou e perfez, volvo os da alma a quatro séculos antes, quando uma sociedade semibárbara dominava as margens do golfo e as terras interiores. Nenhum vestígio há já dela; nenhum vestígio há de haver da nossa, depois que volverem outros séculos; mas o sol que os aluminou e nos alumia é o mesmo; e toda a natureza parece indiferente às nossas obras caducas.

[8] O sucesso a que aludo ocorreu justamente três meses antes do conflito da devassa. A matriz da cidade estava então na igreja de São Sebastião; Almada tentou desfabricá-la e mudá-la para a ermida de São José, mudando ao mesmo tempo o santo, padroeiro da cidade. Abalou-se por esse motivo o povo; a Câmara, ouvidas as autoridades, dirigiu ao prelado uma carta comunicando a resolução em que estavam ela e o povo de deixar tudo no mesmo estado, até vir de el-rei a resolução que se lhe ia mandar pedir.

A resposta do prelado é um documento do seu gênio fogoso e impaciente. Depois de repreender duramente a Câmara, marca-lhe três dias para revogar a resolução tomada sob pena de a declarar incursa na excomunhão da Bula Da Ceia, e dá enfim as razões que tinha para o que intentava fazer. A concessão única, segundo se vê da carta, foi conservar na igreja do oratório a imagem do santo.

Melhor se conhecerá do homem pelo estilo, se todavia é exato o aforismo de Buffon. A carta do prelado terminava assim:

"Em todo o ano não há quem vá um domingo à matriz e agora lhes chegou este zelo. Lêem-se as cartas de excomunhão às paredes, correm-se banhos, fazem-se as festas da Páscoa e Natal aos negros do vigário, e sobretudo está o Santíssimo na igreja e tem a chave dela um secular, tesoureiro da confraria, que entra nela de dia e de noite, e nisto se não adverte. Tudo o que há na igreja matriz hei de mudar para baixo, e só o altar de São Sebastião com o santo, sua fábrica e confraria, e um signo, hei de deixar na matriz; para ter cuidado da igreja hei de pôr um ermitão.”

A Câmara resistiu; o governador interpôs os seus bons ofícios, e moveu o prelado a suspender a excomunhão até resolução de el-rei.

Na carta então dirigida pela Câmara a Afonso VI vejo citado um alvará régio ordenando que os prelados, bem como outros ministros, fossem morar no alto da cidade, o que eles não faziam, circunstância que me deu idéia dos dois versos:

Para poupar às reverendas plantas

A subida da íngreme ladeira.

Além da carta régia, temos a carta do bispo D. Francisco, no princípio do século seguinte (1703), dando conta à rainha da complicada história da mudança da Sé. O bispo diz: "... E alongando-se... a residência dos ministros da Sé, que privados das comodidades necessárias às suas subsistências, procuram a vivenda no centro da povoação, foi mais difícil o serviço da igreja, e conseqüentemente pouco exata a prática dos deveres de cada um dos empregados nos benefícios e cargos anexos da catedral".

[9] Não será preciso lembrar ao leitor católico que São José era carpinteiro em Nazaré. A casa do prelado (segundo leio em Pizarro, tomo III, pág. 177, nota) ficava entre a ermida de São José e o edifício, que foi cadeia e é hoje Câmara dos Deputados.

[10] O licenciado Francisco da Silveira Vilalobos era o vigário-geral e exercera inteiramente a prelazia do Rio de Janeiro.

[11] Capacho não está ainda incluído nos dicionários no sentido que lhe dá o povo para exprimir um homem servil. A locução todavia é pitoresca e merece as honras de cidade. Penso que mais de um escritor a tem empregado neste sentido: nos diários é vulgar.

[12] O Padre Rafael Cardoso foi quem intimou o ouvidor-geral a entregar a devassa.

Cardoso e Vilalobos são figuras que a história me ofereceu; os demais companheiros de Almada são personagens de imaginação; a uns e outros dei as feições e o caráter convenientes à ação e ao gênero do poema.

[13] Espraiar o baço é tradução de épanouir la rate, não minha, mas de Filinto Elísio, que assim se exprime numa nota.

[14] Era este um dos mais inveterados abusos; apesar de todos os decretos, os rapazes de todos os tempos iam namorar as moças nas igrejas. Já em 1657, dois anos antes da ação do poema, D. Afonso VI ordenara que se proibisse que os homens falassem com mulheres nas igrejas, suas portas e adros. No ano seguinte foi estendida a proibição aos que somente as esperassem naqueles lugares para as verem, ainda que lhes não falassem. (Vide Pizarro, tomo V, pág. 19).

Com o tempo voltou o abuso, e no século seguinte o bispo D. Frei Antônio do Desterro proibiu as conversações e ajuntamentos nas portas e adros dos templos, "principalmente em dias de festa e concorrência"; pastoral de 14 de março de 1767. (Vide Pizarro, VI, pág. 17).

[15] As festas a que aludo nesta estância foram as da aclamação de D. João IV, em 1641, quando aqui chegou a notícia da queda da dominação castelhana. Foram esplêndidas a ser exata a Relação que delas faz um anônimo, e que o Sr. Varnhagen comunicou ao Instituto Histórico, em cuja Revista, tomo V, foi reproduzida.

Duraram sete dias, e constaram de alardo de tropas, touros, encamisada, canas, manilhas, máscaras e comédia. Um trecho da aludida Relação dará idéia, não só do que foi a festa, mas também do estilo do narrador: "Foi o princípio das festas uma encamisada que fizera mostra, alegrando todas as ruas da cidade 116 cavaleiros, com tanta competência luzidos, tão luzidamente lustrosos, e tão lustrosamente custosos, que nem Milão foi avaro nem Itália deixou de ser prodigamente liberal... E para maior alegria se lhe agregaram dois carros, ornados de sedas e aparatos de ramos e flores, e tão prenhados de música, que em cada esquina de rua parecia que o coro do Céu se havia humanado; ação do licenciado Jorge Fernandes da Fonseca, e obrada com seus filhos únicos nesta... e que merecem o louro, não só da invenção como do sonoro".

Não menos curioso é o que diz o narrador acerca das luminárias:

"... se viu a cidade tão cheia de luminárias, que não fazendo falta o brilhante esplendor do planeta monarca e substituídas as estrelas nas janelas e ruas, formavam tantos cambiantes tornassóis no vário de intenções, que se enredava o pensamento nas luzes e se confundia no número, pois o limitado do lugar parece que se dilatava com elas nesta ocasião".

[16] A iluminação só começou no governo do Conde de Resende, em 1790. Até então havia o recurso de trazer lanterna; a única iluminação eram as lâmpadas de azeite que de longe em longe alumiavam alguns oratórios postos nas esquinas.

[17] Os capitães-do-mato tinham sido criados mui recentemente, talvez no ano anterior, com o fim de destruir quilombos e capturar os escravos fugidos, que eram muitos e ameaçavam a vida e a propriedade dos senhores de engenho, bem como as da população da cidade.

[18] Será preciso dizer que a palavra padrinho é aqui um eufemismo?

[19] Leve por levemente. São vulgares nos bons autores estes exemplos de adjetivos empregados adverbialmente. Gonçalves Dias, que versava os clássicos, muitos exemplos traz e de bom cunho. Citarei dois, tirados de seus admiráveis Timbiras:

A nossa incúria grande eterno asselam

(Canto I).

Os olhos turvos

Levou a extrema vez o desditoso

Àqueles céus d'azul, àquelas matas

Doce cobertos de verduras e flores

(Canto III).

[20] Não é preciso lembrar a influência dos jesuítas naquele século. Entre nós era imensa; a sugestão do Lucas, portanto, não podia ser mais natural. A mesma Câmara, enviado, cinco anos antes à corte, um procurador seu para obter do rei algumas reformas, não o fez sem um atestado do reitor do Colégio, o qual começava por estes termos: "Certifico que, considerando o estado presente desta praça, freqüência e opulência passada do seu comércio e grande diminuição a que tem vindo, e o geral aperto de todos os moradores da terra, além de muitas outras razões do serviço de Deus e de S. Majestade, têm entendido todos os religiosos deste colégio que necessita a república de mandar à corte um cidadão, etc. etc."

[21] Não é isto uma expressão vaga e malévola. A relação do Padre Fernão Cardim, companheiro do Padre Cristóvão de Gouveia na visita aos colégios da Companhia no Brasil, em 1590, tratando do Rio de Janeiro, traz as seguintes informações:

"... Também tem uma vinha que dá boas uvas, os melões se dão no refeitório quase meio ano e são finos; nem faltam couves mercianas bem duras, alfaces, rabãos e outros gêneros de hortaliças de Portugal em abundância, o refeitório é bem provido do necessário, a vaca na qualidade e gordura se parece com a de Entre Douro e Minho; o pescado é vário e muito, e são para ver as pescarias da sexta-feira, e quando se compra, vale o arrátel a quatro réis, e se é peixe sem escama, a real e meio, e com um tostão se farta toda a casa... Duvidava eu qual era o melhor provido, se o refeitório de Coimbra, se este, e não me sei determinar...”

[22] Amam dizer parecerá forma irregular ou galicismo a quem não conhecer, entre outros exemplos, este de Filinto (trad. de Oberon): "Amam contar os velhos..."

Gonçalves Dias emprega também, e em mais de uma ocasião, aquela maneira de dizer. Citarei este exemplo dos Timbiras:

Amavam contemplar-te os de Itajuba

Impávidos guerreiros

(Canto III).

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