O Almada - CANTO VIli

I

Naquele tempo, a mão da arte engenhosa

Os elegantes bairros não abrira,

Refúgio da abastança deste século,

E passeio obrigado dos peraltas.

Por essas praias ermas e saudosas

Inda guardava o eco o som terrível

Do falcão, do arcabuz que a vez primeira

Despertou Guanabara, e o silvo agudo

Da frecha do Tamoio. Ainda o eco

As rudes cantilenas repetia

Do trovador selvagem de outro tempo,

Que viu perdida a pátria, e viu com ela

Perdida a longa história de seus feitos

E os ritos de Tupã, perdida a raça

Que as férteis margens... Musa, onde me levas?

Filosofias vãs, quimeras, sonhos,

Flores, — apenas flores, — que não valem

Tantos gozos reais dos nossos dias,

Em paz os deixa, e do ouvidor famoso

À rústica morada me encaminha.

II

Não longe do tumulto da cidade,

Entre a verdura de copado bosque,

Tinha o Mustre uma casa de recreio.

Ali nos dias da estação calmosa,

Depois que à porta sacudia o tédio,

Tranqüilo descansava algumas horas

Da inércia do regaço. Ali gozando

Por olhos, boca, ouvidos e narizes,

Da fértil natureza os dons mais belos,

Correr deixava o mundo, sem que a fronte

O mínimo receio lha ensombrasse.

........................................

........................................

........................................

........................................

III

........................................

........................................

........................................

........................................

........................................

........................................

........................................

O terrível Cardoso. Traz fechado

Na esquerda mão o singular decreto;

Com um gesto solene o desenrola,

Tosse, escarra, compõe a voz e o rosto,

E o venerando anátema lhe lança.

IV

Do longo espanto o fulminado Mustre

Enfim voltou; os olhos pela estrada

Desvairados estende; à casa torna

Apressado; braceja, grita, ordena

Que o padre chamem; quatro escravos correm

E voltam sem mais novas do Cardoso

Que veloz se tornara ao grande Almada

Da triunfante missão a dar-lhe conta.

V

Já trêmulo de raiva, já de susto,

O magistrado fica; ora, calado

Algum tempo rumina; ora, soltando

Descompassadas vozes e suspiros,

Atônito percorre a casa inteira.

Vagamente cogita uma vingança

Contra o duro rival; mas logo a triste

Realidade o coração lhe afrouxa.

A fantasia pinta-lhe o desprezo

Dos devotos sinceros, a medonha,

A dura solidão da vida sua,

O fugir dos amigos, os estranhos

Que por trás uma cruz fazendo nele,

Mais sozinho na terra vão deixá-lo

Do que em praia deserta ingrato dono

Deixa um triste cavalo moribundo.

Ora pensa em fugir; ora em prostrar-se

Do sagrado pastor aos pés, rendido...

Enleia-se, vacila, nada escolhe,

E nesta triste, miserável vida,

Entre sonhos, visões, medos e angústias,

Passa o duro ouvidor três horas longas.

VI

Enfim ceder a Almada determina,

A devassa entregar-lhe, assentar pazes,

Comprar com pouco a salvação eterna,

Uma esperança ao menos. Manda logo

À casa do escrivão que ali lhe traga

A famosa devassa, que enviada

De véspera lhe fora, e todo aflito

De sala em sala passeando espera.

VII

Mas a terrível Ira que perdia

Deste modo a campanha começada,

Pois no seio da paz de novo entrando,

Todo seria da Preguiça e Gula

O grão pastor da igreja fluminense,

Entra na pele do escrivão Ramalho

E à casa vai do esmorecido Mustre.

Este, apenas lobriga da janela

O fiel serventuário, e nenhum rolo

Lhe descobre nas mãos, trêmulo fica

E outra vez assustado ao portão desce;

A tempo que o Ramalho, mais risonho

Que um céu azul, que um dia de noivado,

Apressado chegava e lhe dizia:

— “Senhor, matai-me embora! Não vos trago

A devassa pedida, que acho injúria

Ao finíssimo sangue que vos corre

Nessas honradas veias, ao respeito

Em que há muito vos tem el-rei e a corte,

Abaixar-vos aos pés de um vão prelado,

E rojar-vos no pó da sacristia”.

VIII

Disse, e nas amplas ventas inserindo

Do recente rapé duas pitadas,

Foi por este teor desenrolando

Mil razões, mil inchados argumentos,

Com que em todas as eras deste mundo

Um naire ilustre convencer se deixa.

IX

“Eu bem sei (convencido lhe responde

O ouvidor), eu bem sei que fora triste

Que um preclaro varão da minha estofa,

Cujo nome não ouve o delinqüente

Sem desmaiar de susto, e que este povo

Respeitoso contempla, na baixeza

Caísse de ir ao pés de um vão prelado

E rojar-se no pó da sacristia.

Mas, meu caro Ramalho, que recurso

Nesta vida me resta? Tu não sabes

Que de mim vai fugir a gente toda?

Que eu vou ser o leproso da cidade?

Que meirinhos, beatas, algibebes,

E quem sabe se até os cães vadios,

Que à sumida barriga andam de noite

Pelas ruas catando algum sustento,

Tudo vai desprezar-me? Bom aviso

Quando falha a vitória na batalha,

É ceder às falanges do inimigo,

E preparar uma futura guerra”.

X

O mofino ouvidor assim falando,

Com apuro a vestir-se principia,

Uma arenga compondo de cabeça

Em que do seu pecado arrependido

Claramente se mostre, quando a Ira

Ao Ramalho sugere este conselho:

“Salvo, salvo senhor! é salvo tudo!

Conhecido vos é como o Senado,

Em luta com o pastor da nossa igreja,

Dele tem recebido tanta injúria,

E em risco está de semelhante pena.

Procurai-o, senhor, e com protesto,

Em nome da coroa e da justiça,

O negócio deponde. Deste modo

A muitos caberá toda essa afronta

E mais certa será nossa vitória”.

XI

Aceita foi a salvadora idéia.

Saem ambos os dous no mesmo instante,

Voam, chegam à casa do Senado,

E na sala penetram. Conversavam

Justamente do caso os camaristas.

E, na pele mordendo do prelado,

Receavam talvez igual destino

Ao do fero ouvidor, se no conflito,

Que há muito trazem com o grande Almada,

O jus do povo defender quiserem;

Quando na sala entrando furioso

A sua excomunhão refere o Mustre,

E lhes pede em defesa da coroa

O braço popular. Todo o congresso

Gelado fica. Súbito as cadeiras

Pela terra deitando, às portas correm

Os graves camaristas, e fugindo

Ao mísero ouvidor excomungado,

Para casa se lançam. Da pedreira,

Lançado o fogo à mina, a toda a pressa

Da mesma sorte os cavouqueiros fogem

Receosos de avulsos estilhaços.

XII

Em vão a Ira, com diversas formas,

A todos busca, e amaciando a fala,

A lembrança do afeto lhes desperta,

Os jantares comidos noutro tempo,

Os festivos saraus, cartas de empenho,

Mil finezas, em suma, sepultadas

No vasto cemitério da memória...

A filha do diabo então sacode

Irritada a cabeça, e do mais fundo

Das entranhas um grito de ameaça

E frio escárnio solta: “Homens! (exclama)

Lacaios da fortuna! Eu terei armas

Com que de ingratos corações triunfe!”

XIII

Isto dizendo, mais ligeira voa

Que o soberbo condor, quando do cimo

Dos Andes rompe o assustado espaço,

E vai surgir além das altas nuvens.

Voa, e chega aos domínios da Lisonja.

Os flóridos umbrais transpõe de um salto.

Logo em frente lhe surge extensa e bela

Uma alameda de árvores copadas,

Que, para a terra os galhos recurvando,

Com singular donaire e afável gesto

Cortejá-la parecem respeitosas.

Caminha, e fina relva os pés lhe afaga;

Respira, e um doce aroma o peito lhe enche.

A tão brando contato, a tais delícias,

Ó milagre! um sorriso prazenteiro

Logo vem desbrochar-lhe à flor dos lábios

Que eterna raiva aperta. Segue avante,

A branca e longa escadaria sobe,

A varanda atravessa alcatifada

De brancas flores e cheirosa murta.

Já rendida de gosto, entra na sala,

Dá dous passos, e a recebê-la chegam

Vinte ou trinta Zumbaias, que vergando

Pela cintura o corpo delicado,

Beijar o chão parecem; após delas,

Com dourados turíbulos acesos,

Vêm quatro Rapapés; fechando tudo

Extensa procissão de Cortesias.

XIV

De tais recebimentos namorada,

O primeiro salão transpõe a culpa,

Entra no camarim, forrado todo

De flores, de arabescos, laçarias,

Que enche contínuo, tépido perfume

De seis grandes caçoulas de alabastro.

Entra, e defronte de um pomposo espelho

A Lisonja descobre, que risonha

Mil cumprimentos novos ensaiava

E mil versos rasteiros repetia.

Ao ver a feroz culpa a dona amável

Uma grande mesura em quatro tempos

Graciosa faz, e diz: “A que milagre

Devo eu esta visita? Acaso o orbe,

Que ao peso treme de tuas nobres armas,

Estreito campo é já para teus feitos?

Vens o peito acender da serva tua?

Bem cruel me há de ser esse desastre,

Mas se é teu gosto, sofrerei contente,

A terra beijarei que tu pisares

E acharei na desgraça a glória minha”.

A ardilosa Lisonja assim falando

Toda se curva, e a orla do vestido

Da culpa chega aos lábios; mas a Ira

Prontamente a levanta, e nos seus braços,

Com meneios benévolos, a aperta,

E logo fala: “A tua paz respeito:

Turvar não venho a deliciosa corte

Donde o mundo governas; mas auxílio

Do teu engenho quero”. Aqui lhe conta

A famosa aventura do prelado,

A angústia do ouvidor, e a covardia

Dos ingratos amigos de outro tempo,

E pede que a Lisonja as armas suas

Contra estes empregue. “Que mesquinho

Serviço exiges! (a Lisonja exclama);

Eu podia mandar quatro Zumbaias;

Tanto bastava por vencer o ânimo

Dos rebeldes; mas sendo a vez primeira

Que vens honrar estes quietos paços,

Abater-lhes o colo irei eu mesma

E levá-los de rojo aos pés do Mustre”.

XV

Com diligente mão os filtros busca,

E seguida da hóspede no espaço

Voa ligeira à plaga fluminense.

À casa dos rebeldes se encaminha,

E a todos, um por um, pela alma dentro,

O seu doce veneno lhes entorna.

De baixa adulação logo tomados,

Vestem-se a toda a pressa, e não podendo

Conter o intenso fogo que os devora,

Aos criados de casa e às quitandeiras

Vão fazendo profundas barretadas.

Tanto a Lisonja vã governa os homens!

XVI

Abre a sessão de novo o presidente,

E deste modo fala: “Grave caso

Este é, senhores; mas as vossas luzes

Tudo podem vencer. Em meu conceito

Recusar não podemos o protesto,

E muito embora formidável seja

O prelado, não creio que devamos

Sem amparo deixar as leis do Estado.

Nem poupar desta vez um grande golpe

No atrevido pastor”. Com todo o zelo

Examinado o singular assunto,

O Senado resolve em pouco tempo

Que ao regedor supremo da cidade

Os papéis se remetam com protesto

Do povo, e petição em nome dele

Por que anulada seja sem demora

A excomunhão, e feito este decreto

Voam dali aos paços do Alvarenga.

XVII

O alcaide-mor, que os meios estudava

De praticar no esmorecido povo,

Com a aguda lanceta do Senado,

Uma sangria nova, cortesmente

Os faz sentar e prazenteiro os ouve,

E depois de os ouvir com grande pausa,

A petição da Câmara recebe

Sem muita hesitação; mas porque seja

O caso novo, e caminhar convenha

Sem da igreja ferir os santos foros,

Manda o governador que se convidem

Os diversos teólogos da terra,

O reitor do Colégio, o Dom Abade,

O guardião dos filhos de Francisco,

Frei Basílio, prior dos Carmelitas,

E alguns licenciados de mão cheia,

Que o nó desfaçam deste ponto escuro.

Seja o primeiro a comentar

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Troca de Links - Parceiros RSS Search Site no Esquillo Directorio Twingly BlogRank Teaching Blog Directory GoLedy.com Divulgue seu blog! Blogalaxia BRDTracker Directory of Education/Research Blogs Top Academics blogs Education and Training Blogs - BlogCatalog Blog Directory blog directory Blog Search: The Source for Blogs Submit Your Site To The Web's Top 50 Search Engines for Free! Sonic Run: Internet Search Engine Estou no Blog.com.pt
http://rpc.twingly.com/

  ©Trabalhos Feitos / Trabalhos Prontos - Todos os direitos reservados.

Template by Dicas Blogger | Topo