O Almada - CANTO VIII

I

Era alto dia, e todo alvoroçado

Corria o povo de uma banda a outra,

A sentença aguardando do conselho

Que ia da excomunhão julgar o caso.

A tranqüila cidade que inda há pouco

No regaço da paz adormecia,

Em dous opostos campos se divide,

Como os que a bela terra, em cuja fala

A musa antiga suspirar parece,

Um tempo viu terçar sangrentas armas

Em favor da tiara e da coroa.

II — III — IV — V

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........................................

VI

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Das doutas expressões com que alindara

O libelo da Câmara, nos olhos

Dos conselheiros curioso busca

O gosto interpretar que lhes deixara,

O pasmo, a admiração; e tantas vezes

No ânimo revolve o seu discurso,

Que o debate não ouve do Congresso,

E ali com gente solidário fica.

VII

Na sua sala, entanto, passeando

O prelado aguardava a boa nova,

E certo do triunfo, já na mente,

Em obséquio ao reitor, delineava

Um pomposo jantar. De quando em quando

À janela chegava; mas não vendo

O mensageiro seu, de impaciente

Mordia o lábio e a causa da demora

Entre si perguntava e respondia.

Conjeturava então que o Dom Abade,

Por afeição do Mustre, e desejoso

De dar no seu poder um grande golpe,

Um discurso fazia entremeado

De longas citações e perdigotos.

Mas o agudo reitor, que pelejava

Ao lado da justiça, e traz consigo

Autores que estudara a noite inteira,

Trovejando vermelho se levanta,

E com amplas razões, iradas vozes,

Entre o férvido aplauso do conselho,

Ponto por ponto lhe desfaz na cara

Toda a argumentação beneditina.

VIII

A tais cousas alheio, o sol brilhante,

Esse eterno filósofo que os raios

Com desdenhosa placidez desfere

Iguais sobre ouvidores e prelados,

Já do zênite ao rúbido ocidente

Inclinava a carreira. Examinados

A causa do conflito e os seus efeitos,

Pesadas as razões de parte a parte,

Unânime o conselho determina

A excomunhão sustar do austero Mustre

E a causa sujeitar ao régio voto.

Em vão na mente decorado tinha

O reitor um discurso em que provava

A justiça do Almada; mas a Ira,

Que tomando a figura de um porteiro,

Assiste à discussão, que o triunfo

Busca evitar do intrépido prelado,

De tais artes se serve, de tais manhas,

Que o cérebro transtorna ao jesuíta,

A opinião lhe muda, e o nome dele

Entre os nomes reluz do torvo acórdão.

IX

Copiada a sentença, ali se escolhe

Para a Almada levá-la prontamente

O escrivão do Senado; mas o triste,

Que do prelado conhecia a fama,

Umas dores alega na cabeça,

E, por que seja acreditado o caso,

A meter-se na cama logo corre.

Então, o alcaide-mor, que presidia

O governo da terra e o grão conselho,

Um franciscano elege e um carmelita,

E desta expedição confia o mando

Ao reitor do colégio. Bem quiseram

Aqueles atrevidos comissários

Antes do golpe manducar um pouco,

Mas o fino Alvarenga, que previa

Um estrago fatal à sua copa,

Que era de urgência o caso lhes declara,

E delicadamente os põe na rua.

X

Estavas, grande Almada, repousando

De um ligeiro jantar, comido à pressa,

E rodeado dos fiéis amigos,

Antegostavas o terror do Mustre

E a triste humilhação com que viria

De rojo às tuas veneráveis plantas

A remissão pedir dos seus pecados,

Quando à porta assomou da vasta sala

A grande comissão. Correram todos

A receber com muitas cortesias

Os não previstos hóspedes. Alegre,

Nas suas mãos aperta as mãos do Almada

O pérfido reitor, e olhando em roda

Levemente aos demais a fronte inclina.

Depois, fitando no prelado os olhos,

Concertada a garganta, assim começa:

“Se entre os louros, senhor, com que a fortuna,

Não menos que o saber e que a piedade,

A tua fronte majestosa adorna,

Inveja e desespero de almas baixas,

Que em vão se esforçam por lutar contigo,

Inda um louvor faltava, ensejo é este

De o colher vicejante, e de um só golpe

A turba confundir dos teus contrários.

Em que lhe pese ao venenoso dente

Que te morde na sombra, a história tua

Em lâminas escreve de ouro fino,

Com refulgentes letras de diamante,

A justiça do tempo. Eu vejo, eu vejo

Os séculos passando respeitosos

Ante o nome do herói, que resoluto

Os raios empenhou do seu ofício

Para o orgulho abater, a audácia, a inveja,

E entre as bênçãos de um povo amado e amante

Ir no seio pousar da eternidade”.

XI

Aqui chegando, o orador estaca;

E o vão prelado, que escutara alegre

Tão pomposas e amáveis esperanças,

Os braços, que já tinha levantados,

Ao orador estende; este os recebe,

E apertados os peitos contra os peitos,

Alguns minutos ficam; mas, cessando

Esta doce efusão de ambos os cabos,

O reitor do discurso o fio toma:

“Depois de um sério, dilatado exame

Do intrincado conflito, em que empenhaste

Contra um duro rival todas as forças

Que a natureza, que o saber te deram,

O congresso teológico resolve,

Para servir-te, uma sentença justa.

E por que tenhas o propício ensejo

De exercer a vitória mais brilhante

Que a um guerreiro cristão jamais foi dada,

Por que venças melhor o teu contrário

Lançando-lhe o perdão da culpa sua,

Suspender manda a excomunhão lançada

E a causa sujeitar ao régio voto”.

XII

A tal nova, o prelado empalidece,

A vista perde, as pernas lhe bambeiam,

No regelado lábio a voz lhe expira,

“E caiu como cai um corpo morto”.

Desenlace fatal! Ao vê-lo, um grito

Magoado foge dos amigos peitos;

E enquanto a comissão, entre o sussurro,

Sorrateira vai dando aos calcanhares,

A desforrar-se do perdido tempo

No tardio jantar, os reverendos

O prelado conduzem para a cama

E um físico chamar mandam à pressa.

XIII

Vê a Gula a vitória da inimiga,

E, a figura do físico tomando,

À casa voa do abatido Almada,

E depois de operar um breve exame,

Aos aflitos amigos afiança

A vida do prelado; e sem deter-se

Com escrever fantásticas receitas,

Nem pedir chochas drogas de botica,

Manda que o cozinheiro sem demora

Uma gorda galinha ponha ao fogo,

E a tempere, segundo as regras d’arte.

Prontamente obedece o fiel servo,

E pouco tarda que um guloso aroma

A casa toda invada, e sutilmente

Na atmosfera da alcova se derrame.

Prodígio foi! Nos lábios do doente,

Como alvejar costuma no horizonte

Dentre as sombras noturnas a alvorada,

Um sorriso desponta; e pouco a pouco

As pálpebras se vão arregaçando,

Quais as cortinas de nublado inverno

Que, à criadora luz do sol nascente,

A verdura da serra e da campanha,

E enfim o rosto da azulada esfera,

Lentamente esvaindo-se descobrem.

XIV

Neste ponto na alcova entra o copeiro

A galinha trazendo e o grosso caldo;

E o prelado sentando-se na cama,

A convite de todos logo bebe

O caldo em quatro goles, e trincava

O tenro peito da ave, quando a idéia

Do congresso fatal lhe sobe à mente;

Do peito arranca um lânguido suspiro,

E, reprimindo as lágrimas exclama:

“Ah! se eu de todos esperar devia

Tão cruel decisão, reitor ingrato,

Tu só me espantas, único me feres,

Que eu tinha o voto teu e o teu abraço,

E nisso confiado me entretinha

Em saborear a próxima vingança.

Agora, que mortal salvar-me pode

De tão grande vergonha? Oh! quem dissera

Que o destemido Almada, cujo nome

Nas asas voa da ligeira fama,

Os mares assustados atravessa,

Lisboa assombra e desnorteia o mundo,

A tamanha baixeza chegaria

Que os alheios esforços mendigasse?”

XV

Um profundo suspiro a voz lhe embarga;

E enfim rompendo dos fulmíneos olhos

Precipitadas lágrimas lhe banham,

Pela primeira vez, as faces pálidas,

Que inda nessa manhã vermelhas eram.

Correm todos ao leito a consolá-lo,

E ali lhe juram que a final vitória,

Ou eles morrerão naquela empresa,

Ou ela há de caber ao grande Almada.

Estavam neste ponto, quando a Ira

Invisível entrando, e vendo a Gula,

Tenta roubar-lhe o infeliz prelado,

Em cujo peito uma faísca lança.

Já vermelho, já trêmulo, no leito

Ele a agitar-se todo principia.

Mas a astuta rival da feroz culpa,

Para o golpe atalhar, subitamente

Do mísero prelado se aproxima

E toda a raiva lhe converte em fome.

XVI

As recatadas sombras, entretanto,

O espaço tomam, que o brilhante globo

De vida e luz encheu. Raros luziam

No firmamento os pregos de diamante

Com que a mão criadora do universo

Fixou a tela azul da larga tenda

Em que apenas um dia nos sentamos,

Os que viemos do nada, os que apressados

Vamos em busca da encoberta terra

Da eternidade. Nem acesa fora

A saudosa lâmpada da noite,

Tão buscada das musas que suspiram

Suas quimeras, seus afetos castos,

E amam dizer aos solitários ecos [22]

De que mágoas teceu ímpia fortuna

O viver que os afronta. Rijo vento

Empuxava de longe opacas nuvens

Que a tempestade próxima traziam,

Como se nessa tenebrosa noite

Em perturbar a doce paz da vida,

Co’os homens apostasse a natureza.

XVII

Livre do abalo grande que o prostrara,

O prelado cogita uma vingança.

Os amigos convoca, e todos juntos,

Com aquela energia e vivo empenho

Que aos seus alunos a Lisonja inspira,

Um meio buscam de vingar o Almada.

Com gênio de água, o douto Vilalobos

Os olhos deita a Roma, e quer que ao papa

Se faça apelação; mas o Cardoso,

De cuja intrepidez e sangue frio

Nem o próprio diabo se livrara,

A excomunhão propõe dos santos frades,

Governador, Senado e povo inteiro.

Timidamente o abelhudo Nunes

Insinua o perdão; assaz punido

Lhe parece o ouvidor; toda a cidade

A força do prelado conhecera

Indomável, terrível; era tempo

De regressar à santa paz antiga.

Tais idéias o adulador Veloso

Com escárnio refuta; d'almas fracas

Foi sempre a mole paz recosto amigo

Não das que o fogo endureceu na guerra,

Como a dele, que as iras arrostara

De todos os senados do universo

A exigir-lho o prelado. Convencido,

Estes conceitos tais escuta Almada

E tendo meditado longo tempo,

Um recurso lhe lembra decisivo,

A garganta concerta, e desta sorte

A falar principia: “Companheiros...”

XVIII

Neste ponto um trovão estala e troa;

E do conselho aos olhos aparece,

Sem do teto cair nem vir do solo,

Uma torva e magníssima figura

De longas barbas e encovados olhos,

Que a rigidez marmórea traz na face,

E o trêmulo Congresso encara e exclama:

“Basta já de lutar! Se tu, prelado,

E vós, teimosos servidores dele,

Na guerra prosseguirdes que ameaça

A doce paz quebrar deste bom povo,

Sabei que a mão severa do destino

Nos volumes de bronze uma sentença

Contra vós escreveu. Dos vossos cargos

Perdereis o exercício, e sem demora

Ireis pregar a fé entre os gentios,

As tribos afrontar e as frechas suas,

Fomes, sedes curtir, vigílias longas,

Que o castigo serão da vossa teima”.

XIX

Isto dizendo, desaparece o vulto

(Que era nem mais nem menos a Preguiça).

Então os reverendos assustados

Pela terra se lançam, e batendo

Nove vezes nos peitos, nove vezes

O duro chão, em lágrimas, beijando,

Pedem ao céu que dos eternos livros

Riscado seja o bárbaro decreto.

FIM

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