O Almada - CANTO PRIMEIRO

I

Musa, celebra a cólera do Almada

Que a fluminense igreja encheu de assombro.

E se ao douto Boileau, se ao grave Elpino

Os cantos inspiraste, e lhes teceste

Com dóceis mãos as imortais capelas,

Perdoa se me atrevo de afrontá-la

Esta empresa tamanha. Tu me ensina

A magna causa e a temerosa guerra

Que viu desatinado um povo inteiro,

Homens do foro, almotacés, Senado, [1]

Oficiais do exército e do fisco,

Provinciais, abades e priores,

E quantos mais, à uma, defendiam

O povo, a Igreja e a régia autoridade.

........................................

II

E tu, cidade minha, airosa e grata,

Que ufana miras o faceiro gesto [2]

Nessas águas tranqüilas, namorada

De remotos, magníficos destinos,

Deixa que o véu dos séculos rompendo

A minha voz ressurja a infância tua.

Viveremos um dia aquele tempo

De original rudez, quando a primeira

Cor que se te mudou do muito afago

De mãos estranhas e de alheias tintas,

A tosca, ingênua fronte te adornava,

Não de jóias pesada, mas viçosa

De folhagens agrestes. Quão mudada

Minha volúvel terra! Que da infância

Te poliu a rudez pura e singela?

Obra do tempo foi que tudo acaba,

Que as cidades transforma como os homens.

Agora a flor da juventude o seio,

Que as mantilhas despira de outra idade,

Graciosa enfeita; cresceras com ela

Até que vejas descambar no espaço

O último sol, e ao desmaiado lume

Alvejarem-te as cãs. Então, sentada

Sobre as ruínas últimas da vida,

Velha embora, ouvirás nas longas noites

A teus pés os soluços amorosos

Destas perpétuas águas, sempre moças,

Que o tamoio escutou bárbaro e livre...

Mas, quão longe o crepúsculo branqueia

Desse sol derradeiro! A asa dos séculos

Muita vez roçará teu seio amado

Sem desbotar-lhe a cor. Inda esses ecos

Das montanhas, que invade o passo do homem,

Hão de contar aos sucessivos tempos

Muito feito de glória. Estrênua, grande,

Guanabara serás... Oh! não encubras

O gesto de ambição e de vaidade,

De travessa, agitada garridice,

Tão amável, decerto, mas tão outro

Do acolhimento, do roceiro modo

Dos teus dias de infância. Justo é ele;

Varia com a idade o gosto; és moça,

E moça do teu século.

III

Reinava

Afonso VI. Da coroa em nome

Governava Alvarenga, incorruptível

No serviço do rei, astuto e manso,

Alcaide-mor e protetor das armas [3];

No mais, amigo deste povo infante,

Em cujo seio plácido vivia,

Até que uma revolta misteriosa

Na cadeia o meteu. O douto Mustre [4]

A vara de ouvidor nas mãos sustinha. [5]

........................................

Do forte e grande Almada que regia

A infante igreja. [6]

........................................

........................................

Tal o vate cristão que os heróis mártires

Cantou piedoso, passeando um dia

Na velha terra grega, alar-se em bando

As mesmas aves contemplou, que outrora,

Rasgando como então o azul espaço,

Iam do Ilisso às ribas africanas. [7]

........................................

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