Gazeta de Holanda - N.° 9

21 DE DEZEMBRO DE 1886.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

À Carmen Silva, à rainha

Da Rumânia, à delicada,

Egrégia colega minha,

Pelas musas laureada,

Pobre trovador do Rio,

Cantor da pálida lua,

Esta breve carta envio,

E aguardo a resposta sua.

Note bem que lhe não falo

Das suas lindas novelas,

Nem do plácido regalo

Que nos dá com todas elas.

Não, augusta e bela moça,

Não é prosa nem poesia

O meu assunto ... Ouça, ouça,

Verá que é sensaboria.

Cá se soube que um partido,

Que há muito não dava cacho,

Após combate renhido,

Tomou ao outro o penacho.

Fez-se isso eleitoralmente;

A gente que não queria

O partido então vigente,

Mudou de cenografia.

Se fez bem ou mal, lá isso

É com ela; a culpa inteira

Pertence-lhe de o feitiço

Virar contra a feiticeira.

Mas, como aqui neste canto,

Não há tal eleitorado,

Que faça nunca outro tanto,

E pense em cousas do Estado;

E também porque isto, às vezes,

Está em qualquer cousa (adágio,

Que herdamos dos portugueses,

E tem o nosso sufrágio),

Lembrou-me que poderia

Obter, por seu intermédio,

Para uma tal embolia

O apropriado remédio.

Serão pastilhas? xarope?

Pílulas de qualquer cousa?

Um cozimento de hissope?

Fricções de madeira e lousa?

Seja isto ou seja aquilo,

Peço a Vossa Majestade

Uma amostra, um frasco, um quilo

Para ensaiar na cidade.

Porque, como ora se trata

De uma operação sabida,

Que a gente que se maltrata

Torna a pôr amada e unida,

Operação que dissolve

Os grupos mais separados,

E rapidamente absolve

Todos os ódios passados;

Quisera, logo que esteja

Toda a obra recomposta,

E esta liberal igreja

De novo aos fiéis exposta,

Quisera ver se, tomando

A droga rumaica um dia,

Chegaríamos ao mando

Pela mesma e larga via.

De outro modo ficaremos

Nestas náuticas singelas

De largar o leme e os remos

E abrir à fortuna as velas.

Eia, pois, augusta musa,

Mande-me o remédio santo,

E não vos concedo escusa;

Quero tirar o quebranto.

Quero ver se, finalmente,

Depois de tão larga espera,

A nossa eleitoral gente

É gente, não é quimera.

Para que depois se queixe

De si e das culpas suas,

E por uma vez se deixe

De murmurar pelas ruas.

Vede, flor das maravilhas,

Como esta alma pede e roga:

Mandai-me as vossas pastilhas,

Pílulas ou qualquer droga.

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