Gazeta de Holanda - N. 8

14 DE DEZEMBRO DE 1886.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande

E disse o Diabo: — “Fala,

Que queres ser nesta vida?

Antonino ou Caracala?

Capucho ou jardins de Armida?

“Escolhe, e verás, Malvólio,

Tudo o que quiseres; pede

Um sólio, e terás um sólio,

Pede um culto, e és Mafamede”.

E eu, respondendo-lhe, disse

Que nem tronos nem altares;

Que, na minha mandriice,

Tinha sonhos singulares.

Ou antes, um sonho apenas,

Um só desejo, um só, único,

Mais velho que a velha Atenas,

Mais velho que um vintém púnico.

Não era ter a coroa

Do Egito nem da Bulgária,

Nem ver as moças de Goa,

Nem ter os beijos da Icária,

Nem dormir o dia inteiro

Em tapetes persianos,

Sentindo o vento fagueiro

De numerosos abanos.

Digo abanos meneados

Por muitas damas formosas,

Feitos de fios delgados

De palma, e plumas, e rosas.

Nem comer em pratos de ouro

Figos secos da Turquia,

Acompanhados do louro

Néctar que há na Andaluzia.

Nem possuir as estrelas

Que são tão minhas amigas,

Para um dia convertê-las

Em meias-dobras antigas.

Pois tudo isso, e o mais que pode

Entrar no mesmo cortejo

Duvido que se acomode

Ao meu íntimo desejo.

Sabes tu o que eu quisera?

Quisera ser cartomante,

Dizer que espere ao que espera,

E dizer que ame ao amante.

Saber de cousas perdidas,

Saber de cousas futuras,

De verdades não sabidas,

De verdades não maduras.

Se uma senhora é amada,

Saber de cousas futuras,

De verdades não sabidas,

De verdades não maduras.

Se uma senhora é amada,

Ou se há lá na costa mouras;

Se a costureira — casada —

Chega a depor as tesouras.

Quem é certo moço que anda

De chapéu branco e luneta,

E algumas vezes lhe manda

Lembranças por uma preta.

Se a mulher de um diplomata

Vive enredando as pessoas...

Se há de esperar certa data...

Se as filhas hão de ser boas...

Onde pára uma pulseira,

Um recibo, um cachorrinho...

Se a neta da lavadeira

Bifou algum colarinho...

Se há de morrer de um inchaço

Que traz na perna direita...

Ou se a luxação de um braço

Pode deixá-la imperfeita...

Tudo isso, e o mais que não cabe

Em verso rápido e breve,

E que a cartomante sabe,

Sabe, conta, e não escreve.

É o meu desejo. E tenho

Que, se essa cousa me ensinas,

Serei, com o meu engenho,

O doutor destas meninas,

Que a nós outros coube em sorte

Política e loteria,

Cousas que têm, como a morte,

Mistério e melancolia.

Mas que hão de fazer as damas

Com a alma incendiada

Das mesmas secretas flamas

E ao mesmo abismo inclinada?

Procuram timidazinhas

Aquelas claras vivendas

E crescem as adivinhas,

Não dão para as encomendas.

Pois se tu, Diabo amigo,

Me pões capelo de mestre,

Juro-te que dás comigo

No paraíso terrestre.

Cá virão as Evas novas,

Inquietas, desordenadas,

Pedir-me, com ou sem provas,

As verdades mascaradas.

E olha que farei no ofício

Notáveis melhoramentos,

Tapetes, largo edifício,

E o preço — mil e quinhentos.

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