Gazeta de Holanda - N.° 7

6 DE DEZEMBRO DE 1886.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

A lei darwínica é certa

Inda em acontecimentos...

Não fiquem de boca aberta,

Vão vê-lo em poucos momentos.

Há nelas a mesma luta

Pela vida, e de tal arte

A crua lei se executa,

Que é a mesma em toda a parte.

Há seleção, persistência

Do mais capaz ou mais forte,

Que continua a existência,

E os outros baixam à morte.

Demonstro: — O famoso caso

Da escola e pancadaria,

Caso que pôs tudo raso,

Tudo, até a epidemia.

Tal foi ele que, tomando

Todo ou quase todo o espaço,

Foi de um trago devorando

Quanto lhe embargava o passo.

Escapou a Cantagalo,

Por trazer comprido bico,

Unha capaz de matá-lo,

Peito largo e sangue rico.

Mas, por um só que resiste,

Quantos passaram calados

Na penumbra vaga e triste

Dos seres mal conformados!

Cito dois — um pequenino,

Um telegrama celeste,

Oficial e argentino

Sobre os destroços da peste.

Dava os óbitos do dia,

De modo tão encoberto,

Que o duvidoso morria

E só escapava o certo.

— “Rua tal: um duvidoso,

Outro duvidoso ao lado...”

Pois, com ser tão engenhoso,

Foi lido e não foi guardado.

Segundo caso: o de Arantes,

Arantes, a testemunha,

Que os juízes implicantes

Cuidam de pegar à unha.

Porquanto há necessidade

De ouvir-lhe a palavra de ouro,

Para saber a verdade

Do que houve no Matadouro.

Seja pró ou seja contra

Essa testemunha rara,

Onde é, onde é que se encontra?

Onde vive? Onde é que pára?

Mandou-se às partes remotas

Da cidade, e logo ao centro;

Foram ao fundo das botas

E não o acharam lá dentro.

Em Minas? Vá precatório,

Rápido, para intimá-lo ...

Esforço inútil e inglório!

Voltou sem lograr achá-lo.

Não sendo encontrado em Minas

Nem pelas matas cerradas,

Foram às ilhas Malvinas,

Ao Congo e ao reino das Fadas.

E bradaram-lhe: — “Ó Arantes,

Chamado como quem sabe

O nome aos bois pleiteantes,

E o mais que no caso cabe;

“Arantes, onde respiras?

Onde estás? Onde te escondes?

Na trama das casimiras?

Chamo-te e não me respondes.

“Talvez no centro da Arábia,

Talvez na rua da Ajuda,

Talvez estudando a Fábia,

Talvez adorando a Buda.

“Donde quer que estejas, corre,

Acode ao nosso chamado:

Vem, que, se não corres, morre

O processo começado”.

E passou esse episódio

Sem fazer maior barulho

Do que as saúdes de um bródio

Na Gávea ou no Pedregulho.

Porque nos próprios eventos

A lei darwínica é certa.

Provei-o em poucos momentos,

Não fiquem de boca aberta.

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