Gazeta de Holanda - N.° 5

21 DE NOVEMBRO DE 1886.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Com franqueza, esta Bulgária

Vai-me esgotando a paciência;

Lembra a ilha Baratária,

Onde, após uma audiência,

Sancho, que naquele dia

Começara a governá-la,

Foi, com muita cortesia,

Levado a uma grande sala.

Tinha uma fome de rato

O governador recente,

E viu prato, e prato, e prato,

Prato de atolar o dente.

Quanto manjar, quanto molho,

Não direi, por mais que diga;

Só a vista enchia o olho...

Restava encher a barriga.

Mas tão depressa acudia

Algum servo respeitoso,

Trazendo-lhe uma iguaria

De cheirinho apetitoso,

Um doutor, que se postara

Ao lado, sem mais demora

Fazia um gesto co’a vara,

E ia-se a iguaria embora.

Afinal, pergunta o Sancho

Que era aquela caçoada.

Responde o doutor, mui ancho,

Que nada, não era nada.

Que, como ele tinha a cargo

A sua saúde e vida,

Cabia-lhe pôr embargo

A uma ou outra comida.

— “Bem, então dê-me essas belas,

Maravilhosas perdizes”.

— “Livre-o Deus de tocar nelas,

Nem de chegar-lhe os narizes”.

— “Mas, aquele gordo coelho

Espero que me não negue”.

— “Senhor, o melhor conselho

É que nem sequer lhe pegue”.

— “Naquele prato travesso

Cuido que há olha-podrida”.

— “Não coma, por Deus lh'o peço!

Aquilo espatifa a vida.

“Deixe Vossa Senhoria

A cônegos e a reitores

Essa péssima iguaria

Que tanto estraga os humores”.

E o pobre Sancho com fome,

Por mais que lhe dê na gana,

Tudo pede e nada come,

Até que se desengana.

Assim anda a tal Bulgária;

Elege, mas não elege,

Pois, como na Baratária,

Há um doutor que a protege.

“Este príncipe!” — “Não presta;

Faz-lhe mal aos intestinos”.

— “Est'outro?” — “Escolha funesta”.

— “Aquel'outro?” — “Um valdevinos.

“Para os seus humores basta

Este da Mingrélia; é moço,

Boa cara e boa casta;

Demais, pertence ao colosso”.

E a Bulgária, se há de os braços

Estender e recebê-lo,

Fazendo assim com abraços,

Em vez de a murros fazê-lo,

Timeos Danaos, et dona

Ferentes, pensa consigo;

E com ar de valentona,

Recusa o presente amigo.

Bulgária dos meus pecados,

Imita o meu pobre Sancho,

Que, vendo os pratos negados,

Agarrou um pão a gancho.

Um pão seco e frescas uvas,

Acaba essas longas bodas.

Já tens véu, grinalda e luvas,

Escolhe uma vez por todas.

E, tomando a liberdade

De te chamar D. Amélia

(Ó rima! Ó necessidade!)

Bulgária, escolhe o Mingrélia!

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