Gazeta de Holanda - N.° 48

24 DE FEVEREIRO DE 1888.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Juro-lhe, meu caro amigo

Leitor, pelo que há sagrado,

Que eu, que a triste regra sigo

De viver apoquentado;

Que suporto as sanguessugas

Humanas e desumanas,

Que não ganhei estas rugas

Em redes e tranquitanas;

Que aturo todo o importuno,

Que me refere a maneira

Por que o demo de um gatuno

Lhe foi levando a carteira;

Ou me conta tudo, tudo

(Mas tudo!) o que há padecido,

Para que, após longo estudo,

Ver que foi indeferido;

Que com ânimo quieto,

Leio, depois de almoçado,

Tudo o que sobre o arquiteto

Magalhães se há publicado;

Juro-lhe, leitor, repito,

Que cometer não quisera

O mais pequeno delito

Que este mundo haver pudera.

Furtar um par de galinhas,

Dizer algum nome feio,

Chegar mesmo às facadinhas,

Dar dois cachações e meio.

Não porque a moral condene

Tais atos; condena, é certo,

De um modo grave e solene,

Determinativo e aberto;

Nem também porque, somadas

As contas, mais ganha a gente

Passando as horas caladas

No belo sono inocente.

Não, senhor; outra é a causa,

É outra, uma certa lista,

Que é preciso ler com pausa,

Mente clara e clara vista.

Do rol dos processos digo

Que ao tribunal dos jurados

Foram, para seu castigo,

Inda agora apresentados.

Que traz esse rol? Descubro

Entre outros muitos nomes

Que em oitenta e seis, outubro,

Foi preso um Antônio Gomes.

Pronunciado em janeiro

De oitenta e sete, entra agora

No julgamento primeiro

Do que fez em tão má hora!

Mais três, um Afonso Rosa,

Um Coelho, uma tal Francisca

Xavier, trempe graciosa,

Ao parecer, pouco arisca.

Visto que foi agarrada

Logo em março, dezessete,

Em março pronunciada,

Em março de oitenta e sete!

Há também na lista um certo

Francisco Peres Soares,

Já em abril descoberto

E mandado a tomar ares;

O qual logo em maio teve

Pronúncia do seu delito;

Fez um ferimento leve,

Foi preso ao som de um apito.

Ora, com franqueza, vale,

Ser criminoso em tal era?

Uma peça de percale

Paga tão comprida espera?

Um tabefe, uma rasteira,

Mesmo uma canivetada,

Pagou de alguma maneira

A espera desesperada;

Portanto, e vistos os autos,

Dou de conselho prudência,

E digo aos homens incautos

Que inda o melhor é a inocência.

FIM

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