Gazeta de Holanda - N.° 47

16 DE FEVEREIRO DE 1888.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Talvez o leitor não visse,

Entre editais publicados,

Uma boa gulodice?

Abra esses beiços amados.

Vamos, não tenha vergonha,

Estenda agora a lingüinha,

Para que esta mão lhe ponha

Sobre ela esta cocadinha.

Disse nesse documento

A câmara que é vedado

Usar o divertimento

Entrudo, como é chamado.

Impôs as palavras duras

Do parágrafo e artigo

Do código de posturas,

Código já meio antigo.

A mim disse que a pessoa

Que outras pessoas molhasse,

Fosse a água má ou boa

Que das seringas jorrasse,

Incorreria na multa

De uns tantos mil-réis taxados,

E não ficaria inulta,

Se os não desse ali contados.

Porque iria nesse caso

Pagar suas tropelias

Na cadeia, por um prazo

De (no mínimo) dois dias.

E as laranjas, que se achassem

Na rua ou na estrada à venda,

Mandava que se quebrassem,

Como execrável fazenda.

Laranja, bem entendido,

Laranja, própria de entrudo,

Um globo de cera, enchido

Com água... às vezes, com tudo.

Ora, se o leitor compara

A exemplar compostura

Do povo (exemplar e rara)

Com o dizer da postura;

Se adverte que uma só pinga

De água não caiu na gente,

Que não houve uma seringa

Para acudir a um doente;

Que o belo colo das damas

Não viu o gesto brejeiro

De apagar-lhe internas chamas

Quebrando um limão de cheiro;

Conclui logo que a cidade

Obedece, antes de tudo,

A si (porque a edilidade

É ela) e deixou o entrudo.

Porém eu, que vi, em todos

Os anos, isto na imprensa,

Já desde o tempo dos godos

(João, com tua licença!);

E que, apesar de postura,

Vi seringas respeitáveis

De água cheirosa e água pura,

Terríveis e inopináveis;

Crioulas e molequinhos

Carregando em tabuleiros

Prontinhos e arrumadinhos

Infindos limões de cheiro;

Eu diversamente opino,

E digo que a lei se engana,

Se cuida ter no destino

Alguma ação soberana.

Recorda a mosca pousada

Na carroça, diz a fama,

Que, ao vê-la desatolada,

Cuidou tirá-la da lama.

Não, amiga lei. O entrudo

Desapareceu um dia

Entre calções de veludo,

Carnavalesca folia.

Reapareceu mais tarde;

Vingou por bastantes anos,

Com estrondo, com alarde,

Triunfos grandes e ufanos.

Chega a polícia de novo

E desterra o velho entrudo;

Troca de brinquedo o povo,

Fica somente veludo.

Mas quando houverem passado

O tempo e a policia, a ponta

Da orelha do desterrado

Entre bisnagas aponta.

E porque legem habemus,

Seja branda ou seja dura,

Anualmente veremos

A mesma inútil postura.

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