Gazeta de Holanda - N.° 46

10 DE FEVERE1RO DE 1888.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Eu, acionista do Banco

Do Brasil, que nunca saio,

Que nunca daqui me arranco,

Inda que me caia um raio,

Para saber como passa

O Banco em sua saúde,

Se alguma cousa o ameaça,

Se ganha ou perde em virtude.

Li (confesso) alegremente,

Li com estas minhas vistas,

O anúncio do presidente

Convocando os acionistas.

Para quê? Para o debate

Do reformado estatuto,

Obra em que há de haver combate,

Que traz gozo, que traz luto.

Pois nesse anúncio, à maneira

De censura, escreve o homem

Que é já esta a vez terceira

Que chama e que eles se somem.

Minto: sumiram-se duas.

Não tem culpa o anunciante,

Se há necessidades cruas

Do metro e de consoante.

Pela vez terceira os chama,

E agora é definitivo,

Muitos que fiquem na cama,

Um só punhado é preciso.

Mas eu pergunto, e comigo

Perguntam muitos colegas,

Que, indo pelo vezo antigo,

Não vão certamente às cegas;

— O acionista de um banco,

Só por ser triste acionista,

É algum escravo branco?

Não tem foro que lhe assista?

Não pode comer quieto

O seu costumado almoço,

Debaixo do próprio teto,

Velho já, maduro ou moço?

Barriga cheia, não pode

Dormitar o seu bocado,

Para que o não incomode

O que tiver almoçado?

Pois então a liberdade

Que tem toda a outra gente

Cidadã, meu Deus, não há de

Tê-la esta pobre inocente?

É certo que os diretores

Do Banco são reduzidos

A quatro, e que outros senhores

Vão a menos: suprimidos.

Em tal caso, é razão boa

Para que, firmes, valentes,

Compareçam em pessoas

Diretores e gerentes.

Res vestra agitur. Justo.

Mas que temos nós com isto?

Para que me metam susto

Só outra cousa, está visto.

Sim, o que algum susto mete,

Transtorna, escurece, arrasa,

Não é que eles sejam sete

Ou quatro os chefes da casa.

Sejam sete ou quatro, ou nove,

Disponham disto ou daquilo,

É cousa que me não move,

Posso digerir tranqüilo.

Porquanto, digo, em havendo

Nas unhas dos pagadores

Um bonito dividendo,

Que nos importam divisores.

Tenham estes cara longa,

Cabelo amarelo ou preto,

Nasceram em Covadonga,

Em Tânger, em Orvieto;

Usem de barbas postiças,

Ou naturais, ou nenhumas;

Creiam em sermões, em missas,

Ou na sibila de Cumas;

Para mim é tudo mestre,

Contanto que haja, certinho,

No fim de cada semestre

O meu dividendozinho.

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