Gazeta de Holanda - N.° 41

20 DE DEZEMBRO DE 1887.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Nos quoque gens sumus, digo

Sem nenhum acanhamento;

Se é moda, eu a moda sigo;

Se é vento, acompanho o vento.

Não somente ao literato

Cabe descobrir mistérios;

Eu sou curioso nato,

Tão sério como os mais sérios.

Et quoque cavalgare

Sabemus, como ia expondo;

Lá se acaso errar, errare

Humanum est, respondo.

Eu, — não é porque me gabe,

Mas acho que o elogio

De um tio muito mais cabe

Na boca do próprio tio.

Esperar que outras pessoas

Descubram seus pensamentos

E cantem honrosas loas

Aos nossos merecimentos,

Palavra que me parece

Negócio muito arriscado;

Este cala, aquele esquece,

Nada fica publicado.

Vamos ao caso. Há dois dias

Recebi este bilhete

Do meu amigo Mathias,

Residente no Catete:

“Pois que já fomos colegas,

Manda-me a razão bastante

Por que se diz: “ o degas”.

Não corri à minha estante,

Corri à pena e ao tinteiro,

Porque trazia comigo

O histórico verdadeiro

Do que me pede este amigo.

E aqui lhe conto, — deixando

Que riam maus e praguentos:

Ouço o riso e vou andando

Cá com os meus bolorentos.

Ora bem, ninguém ignora,

(Menos que ninguém, Mathias)

Que houve um grande Egas outrora,

Varão de alias bizarrias.

Afonso, meio enteado,

De um tal Peres, se encastela

Em Guimarães já cercado

Pelas forças de Castela;

Vai então Egas, pensando

Em livrar o rei, caminha

Para o castelhano infando

E segreda-lhe ao que vinha.

Vinha prometer que o moço

Afonso obedeceria,

Sem mais sangue nem destroço.

Castela creu no que ouvia

Mas logo que os castelhanos

Daquele sítio abalaram,

Afonso e os seus lusitanos

Entregar-se recusaram.

Que faz o grão Egas? Vendo

Que faltara ao prometido,

Faz sacrifício horrendo,

Ele, pai, ele, marido.

Vai com a família, e dá-se

Ao inimigo. Ação única!

Outra não há que a ultrapasse,

Ou esta fé, ou fé púnica.

Tempos vindos, tempos idos,

Entrou no povo esta fala,

Quando alguém os ofendidos

Brios punha em grande gala:

“Cá o Dom Egas não há de

Deixar de cumprir a jura”.

Depois a celeridade

Do tempo, que tudo apura,

Foi diminuindo o adágio,

Perdeu-se o jura primeiro

E foi crescendo o naufrágio

Do primeiro ao derradeiro.

Já no século passado

Ia em tais e tantas penas

Que ficou — do que era usado,

o Dom Egas” — apenas.

Mas o Dom tanto se escreve

Na forma acima apontada,

Como por outra mais breve,

Um D, um ponto e mais nada.

Daí resultou que o povo,

Lendo, como lê, às cegas,

Faz um dito inda mais novo

E ficou só: — “Cá o degas”

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