Gazeta de Holanda - N.° 4

17 DE NOVEMBRO DE 1886.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Que será do novo banco?

Interroga toda a gente;

Respondem uns que um barranco,

Outros dizem que uma enchente.

Certo é que andaram milhares

De contos, contos e contos,

Uns por terra, outros por mares

Contos de todos os pontos.

Caíam como sardinhas,

Pulavam como baleias;

Aí belas ambições minhas!

Ai sonho, que me incendeias!

E o Holman, o forte e ledo

Inglês abrasileirado,

Contemplava o Figueiredo,

Que olhava, grave e barbado.

Supunha que muita gente

Viesse; mas gente tanta

Não cuidavam certamente...

Obra abençoada e santa!

Da empresa, ora começada,

Há quem diga maravilhas;

Muita idéia cogitada;

Ouro a granel, ouro em pilhas.

Circulação recolhida,

Câmbio a vinte e seis ou sete,

Mudança da antiga vida,

Outra cara, outro topete.

Ai, sonho! ai, diva quimera!

Pudesse eu entrar na dança!

Ai viçosa primavera!

Ai verde flor da esperança!

Nem eu, nem o meu compadre

Eusébio Vaz Quintanilha,

Que, por mais que corra e ladre,

Nenhum grande emprego pilha.

Que, para matar a fome,

Vem matá-la em minha casa,

Sem poder dizer que come,

Mas que destrói, mata, arrasa.

Pobre Quintanilha! Um anjo!

Coitado! Afinal parece

Que lá teve algum arranjo

Que lhe dá certo interesse.

Há já dias que o não via;

Onde iria o desgraçado?

Quem sabe se morreria,

Faminto, desesperado?

Eis que ontem, quando passava

Pela rua da Quitanda,

E nos negócios cismava

Desta Gazeta de Holanda,

Lá no outro lado da rua

Uma figurinha pára;

Trazia a cabeça nua,

Bacia, opa e uma vara.

Era o pobre... Deu comigo

E veio, em quatro passadas,

Ao seu delicado amigo

Apertar as mãos pasmadas.

— “És andador de irmandade?

Aprovo os teus sentimentos

De devoção, de piedade...

Toma um níquel de duzentos”.

— “Não, Malvólio, não, não ando

Como um andador professo...”

— “Andador de contrabando?”

— “Também não; ouve, eu t’o peço.

“Esta opa, esta bacia

Alugo a alguma Irmandade:

Dou cinco mil réis por dia,

E corro toda a cidade.

“Varia o lucro, segundo

Dou mais ou menos às pernas;

Não escandalizo o mundo

E mato as fomes eternas.

“Rende-me oito ou nove, e há dias

De dez mil réis, dez e tanto.

Crês? Já faço economias,

Já deito algum cobre ao canto.

“É este o meu banco. O fundo

É variável, mas certo;

Deus dá banco a todo o mundo;

Uns vão longe, outros vão perto.

“Eu cá não ando com listas

De ações, nem faço rateio;

Todos são meus acionistas,

Gordo ou magro, lindo ou feio.

“Que um só vintém esmolado

Vale no céu muitos contos;

E há muito vintém cobrado...

Vinténs de todos os pontos!”

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