Gazeta de Holanda - N.º 39

6 DE DEZEMBRO DE 1887.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Peguei da mais rica pena,

Molhei-a na melhor tinta,

E fiz uma cantilena:

“Tinta que repinta e pinta”.

Que haja nisso algum sentido,

Livre-me Deus de escrevê-lo;

Sentido, bem entendido,

No sentido de entendê-lo.

Mas que há nessa linha escura

Uma íntima harmonia

Com tudo o mais que se apura

De tantos casos do dia,

Isso é que não há negá-lo,

Exceto se uma pessoa

Quiser fazer de cavalo,

Assim, sem mais nada, à toa.

Pois não andou toda a gente

Com a imaginação acesa,

Em busca do presidente

Da República Francesa?

Havia apostas. Um era

Ferry, outro — homem de espada,

Outro Freycinet quisera,

Outro — Floquet, outro — nada.

E de tanta gente oposta

Sai um que a ninguém havia

Feito cuidar em aposta,

Se seria ou não seria...

Já sei... Não me explique, amigo;

Não seja de uns desfrutáveis

Que juram sempre consigo

Explicar os explicáveis.

Por exemplo, não me explique

O Ney, nem a delicada

Ação que faz com que fique

Toda a idade pasmada.

Essa jóia, esses quinhentos

Mil réis dados de pronto,

Como quem espalha aos ventos

Palavras leves de um conto,

Ação foi de grande siso;

Ter-se entre duas pilhérias

Ney, o marechal do riso,

Consolador de misérias.

E muitos pasmados ficam,

Por não crer que alguém possua

Cobres que se multiplicam

E os lance estéreis à rua.

Depois disto vem aquilo

Que a nenhum de nós consola,

Nem deixa a ninguém tranqüilo,

Nem traz figura de esmola.

Refiro-me às ameaças

Da Amazônia, que deseja,

Resguardar as suas graças

Do nosso amor, salvo seja.

Tudo porque há um sujeito,

Cardoso, ou cousa que o valha,

Que, não sei por que respeito,

Na tarefa em que trabalha,

Brigou com outra pessoa,

E os dois, que podiam juntos

Fazer muito cousa boa,

Em variados assuntos,

Agora não fazem nada;

Pregam-me até esta peça

De pôr a quadra acabada

Pendente da que começa.

Depois, daquilo, aquil'outro,

Expressão que ficaria,

Não rimando (e mal) com potro,

Sozinha, sem companhia.

Aquil’outro é a abundância

De roubos eclesiásticos,

Feitos com a petulância

Dos grandes dedos elásticos.

Sacrílegas limpaduras

Da casa de Deus — dos ouros,

Das pratas sacras e puras...

Naturalmente, só mouros.

Mouros — sejam da Mourama,

Ou mouros da Cristandade,

Que os há de uma e de outra rama

Por toda essa humanidade.

Não foram seguramente

Os capoeiras da rua

Que matam e francamente

Pela forte gente sua.

Adeus, versos duros, frouxos,

Sem inspiração nem graça,

Obra destes dias coxos,

Furtados e sem chalaça.

Por isso peguei da pena,

Por isso a molhei na tinta,

E fiz esta cantilena:

“Tinta que repinta e pinta!”

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