Gazeta de Holanda - N.° 37

22 DE NOVEMBRO DE 1887

Voilà, ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Pessoas há... Por exemplo,

Que vale um desfalque triste

Cuja notícia contemplo?

Acho que já nem existe.

Pois, entrados os cobritos,

Desmancha-se a diferença,

E o que eram terríveis gritos

Chega a pura indiferença.

Pessoas há que detestam

Rimas daquele feitio;

São cadeias que molestam

A inspiração, mais o brio.

Eu cá sendo, necessário

Ir andando, vou andando;

Rimo Corsário e corsário,

E bando com contrabando,

Sem saber se o leitor gosta,

Ou não dessa rima rica.

Se eu quero a obra composta,

Menos que fazer me fica.

Se não sair boa a quadra,

Que saia, ao menos, completa;

Lá, se lhe quadra ou não quadra,

É queixar-se do poeta;

Não do triste gazeteiro,

Que rói o tempo e trabalha

Sem encontrar no tinteiro

Qualquer assunto que calha.

Ninguém me dirá que as notas

Falsas e germanizadas

Valem nunca um par de botas,

Novas ou acalcanhadas.

Pois que já tratara delas

O cronista do costume,

E ora são como panelas

A que não resta chorume.

Nem elas, nem os debates

Do Jockey-Club, e os palpites,

Nem os terríveis combates

De agudas encefalites.

De encefalites agudas,

Das quais não escrevo nada;

As rimas devem ser mudas,

Quando a matéria é pancada.

E brigar por dois cavalos,

Gastar suor, sangue e murros,

Defendê-los, levantá-los,

Para um amador de burros,

É completa maluquice.

Eu amo os burros, capazes,

Sem ardor nem casquilhice,

Maduros desde rapazes.

Barulhos entre campistas?

Cadeira de Torres Homem?

São matérias de altas vistas,

Que aos fracos olhos se somem.

Sobretudo, em medicina,

Basta-me um só documento,

Cousa séria, não mofina,

Obra séria e de momento,

A autópsia de um tal Garrido,

Que foi achado enforcado,

Sem ficar bem definido

Se era ou não um suicidado.

Se sim ou se não — responde

O auto que é impossível

Achar por onde se sonde

Esse problema terrível.

Mas, continuando a pena

Naquele labor ingrato,

De toda a descrita cena

Conclui que houve assassinato.

É por isso que os problemas

Nunca me meteram susto;

São simples estratagemas

Que a gente desfaz sem custo.

Assim desfizesse o dano

E a funda melancolia

De não ser pernambucano!

Teria visto, de dia,

Vênus, o astro, no Recife,

Onde apareceu agora...

Ah! tu rimas com patife,

Tu, Recife de má hora!

Lembra a notícia que Enéias,

Indo da troiana parte,

Viu assim a flor de idéias,

E assim a viu Bonaparte.

Foi o que li e acredito;

Que eu creio em tudo o que leio,

E como sigo um só rito

Só leio aquilo em que creio.

Faça o leitor outro tanto;

Se não crê nesta Gazeta

De Holanda, ponha-a num canto;

E rimará com Gazeta.

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