Gazeta de Holanda - N.° 36

15 DE NOVEMBRO DE 1887.

Voilà, ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Ora, mal sabe a pessoa

Que lê estas linhas toscas,

Compostas assim à toa,

Entregues ao prelo e às moscas,

Mal sabe o susto que tive

Nas eleições da semana:

Vi Cartago, vi Ninive,

Vi além da Taprobana:

Por isso darei ao verso

Certo tom grave e pausado,

Diverso, muito diverso

Do meu tom acostumado,

E, se não, amigo, veja:

Batendo a hora do voto,

Vesti-me e fui para a igreja

Como um eleitor devoto.

Tinha comigo o diploma,

E a lista dos meus eleitos,

Fechada com boa goma,

Juntinha, agarrada aos peitos.

Começou pela chamada ...

Sei que sabe que ainda estamos

Nesta usança desusada

De só votar quem chamamos.

Dizia o mesário: — Antônio

Vaz de Souza, e repetia,

Depois: — Arlindo Theotônio

De Vasconcellos Faria.

E Arlindo, que era presente,

Levava o diploma aberto

Aos olhos do presidente,

Votava, e rápido, e certo,

Escrevia o nome: — Arlindo

Theotônio de Vasconcellos

Faria. — Trabalho findo,

Ia ao bife e ao Carcavelhos.

Mas o curioso, o incrível,

O trágico, o inopinado,

O que parece impossível

E entanto foi praticado,

É que entre os nomes dos vivos

Tinha nomes de defuntos,

De tantos que ora, entre os divos,

Gozam o descanso juntos.

E não defuntos de agora,

Mas de alguns anos passados,

Alguns que a pátria inda chora,

Outros pouco ou mal chorados.

Essa chamada de mortos

Trouxe-me um sono profundo,

Fui sentindo os olhos tortos,

E o mundo ao pé do outro mundo.

Primeiro vi Duque-Estrada

Teixeira — chegar sombrio

Para acudir à chamada

Feita no seu pátrio Rio.

Vi depois o Azevedo

Peçanha, vi a figura

Do Buarque de Macedo,

Labor, honradez, cordura.

Vi outros muitos, vi tudo,

E, continuando o mistério,

Vi, com gesto carrancudo,

A história e o seu cemitério.

Numerar os esqueletos

Que entrar vi na sacristia,

bolorentos ou pretos,

É obra que excede a um dia.

Vi César e mais as suas

Válidas tropas, vi Galba,

Maomé e as meias luas

E os três Curiácios de Alba.

Nino vi, Giges, e aquela

Semíramis, graça e fama,

Cleópatra, e a donzela

D'Orleans, Vasco da Gama,

Pedro o Grande, Henrique Oitavo,

Amílcar, os comerciantes

Cartagineses, Gandavo,

Napoleão e Cervantes.

E vinham todos trazendo

Uma cédula entre os ossos

Ao mesário, que ia lendo,

Os nomes desses destroços.

Sonho foi... Quando desperto,

Não achei mais que o sacrista,

A mesa vazia perto,

Nem mais eleitor nem lista,

Tonto do meu pesadelo,

Contei-o ao sacrista, e o moço

Facilitou-me entendê-lo,

Ambos à mesa do almoço:

— “Nada lhe aconteceria

Se a lista dos eleitores

Pudesse ter algum dia

Revisão e revisores.

“Se fosse oportunamente

Cada morto eliminado,

Nenhum seria presente

E muito menos chamado.

“Mas, como a preguiça é grande

E os trabalhos são massudos...

E não há quem nisto mande...

E os tempos andam bicudos...

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