Gazeta de Holanda - N.° 33

29 DE OUTUBRO DE 1887.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Alá! por Alá! Cá tenho

Inda nos tristes ouvidos

O som duro, o som ferrenho,

Destes termos desabridos:

“Os liberais padecemos

Como os cristãos da Bulgária

Padecem duros extremos

Da turca espada nefária”.

E porque tenho uma veia

Com sangue de Mafamede,

Cousa que não acho feia,

Que não desdoura, nem fede;

Juro que andei azoinado

Com o dito do estadista,

Azoinado e envergonhado,

Sem voz, sem sabor, sem vista.

Mas (Alá é grande!) agora,

Agora, neste momento,

Chegam notícias de fora,

Da Bulgária e de espavento...

Vejo que o governo novo

Daquele povo inquieto,

Para aquietar o povo,

Achou um meio discreto.

Convidou madre Censura

Para rever os diários,

Enterrando a unha dura

Por modos crespos e vários,

Nos trechos em que apareça

Opinião tão à toa,

Que em tudo, se mostre avessa

Ao que ela entender que é boa.

Assim podem os censores

Riscando uma parte ou tudo,

Fazer dos espinhos flores,

Fazer do rudo veludo.

É pouco. Um dos jornalistas

Tantas fez que foi pegado,

E teve, de mãos artistas,

Não pouco, nem moderado,

Castigo de tal volume

Que era de ver... Cem açoites!

Quase lhe levam o lume,

Quase lhe dão boas noites.

E disseram-lhe ao soltá-lo.

Que se voltasse à escritura,

Haviam de castigá-lo,

De outra forma inda mais dura.

Ora, o que me espanta nisto

É que a gente que maltrata

Os pobres filhos de Cristo

São cristãos de pura nata.

Lá que impeçam tais diários,

Acho até bom, não somente

Nos dias incendiários,

Mas nos de vida corrente.

Nunca veio mal de um mudo,

E imprimir o que se pensa,

Tudo, tudo, ou quase tudo,

É desastre, não imprensa.

Assim, acho grão perigo

Que, em obséquio ao Ramalho

Ortigão, meu grande amigo,

Honra do engenho e trabalho,

Desse a Gazeta, uma festa,

De autores e jornalistas,

Cerrada e longa floresta

De opiniões e de vistas.

Conservadores sentados,

Em frente a republicanos,

E liberais afamados

Ao lado de ultramontanos.

Gente ruim, gente feia,

Merecia nessa noite,

Não festa, porém, cadeia,

Não Borgonha, mas açoite.

País de tal liberdade

E tolerância tamanha,

Vai com toda a alacridade

Ao lodo, ao delírio, à sanha.

Olhemos para a Bulgária;

Arruma, cristão amigo,

Simples pancada ordinária,

Cem açoites por artigo.

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