Gazeta de Holanda - N.° 32

18 DE OUTUBRO DE 1887.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Tudo foge; fogem autos,

Fogem onças, foge tudo.

Ó guardas moles e incautos!

Ó corações de veludo!

Uma onça, que vivia

Em casa de uma senhora,

Viu aberta a porta um dia

Da gaiola, e foi-se embora.

Na roça? Não; na cidade.

Que cidade? É boa! a tua.

Dou mais esta claridade:

Era na rua... na rua...

Rua da América... Pronto!

Mas, se não leste a notícia,

Cuidarás que é isto um conto,

É talvez conto e malícia.

Não, amigo. Era uma onça,

Tinha aos três anos chegado;

Vivia discreta e sonsa

Em casa, num gradeado.

Vai senão quando, — um descuido —

Deixaram-lhe aberta a porta,

E a onça sentiu um fluido

Que não sente onça já morta.

Sentiu passar-lhe no lombo

O fluido da liberdade,

E, ligeira como um pombo,

Deixou a casa da grade.

Nenhum liberal, que o seja

Como deve, achará livro

De tantos da sua igreja

Que condene este carniv’ro.

Pois se foge o papagaio,

O macaco, a patativa,

Seja outubro, seja maio,

Tenha ou não tenha mãe viva,

Que muito é lá que uma nobre

Onça das brasílias matas,

Logo que possa, recobre

O uso das sua patas?

Lá por viver entre gente

E canapés delicados,

Não acho suficiente

Para condená-la a brados.

Certo é que fugiu. Bem perto,

Duas casas logo abaixo,

Achou como que um deserto,

E resolveu:”Lá me encaixo”.

Era casa em obras. Passa

Todo o sábado e domingo,

Sem comer sombra de caça,

Sem beber de sangue um pingo.

Na segunda-feira, cedo

Sobe ali um operário,

Despido de qualquer medo:

Vai ganhar o seu salário.

Casualmente (bendito

Seja Deus!) o desgraçado

Vê o olhar da onça fito

De dentro de um tabuado.

Foge; muita gente acode

Armada, e com laço e rede,

A ver se apanhá-la pode;

Ela, com fome e com sede,

Fere o pé a um bom valente,

Mas é já laçada, e morre

Á faca da demais gente,

Que ali bravamente corre.

E porque não era grave

A ferida recebida,

Fechou-se com dura chave

A história, e mais a ferida.

E disse alguém, que não erra

Ocasião de uma vasa:

— “Que há mais natural na terra

Que criar onças em casa?

“Quando muito, demos graças

Aos deuses, que esta podia

Matar duas ou três praças,

E toda um inspetoria.

“Não há onças espanholas?

Não há onças desgraçadas

Estas não rugem nas solas

Das botas acalcanhadas?

“Virá tempo em que não ande

Pessoa que se respeite

Sem uma onça já grande,

Ou, pelo menos, de leite.

“Que toda a senhora fina,

De passeio ou de passagem,

Tenha uma onça menina

Ao lado, na carruagem.

“Que algumas fujam, que trinquem

O pé a qualquer pessoa,

Ou por mal, ou porque brinquem

Pode acontecer, é boa!

“Mas quem já viu neste mundo

Progresso sem sacrifício?

Sangue que corre é fecundo,

E há virtude que foi vício.

“Cavalo que anda direito

Já foi bravio e inquieto,

Onça que morde um sujeito,

Talvez não lhe morda o neto.

“Vamos, pois, encomendemos

Onças, muitas onçazinhas,

E nos quintais as criemos,

Como se criam galinhas”.

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