Gazeta de Holanda - N.° 3

12 DE NOVEMBRO DE 1886.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Aqui está, em folhas várias,

Uma cousa que se presta

A notas e luminárias.

Aqui vai a cousa, é esta:

— Na rua Larga se aluga,

Em bom estado, uma beca. —

Parece uma simples nuga,

E é mais que uma biblioteca.

Eis aqui o que eu diria:

Há nesta beca alugada

Uma idéia que devia,

Há muito andar publicada.

Primeiramente, repare

Que esta beca não se vende

Por preço barato ou caro;

É que, alugada, mais rende.

Comprá-la, era possuí-la;

Alugá-la, é só trazê-la,

Usá-la e restituí-la,

Sem rompê-la ou descosê-la.

Não haverá neste caso

Um sintoma? Não parece

Que a beca tomada a prazo

Uma lição oferece?

Que, sem correr Seca e Meca,

Muita gente delicada,

Assim como traz a beca,

Traz a ciência alugada?

Que, sendo esta leve e pouca,

Apenas meia tigela

Não chega a entornar da boca,

E pouco pedem por ela?

Que, inda mesmo sendo um quarto

De tal tigela, e não meia,

Parece falar de fato

Quem fala de boca cheia?

E que esse pouco, bastando

A que o locatário almoce,

É tolice andar estando

Ciência de sobreposse?

Nada sei; mas ofereço

A toda a pessoa séria

Este problema de preço

E passo a outra matéria.

Escreve um correspondente

Cholera-Morbus chamado:

“Conto que proximamente,

Malvólio, estou ao teu lado.

“Aqui nesta Buenos-Aires,

Terra de belas meninas...

Que salero e que donaires!

Que formosas Argentinas!

“Aqui, por mais que me esbofe,

Levo uma vida vadia;

Esperava um rega-bofe

E vou de pança vazia.

“Quando mato uma pessoa,

Surge-me logo uma junta,

Que a declara viva e boa,

Por mais que a deixo defunta.

“Negam-me tudo; o meu ato,

O nome, e até a existência;

Chamam-me simples boato

Sem razão nem consistência,

“Aborrecido com isto,

Determinei ir-me embora

Por esse mundo de Cristo;

Estou aqui, estou lá fora.

“Aí me vou, caro mio,

Só não sei de que maneira,

Se diretamente ao Rio,

Se atravessando a fronteira.

“Ir por água é arriscado

A dar com o nariz na porta;

Se achar o porto trancado,

Eu fico de cara torta.

“Enfim, veremos... Espero

Que, de um modo ou de outro modo,

Lá, entre; e aqui te assevero

Que com pouco me acomodo.

“Saudade, tenho saudade

De outr'ora. Há mais de trinta anos

Que andei por essa cidade

Com grandes passos ufanos.

“Mudou tudo? Existe ainda

O teatro Provisório?

Onde está Lagrua, a linda

Que teve um lapso amatório?

“O gordo Tatti? O magano

Ferrari? A Charton divina?

Vive ainda o João Caetano?

Vive ainda a Ludovina?

“A Loja do Paula Brito

Mudou de dono ou de praça?

Paranhos, grave e bonito,

Vive ainda? Vive o Graça?

“Mora ainda no Rocio

Muita família? O teatro

Tem inda o mesmo feitio?

São ainda os mesmos quatro?

“Publica-se inda o elegante

Mercantil? Que faz? Que escreve

Maneco? e o Muzzio? e o brilhante

Alencar de estilo leve?

“Vou vê-los todos, e juro

Em honra aos dias passados,

Que ao meu golpe áspero e duro

Serão poupados, poupados...”

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