Gazeta de Holanda - N.° 25

30 DE AGOSTO DE 1887.

Voilà ce que l’on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Eu, pecador, me confesso

Ao leitor onipotente,

E a grã bondade lhe peço

De ouvir pacientemente

Uma lengalenga longa,

Uma longa lengalenga,

Áspera, como a araponga,

E tarda como um capenga.

Saiba Sua Senhoria

Que, em cousas parlamentares,

A minha sabedoria

Vale a de um ou dois muares.

Não? Isso é bondade sua...

Modéstia minha? Qual nada!

Digo-lhe a verdade crua,

Nua e desavergonhada.

Não entendo patavina,

Eu, que entendo a lei mosaica,

Humana, embora divina,

Límpida, conquanto ataica.

“E disse o Senhor: Faze isto,

Moisés, faze aquilo, ordena,

Eu, c'o meu poder te assisto;

Põe esta pena e esta pena”.

Eram assim leis sem voto,

Sem consulta, sem mais nada.

Deus falava ao grão devoto,

E vinha a lei promulgada.

Mas por que é que tanta gente,

Reunida numa sala,

Examina a lei pendente

Escuta, cogita e fala?

E por que vota? pergunto ...

Nisto abro uma folha, e leio

Bem explicado este assunto:

Era um discurso alto e cheio.

O orador, um deputado

Do Ceará, respondia

A um que o tinha acusado

De manter a escravaria.

Defendia-se, mostrando

Que, desde anos longos, fora

Dos que viveram chamando

A aurora libertadora.

Que a obra da liberdade

Era também obra sua,

Fê-la com alacridade,

Sem proclamá-lo na rua.

Votou, é certo, em contrário

Ao projeto com que o Dantas

Criou o sexagenário

E umas outras cousas tantas.

Mas não foi porque o julgasse

Oposto ao que entende justo,

Nem porque ele lhe vibrasse

Qualquer sensação de susto.

Foi só porque o gabinete

Para o Ceará mandara

Um presidente e um cacete,

Ambos de muito má cara.

Ele, vendo os seus amigos

Perseguidos, destinados,

Depois de grandes perigos,

A serem exterminados.

Votou contra a lei; e a prova

De que lhe não era oposto,

É que, vindo gente nova,

Votou a lei, de bom rosto.

E conclui assim: “Senhores,

Qualquer outro que se achasse,

Cheio de iguais amargores

E injúrias da mesma classe,

Faria o que fiz”. Pasmado,

De tudo o que não sabia,

Vim confessá-lo humilhado

Ante Vossa Senhoria.

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