Gazeta de Holanda - N.º 21

4 DE JULHO DE 1887.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Meu Octaviano amigo,

Que idéia foi essa vossa

De deixar que o inimigo

Inda uma vez ganhar possa?

Ruim verso, mas aí fica;

Pior que fosse, ficara;

Não há rima bela ou rica;

Brilhante, sólida ou rara,

Quando o espírito, pasmado,

Mal sabe o que vai dizendo...

E eu sinto-me apatetado

Ante esse conselho horrendo.

Sim, eu penso com Malvino

Que as abstenções são fatais.

É este o melhor ensino

Em cousas eleitorais.

Pois não há aí três pessoas...

Digo mal, duas somente,

Sinceras, válidas, boas,

Que lutem proximamente?

Que é a vida? Uma batalha,

Tiro ao longe, espada à cinta;

Para os barbeiros, navalha;

Para os escritores, tinta;

Para os candidatos, cédula.

Quantas vezes tenho visto

Confessar a gente incrédula

Que não soube atentar nisto!

Sim, eu penso com Malvino

Que as abstenções são fatais;

É esse o melhor ensino

Em cousas eleitorais.

Eu, em rapaz, era dado

Às moças! Lembra-me que uma

Tinha o corpo bem talhado

E olhos feito verruma.

Olhos tais que penetravam

Na gente, em reviradela;

E muitos moços sangravam

Da marcenaria dela.

Quis ver se era amado. Um tio,

Fazendo por dissuadir-me,

Andava num corrupio,

E eu firme, três vezes firme.

Sempre entendi com Malvino

Que as abstenções são fatais.

É esse o melhor ensino

Em cousas eleitorais.

E notem a coincidência;

Essa moça, esse pecado

Tinha a sua residência

Mesmo à rua do Senado.

E notem mais que não era

Uma cadeira, mas duas...

Camões, que falou da hera,

Meta aí palavras suas.

Confesso que, ao recordá-la,

Sinto em mim tais pensamentos,

Que era capaz de arrancá-la

A cinco ou seis regimentos.

Nisto entendo, com Malvino,

Que as abstenções são fatais.

É esse o melhor ensino

Em cousas eleitorais.

Lutei muito. Ela fechava

Muitas vezes a janela,

Quando eu por ali passava

Para ver o rosto dela.

Outras vezes devolvia

Cartas escritas com sangue...

Lembra-me uma, que dizia:

“Anjinho meu, não se zangue,

“Se passo por sua casa;

Menos ainda, se temo

Em alimentar a brasa

Deste fogo em que me queimo.

“Que eu penso, como Malvino,

Que as abstenções são fatais;

É esse o melhor ensino

Em cousas eleitorais”.

E o certo é que fiz tanto,

Tanto andei por essa rua,

Gemi, gemi tanto canto,

Sem lua, e ainda mais com lua,

Que a moça, de compassiva,

Escutou meus ais tristonhos

E pegou da pena esquiva,

Para responder-me aos sonhos.

“Sei que és coração perfeito,

Que me amas e que não cansas.

Mando-te aqui do meu peito,

Não amor, mas esperanças...

“Crê, amigo, com Malvino,

Que as abstenções são fatais.

E' esse o melhor ensino

Em cousas eleitorais.

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