Gazeta de Holanda - N.° 2

5 DE NOVEMBRO DE 1886.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Muito custa uma notícia!

Que ofício! E nada aparece,

Que canseira e que perícia!

Que andar desde que amanhece!

E tu, leitor sem entranhas,

Exiges mais, e não vês

Como perdemos as banhas

Em te dar tudo o que lês.

És assim como um janota

De maneiras superfinas,

Que não sabe o preço à bota

Com que cativa as meninas.

Agora mesmo, buscando

Saber de associação

Que se deu ao venerando

Ofício de proteção

Aos animais — não sabia

Onde achasse os documentos

Dessa obra de simpatia,

Para transmiti-la aos ventos.

Achei quatrocentas atas

De reuniões semanais,

Ofícios, notas e datas,

Tudo espalhado em jornais.

Mas das ações praticadas

Em favor da bicharia,

E das vitórias ganhadas,

Nada disso conhecia.

Então lembrei-me de um burro,

Sujeito de algum valor,

Nem grosseiro nem casmurro,

Menos burro que o senhor.

E pensei: “Naturalmente

Traz toda a historia sabida;

É burro, há de ter presente

A proteção recebida”

Lá fui. O animal estava

Em pé, com os olhos no chão,

Tinha um ar de quem cismava

Cousas de ponderação.

Que cousas, porém, que assunto

Tão grave, tão demorado,

Ocupava o seu bestunto,

Nada lhe foi perguntado.

Talvez, ao ver-se assim magro,

Cativo como um nagô,

Pensasse no velho onagro,

Que foi seu décimo avô.

Entrei, dizendo-lhe a causa

Daquela minha visita;

Ele, depois de uma pausa,

Como gente que medita,

Respondeu-me: — Em frases toscas

Mas verdadeiras, direi,

Enquanto sacudo as moscas,

Tudo o que sobre isto sei.

Juro-te que a sociedade,

Contra os nossos sofrimentos,

Tem obras de caridade,

Tem leis, tem regulamentos.

Tem um asilo, obra sua,

Belo, forte, amplo e capaz;

Já se não morre na rua,

Dá-se ali velhice e paz.

Gozam dessa benta esmola,

Em seus quartos separados,

Mais de uma onça espanhola,

E muitos gatos-pingados.

Todos os galos na testa

Acham lá milho e afeição;

Lá vive tudo o que resta

Da burra de Balaão.

Mora ali a vaca fria.

E mais a cabra Amaltéia,

Única e só companhia

Do pobre leão de Neméia.

Não posso fazer elipse

Dos bichos caretas, nem

Da besta do Apocalipse,

Que ali seu abrigo têm.

E o cisne de Leda, e um bode

Expiatório, e o cavalo

De Tróia, escapar não pode;

Mas há outros que inda calo.

Peguei no papel, e a lápis

Escrevi tudo, e escrevi

Mais o nome do boi Ápis,

Que ele inda me disse ali.

E perguntei: — Meu amigo,

Por que é que a tantos amaina

O tempo, naquele abrigo,

E você anda na faina?

Ele, burro circunspecto,

Asno de boa feição,

Tirou de fino intelecto

Esta profunda razão:

— Se eu estivesse ali junto

Com outros da minha banda,

Você não tinha este assunto

Para a “Gazeta de Holanda”.

Vá consolado: que importa

Que eu viva cá fora ou lá?

Qualquer porta há de ser porta,

Para sair; vá, vá, vá.

E enquanto assim me dizia

frases que chamava toscas,

Chagas de pancadaria

Iam convidando as moscas.

Lá o deixei como estava,

Em pé, com os olhos no chão,

Parecendo que cismava

Cousas de ponderação.

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