Gazeta de Holanda - N.° 14

7 DE MARCO DE 1887.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Se eu fosse aquele Custódio

Gomes ou Bíblia chamado,

Que não deu esmola ou bródio,

Nem mimos por batizado,

Pela luz que me alumia,

Juro, e mais que nunca, juro,

Que pesaroso olharia

Para este processo escuro.

Daria grandes palmadas,

Ao ler tantas testemunhas,

Tantas cousas encontradas,

Tantas mãos e tantas unhas.

Pesquisas de parte a parte,

E um testamento que é tudo:

Ora forjado com arte,

Para uso e para estudo,

Ora verdadeiro e filho

Do próprio autor sepultado,

Que ajuntara tanto milho

Para não vê-lo espalhado.

Audiências e audiências,

Nomes, nomes, nomes, nomes,

Pendências sobre pendências;

Fosse eu o Custodio Gomes,

Suspiraria: —”Bem tolo

Que fui eu em prepará-lo,

Esse rico e imenso bolo,

Se não tinha de papá-lo.

“Que ajuntei, dia por dia,

Vintém a vintém suado,

Para deixar tal quantia

De dinheiro amontoado;

“Que, quando havia desmancho

Na casa de um inquilino,

Em vez de dar esse gancho;

Sabia intrépido e fino,

“Armado de cal, tijolo,

Colher e as cousas restantes,

E lograva recompô-lo,

Melhor do que estava dantes.

“Que, se vagava algum prédio

Dos meus, ia ver se tinha

Uma taboa p’ra remédio,

Talha ou taco de cozinha,

“Qualquer cousa que algum dia

Valesse às necessidades...

Com pouco e pouco (dizia)

Fazem-se as grandes cidades.

“Comi o pão que o Diabo

Amassou; fui parco e ativo,

Trazia as botas no cabo,

Mas a mão firme, o olho vivo.

“E no fim de tanta lida,

Não sei se boa ou má sorte,

Saí do rumor da vida,

Sem olhar a paz da morte.

“Todos os dias cá leio

Impresso o meu triste nome;

Vejo escrito que fui meio

Maluco e unhas de fome.

“A minha vida sem ócios,

Gente de casa e costumes,

E todos os meus negócios...

Já dá para encher volumes!

“Ah! se em vez de andar c'o a sela

Na barriga a vida inteira,

Vida de meio tigela,

De poupança e de canseira,

“Vivesse à larga, comesse

Deliciosas viandas,

E cauteloso bebesse

Vinho de todas as bandas;

“Roupa fina, o meu teatro,

Uma ou outra vez berlinda;

Moças, o diabo a quatro

Até a existência finda;

“Quem se lembraria agora

De mim? Dormia esquecido,

Sem chegar a voz sonora

Dos prelos ao meu ouvido.

“Convivas e devedores,

Pode ser que se lembrassem

Das ceias e dos favores,

E alguma vez me louvassem;

“Mas tão baixinho e tão pouco

Que a voz não me chegaria,

E eu, que acabei meio louco,

Surdo e mudo acabaria”.

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