Gazeta de Holanda - N.º 11

20 DE JANEIRO DE 1887

Voilà ce que l’on dit moi

Dans la Gazette de Hollande.

Cousas que cá nos trouxeram

De outros remotos lugares,

Tão facilmente se deram

Com a terra e com os ares,

Que foram logo mui nossas

Como é nosso o Corcovado,

Como são nossas as roças,

Como é nosso o bom-bocado.

Dizem até que, não tendo

Firme a personalidade,

Vamos tudo recebendo

Alto e malo, na verdade.

Que é obra daquela musa

Da imitação, que nos guia,

E muita vez nos recusa

Toda a original porfia.

Ao que eu contesto, porquanto

A tudo damos um cunho

Local, nosso; e a cada canto

Acho disso testemunho.

Já não falo do quiosque,

Onde um rapagão barbado

Vive... não digo num bosque,

Que é consoante forçado,

Mas no meio de um enxame

(É menos mau) de cigarros,

Fósforos, não sei se arame;

Parati para os pigarros;

Café, charutos, bilhetes

Do Pará, das Alagoas,

Verdadeiros diabretes,

E outras muitas cousas boas.

Mas a polca? A polca veio

De longas terras estranhas,

Galgando o que achou permeio,

Mares, cidades, montanhas.

Aqui ficou, aqui mora;

Mas de feições tão mudadas,

Que até discute ou memora

Cousas velhas e intrincadas.

Pusemos-lhe a melhor graça,

No título, que é dengoso,

requebro, já chalaça,

Ou lépido ou langoroso.

Vem a polca: Tire as patas,

Nhonhô! — Vem a polca: Ó gentes!

Outra é: — Bife com batatas!

Outra: Que bonitos dentes!

—Ai, não me pegue, que morro!

— Nhonhô, seja menos seco!

— Você me adora? — Olhe, eu corro!

— Que graça! — Caia no beco!

E como se não bastara

Isto, já de casa, veio

Cousa muito mais que rara,

Cousa nova e de recreio.

Veio a polca de pergunta

Sobre qualquer cousa posta

Impressa, vendida e junta

Com a polca de resposta.

Exemplo: Já se sabia

Que esta câmara apurada,

Inda acabaria um dia

Numa grande trapalhada.

Chega a polca, e, sem detença,

Vendo a discussão, engancha-se,

E resolve: — Há diferença?

— Se há diferença, desmancha-se.

Digam-me se há ministério,

Juiz, conselho de Estado,

Que resolva este mistério

De modo mais modulado.

É simples, quatro compassos,

E muito saracoteio,

Cinturas presas nos braços,

Gravatas cheirando o seio.

— Há diferença? diz ela.

Logo ele: — Se há diferença,

Desmancha-se; e o belo e a bela

Voltam à primeira avença.

E polcam de novo: — Ai, morro!

— Nhonhô, seja menos seco!

— Você me adora? — Olhe, eu corro!

— Que graça! Caia no beco!

Desmancha, desmancha tudo,

Desmancha, se a vida empaca.

Desmancha, flor de veludo,

Desmancha, aba de casaca!

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