Gazeta de Holanda - N.° 1

1.º DE NOVEMBRO DE 1886.

Voilà ce que l'on dit de moi

Dans la Gazette de Hollande.

Um doutor da mula ruça,

Caolho, coxo e maneta,

É o homem que se embuça

No papel desta gazeta.

Gazeta que, se tivesse

Outra forma, outro formato,

Pode ser que merecesse

Vir com melhor aparato.

Mas é modesta, não passa

De uma folha de parreira,

Que dá uva, que dá passa,

Que dá vinho e borracheira.

Traz programa definido,

Para entrar no grande prélio;

Nem bemol, nem sustenido,

Nem Caim, nem Marco-Aurélio.

Não traz idéias modernas,

Nem antigas; não traz nada.

Traz as suas duas pernas,

Uma sã, outra quebrada.

E vem, como é de ciência,

Entre muletas segura,

A muleta da inocência,

E a muleta da loucura.

Se uma não pega, outra pega,

E fica o corpo amparado;

Se para um lado escorrega,

Fica-lhe sempre outro lado.

De modo que, quanto diga,

Seja ou não o que a lei manda,

Há de achar entrada amiga

Esta Gazeta de Holanda.

Que traga idéias a folha

Liberal que se anuncia,

Que as espalhe, que as escolha,

Como a Reforma fazia.

Vá que seja — posto seja

Tarefa das mais reversas,

Fazer uma só igreja,

De tantas seitas diversas.

A prova é que, ainda agora,

Já pronta a bagagem sua,

Somente esperando a hora

De sair a folha à rua,

Feito um capítulo apenas,

De tão diversos capítulos,

E, contando boas penas,

Já traz a folha dois títulos.

Voz da Nação, ou — Gazeta

Nacional; só falta a escolha.

Já principia a marreta,

Antes de sair a folha.

Eu cá, perfeita unidade.

Ora aprovo, ora contesto,

Sem que haja necessidade

De ouvir protesto e protesto...

Exemplo: ao ler que se trata

De fazer um edifício

Para o júri: — colunata,

Vasto e grego frontispício,

E que esta idéia bizarra

Nasceu mesmo agora, agora,

Quando foi ali à barra

Uma distinta senhora;

Quando a afluência de gente

Era tal, que o magistrado

Teve de ir incontinente

Pedir sabão emprestado;

Comigo disse: — Bem feito

Que a Joaninha expirasse

De uma moléstia do peito,

E que a Eduarda cegasse.

Só assim tínhamos prédio

Para um tribunal sem nada;

Não foi morte, foi remédio;

Foi vida, não foi pancada.

Pangloss, o doutor profundo,

Mostra que há grande harmonia

Entre as cousas deste mundo,

Entre um dia e outro dia;

Que os narizes foram dados

Para os óculos; portanto,

Trazem óculos pousados...

Pangloss é o meu padre-santo.

Logo, se uma e outra escrava

Brigaram sem sentimento,

A razão de ação tão brava

Foi termos um monumento.

Neste ponto o ponto pingo,

E despeço-me no ponto

Em que cada novo pingo,

Já não é ponto, é posponto.

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