Falenas - OS DEUSES DA GRÉCIA [5]

(Schiller)

Quando, coos tênues vínculos de gozo,

Ó Vênus de Amatonte, governavas

Felizes raças, encantados povos

Dos fabulosos tempos;

Quando fulgia a pompa do teu culto,

E o templo ornavam delicadas rosas,

Ai! quão diverso o mundo apresentava

A face aberta em risos!

Na poesia envolvia-se a verdade;

Plena vida gozava a terra inteira;

E o que jamais hão de sentir na vida

Então sentiam homens.

Lei era repousar no amor; os olhos

Nos namorados olhos se encontravam;

Espalhava-se em toda a natureza

Um vestígio divino.

Onde hoje dizem que se prende um globo

Cheio de fogo, — outrora conduzia

Hélios o carro de ouro, e os fustigados

Cavalos espumantes.

Povoavam Oréades os montes,

No arvoredo Doríades viviam,

E agreste espuma despejava em flocos

A urna das Danaides.

Refúgio de uma ninfa era o loureiro;

Tantália moça as rochas habitava;

Suspiravam no arbusto e no caniço

Sirinx, Filomela.

Cada ribeiro as lágrimas colhia

De Ceres pela esquiva Persefone;

E do outeiro chamava inutilmente

Vênus o amado amante.

Entre as raças que o pio tessaliano

Das pedras arrancou, - os deuses vinham;

Por cativar uns namorados olhos

Apolo pastoreava.

Vínculo brando então o amor lançava

Entre os homens, heróis e os deuses todos;

Eterno culto ao teu poder rendiam,

Ó deusa de Amatonte!

Jejuns austeros, torva gravidade

Banidos eram dos festivos templos;

Que os venturosos deuses só amavam

Os ânimos alegres.

Só a beleza era sagrada outrora;

Quando a pudica Tiêmone mandava,

Nenhum dos gozos que o mortal respira

Envergonhava os deuses.

Eram ricos palácios vossos templos;

Lutas de heróis, festins, e o carro e a ode,

Eram da raça humana aos deuses vivos

A jucunda homenagem.

Saltava a dança alegre em torno a altares;

Louros c'roavam numes; e as capelas

De abertas, frescas rosas, lhes cingiam

A fronte perfumada.

Anunciava o galhofeiro Baco

O Tirso de Evoé; sátiros fulvos

Iam tripudiando em seu caminho;

Iam bailando as Mênades.

A dança revelava o ardor do vinho;

De mão em mão corria a taça ardente,

Pois que ao fervor dos ânimos convida

A face rubra do hóspede.

Nenhum espectro hediondo ia sentar-se

Ao pé do moribundo. O extremo alento

Escapava num ósculo, e voltava

Um gênio a tocha extinta.

E além da vida, nos infernos, era

Um filho de mortal quem sustentava

A severa balança; e coa voz pia

Vate ameigava as Fúrias.

Nos Elísios o amigo achava o amigo;

Fiel esposa ia encontrar o esposo;

No perdido caminho o carro entrava

Do destro automedonte.

Continuava o poeta o antigo canto;

Admeto achava os ósculos de Alceste;

Reconhecia a Pílades o sócio,

E o rei tessálio as flechas.

Nobre prêmio o valor retribuía

Do que andava nas sendas da virtude;

Ações dignas do céu, filhas dos homens,

O céu tinham por paga.

Inclinavam-se os deuses ante aquele

Que ia buscar-lhe algum mortal extinto;

E os gêmeos lá no Olimpo alumiavam

O caminho ao piloto.

Onde és, mundo de risos e prazeres?

Por que não volves, florescente idade?

Só as musas conservam os teus divinos

Vestígios fabulosos.

Tristes e mudos vejo os campos todos;

Nenhuma divindade aos olhos surge;

Dessas imagens vivas e formosas

Só a sombra nos resta.

Do norte ao sopro frio e melancólico,

Uma por uma, as flores se esfolharam;

E desse mundo rútilo e divino

Outro colheu despojos.

Os astros interrogo com tristeza,

Selene, e não te encontro; à selva falo

Falo à vaga do mar, e à vaga, e à selva,

Inúteis vozes mando.

Da antiga divindade despojada,

Sem conhecer os êxtases que inspira,

Desse esplendor que eterno a fronte lhe orna

Não sabe a natureza.

Nada sente, não goza do meu gozo;

Insensível à força com que impera,

O pêndulo parece condenado

Às frias leis que o regem.

Para se renovar, abre hoje a campa,

Foram-se os numes ao país dos vates;

Das roupas infantis despida, a terra

Inúteis os rejeita.

Foram-se os numes, foram-se; levaram

Consigo o belo, e o grande, e as vivas cores,

Tudo que outrora a vida alimentava,

Tudo que é hoje extinto.

Ao dilúvio dos tempos escapando,

Nos recessos do Pindo se entranharam:

O que sofreu na vida eterna morte,

Imortalize a musa!

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