Falenas - LIRA CHINESA [3]

I

O POETA A RIR

(HAN-TIÊ)

Taça d’água parece o lago ameno;

Têm os bambus a forma de cabanas,

Que as árvores em flor, mais altas, cobrem

Com verdejantes tetos.

As pontiagudas rochas entre flores,

Dos pagodes o grave aspecto ostentam...

Faz-me rir ver-te assim, ó natureza,

Cópia servil dos homens.

II

A UMA MULHER

(TCHÊ-TSI)

Cantigas modulei ao som da flauta,

Da minha flauta d'ébano;

Nelas minh'alma segredava à tua

Fundas, sentidas mágoas.

Cerraste-me os ouvidos. Namorados

Versos compus de júbilo,

Por celebrar teu nome, as graças tuas,

Levar teu nome aos séculos.

Olhaste, e, meneando a airosa frente,

Com tuas mãos puríssimas,

Folhas em que escrevi meus pobres versos

Lançaste às ondas trêmulas.

Busquei então por encantar tu'alma

Uma safira esplêndida,

Fui depô-la a teus pés... tu descerraste

Da tua boca as pérolas.

III

O IMPERADOR

(THU-FU)

Olha. O Filho do Céu, em trono de ouro,

E adornado com ricas pedrarias,

Os mandarins escuta: — um sol parece

De estrelas rodeado.

Os mandarins discutem gravemente

Coisas muito mais graves. E ele? Foge-lhe

O pensamento inquieto e distraído

Pela janela aberta.

Além, no pavilhão de porcelana,

Entre donas gentis está sentada

A imperatriz, qual flor radiante e pura

Entre viçosas folhas.

Pensa no amado esposo, arde por vê-lo,

Prolonga-se-lhe a ausência, agita o leque...

Do imperador ao rosto um sopro chega

De recendente brisa.

"Vem dela este perfume", diz, e abrindo

Caminho ao pavilhão da amada esposa,

Deixa na sala, olhando-se em silêncio,

Os mandarins pasmados.

IV

O LEQUE

(TAN-JO-LU)

Na perfumada alcova a esposa estava,

Noiva ainda na véspera. Fazia

Calor intenso; a pobre moça ardia,

Com fino leque as faces refrescava.

Ora, no leque em boa letra feito

Havia neste conceito:

"Quando, imóvel o vento e o ar pesado,

Arder o intenso estio,

Serei por mão amiga ambicionado;

Mas, volte o tempo frio,

Ver-me-eis a um canto logo abandonado.”

Lê a esposa este aviso, e o pensamento

Volve ao jovem marido.

"Arde-lhe o coração neste momento

(Diz ela) e vem buscar enternecido

Brandas auras de amor. Quando mais tarde

Tornar-se em cinza fria

O fogo que hoje lhe arde,

Talvez me esqueça e me desdenhe um dia."

V

A FOLHA DO SALGUEIRO

(TCHAN-TIÚ-LIN)

Amo aquela formosa e terna moça

Que, à janela encostada, arfa e suspira;

Não porque tem do largo rio à margem

Casa faustosa e bela.

Amo-a, porque deixou das mãos mimosas

Verde folha cair nas mansas águas.

Amo a brisa de leste que sussurra,

Não porque traz nas asas delicadas

O perfume dos verdes pessegueiros

Da oriental montanha.

Amo-a, porque impeliu coas tênues asas

Ao meu batel a abandonada folha.

Se amo a mimosa folha aqui trazida,

Não é porque me lembre à alma e aos olhos

A renascente, a amável primavera,

Pompa e vigor dos vales.

Amo a folha por ver-lhe um nome escrito,

Escrito, sim, por ela, e esse... é meu nome.

VI

AS FLORES E OS PINHEIROS

(TIN-TUN-SING)

Vi os pinheiros no alto da montanha

Ouriçados e velhos;

E ao sopé da montanha, abrindo as flores

Os cálices vermelhos.

Contemplando os pinheiros da montanha,

As flores tresloucadas

Zombam deles enchendo o espaço em torno

De alegres gargalhadas.

Quando o outono voltou, vi na montanha

Os meus pinheiros vivos,

Brancos de neve, e meneando ao vento

Os galhos pensativos.

Volvi o olhar ao sítio onde escutara

Os risos mofadores;

Procurei-as em vão; tinham morrido

As zombeteiras flores.

VII

REFLEXOS

(THU-FU)

Vou rio abaixo vogando

No meu batel e ao luar;

Nas claras águas fitando,

Fitando o olhar.

Das águas vejo no fundo,

Como por um branco véu

Intenso, calmo, profundo,

O azul do céu.

Nuvem que no céu flutua,

Flutua n'água também;

Se a lua cobre, à outra lua

Cobri-la vem.

Da amante que me extasia,

Assim, na ardente paixão,

As raras graças copia

Meu coração.

VIII

CORAÇÃO TRISTE FALANDO AO SOL

(SU-TCHON)

No arvoredo sussurra o vendaval do outono,

Deita as folhas à terra, onde não há florir,

E eu contemplo sem pena esse triste abandono,

Só eu as vi nascer, vejo-as só eu cair.

Como a escura montanha, esguia e pavorosa,

Faz, quando o sol descamba, o vale enoitecer,

Esta montanha da alma, a tristeza amorosa,

Também de ignota sombra enche todo o meu ser.

Transforma o frio inverno a água em pedra dura,

Mas torna a pedra em água um raio de verão;

Vem, ó sol, vem, assume o trono teu na altura,

Vê se podes fundir meu triste coração.

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