Crônicas do Dr. Semana - PRELEÇÕES DE GRAMÁTICA - CAPÍTULO II

DA SINTAXE

A Sintaxe ou é natural ou figurada.

Sintaxe natural é a que se funda nas regras gerais e ordinárias da Gramática. Ex: Todo o deputado tem afilhados. Quem não tem dinheiro não tem amigos. O interesse individual é a grande mola dos partidos políticos do mundo.

Sintaxe figurada consiste no uso das figuras. Ex.: Ser hoje liberal e amanhã conservador e depois puritano e depois coisa nenhuma. Prometer casamento a uma menina pobre, roer a corda, e amanhã casar com uma noiva rica. Andar hoje de cotovelos rotos e amanhã em carruagens com cavalos do Cabo. Ganhar 50$000 de ordenado e ir a bailes, teatros e cavalinhos com a família, sempre de carro e cheios de sedas e de brilhantes. Dar soirées caloteando os confeiteiros e pedindo xícaras emprestadas.

§ 1.0 — DA SINTAXE NATURAL

O Sujeito, que exercita a significação do verbo do modo finito, vai para nominativo, com quem o verbo concorda em número e pessoa. Ex.: Os ministérios e a maioria das câmaras. A independência de caráter e o Dr. Semana. Os candidatos da Senatoria de Mato-Grosso e os eleitores da mesma província.

Aquilo que se afirma ou nega do mesmo sujeito, ou a ele se refere, também vai para nominativo. Ex.: Têm passado alguns contrabandos na Alfândega. Nem todas as caixas de zinco trazem fundos falsos com brilhantes. A Biblioteca Pública só está aberta às horas em que ninguém precisa dela. A maior parte dos cavalos dos tílburis anda caindo pelo meio das ruas. O beco das Cancelas continua imundo.

Concorrendo na oração um sujeito da primeira pessoa do singular com outro da segunda ou terceira, poremos o verbo na primeira do plural. Ex.: Um empregado inteligente sem proteção, e outro estúpido, afilhado de barão ou de conselheiro, este é o que tem acesso. Brasileiro e estrangeiro para qualquer emprego, este é o escolhido. Estudante aplicado e estudante vadio, o vadio é o aprovado.

28 DE SETEMBRO DE 1862.

Concorrendo na oração um sujeito da segunda pessoa do singular com outro da terceira, poremos o verbo na segunda do plural. Ex.:Um afilhado de figurão e um pai de família para o lugar de pedestre. Um noivo rico e estúpido e um pobre e inteligente. Uma modista francesa e outra brasileira.

Concorrendo na oração muitos sujeitos, todos da terceira pessoa do singular, poremos o verbo na terceira do plural, concordando com todos; ou na terceira do singular, com um só. Ex.: Um deputado das maiorias. Uma inteligência engarrafada. Um capacho de ministros. Uma rapariga namoradeira.

Os nomes adjetivos, pronomes e particípios concordam com seus substantivos em gênero, número e caso. Ex.: Feliz — Bertha. Bela — Armina. Ir — as. Vilas — Boas. Rosa — Linda. Feliz — Mina. Flor — em — tina. Eu — fêmea. Domingos Dias. — Já — sinto — Arruda.

Os relativos concordam com os seus substantivos antecedente em gênero e número, e com o subseqüente em gênero, número e caso. Ex.: As parelhas dos ônibus. Os guardas-fiscais. As barcas de Niterói. Os anúncios de leilões. Os dramas do teatro de S. Pedro.

O sujeito, que exercita a significação do verbo do modo infinito, vai para o acusativo. Ex.: Comandante de batalhão da Guarda Nacional. – Professor de primeiras letras. Praticante de repartição, que só tira cópias e registra. Taquígrafo parlamentar.

Aquilo, que se afirma, ou nega desse sujeito, ou para ele se refere, também vai para o acusativo. Ex.: Os Comandantes dos batalhões às vezes nem sabem mandar. Nem todos os professores de primeiras letras estão habilitados para ensinar. Há praticantes de repartição que não sabem se o — c — acompanhado de — a — o ou — u — deve ser cedilhado. Os taquígrafos parlamentares vêem-se atrapalhados para entender certos oradores.

Pelo caso por que se faz a pergunta, por esse mesmo se dá a resposta. Ex.: Quem tem culpa de estarem às ruas imundas? A Câmara Municipal. Quem não dá cabo dos capoeiras? A Polícia. Para que servem os pedestres? Para coisa alguma. Quem deve evitar os ratoneiros? Cada um em sua casa , fechando bem as portas. Quem há de obstar a que se forme um charco de águas servidas por trás do botequim do Passeio Público? Quem Deus quiser. Quem são os maiores inimigos dos empregados públicos? Os seus colegas de repartição. Qual é a classe mais imoral do Brasil? A que não pode curar.

§ 2.° — DA SINTAXE DE REGÊNCIA

O nome, que significa o senhor ou possuidor de alguma coisa, ou a quem ela pertence, põe-se no genitivo. Ex.: Marido. Inspetor de quarteirão. Fiscal da cidade. Água entupindo as valas. Capoeiras em domingo.

Aos adjetivos, que significam coisa rica, pobre, ciente, ignorante, vazia, carregada, vestida, despida, lembrada, esquecida, participante, etc., se ajunta genitivo, que significa aquilo de que há riqueza, pobreza, ciência etc., etc. Rico de notas falsas. Pobre de boa educação. Ciente de estupidez. Ignorante das funções que exerce. Vazio de bom senso. Carregado de crimes e de torpezas. Vestido à custa dos alfaiates. Despido de vergonha. Lembrado quando há vontade de dar gargalhadas. Esquecido quando não aparece. Participante dos prejuízos. *

Aos verbos que significam acusar, absolver, se ajunta genitivo, que significa aquilo de que se acusa, ou absolve. Ex.: A câmara municipal é acusada de deixar que as ruas continuem como estão. As Autoridades são acusadas de não tomarem providências para que não haja uma catástrofe das barcas Ferry. Os pedestres são absolvidos do pouco que fazem, porque são quase todos inválidos. Os teatros são absolvidos de estarem quase às moscas, porque o público não os freqüenta.

O nome, que significa o louvor, ou vitupério, que se dá a alguém, põe-se: Todas as Câmaras Municipais são descuidadas. O Graça e o Vasques são violetas no Ginásio. O Dr. Semana é o rapaz mais bonito do Rio de Janeiro. As carroças do Asseio Público são vidros ambulantes de Frangipani.

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