Crônicas do Dr. Semana - PRELEÇÕES DE GRAMÁTICA - CAPÍTULO I

PARTES DA ORAÇÃO

Oração é o amontoado de palavras chistosas com sentido completo, para fazer rir os leitores da Semana.

Divide-se em: Artigo, Nome, Pronome, Verbo, Particípio, Advérbio, Preposição, Conjunção, e Interjeição.

§ 1. ° — DO ARTIGO

Artigo semanal é um pedaço de escrito, com princípio, meio e fim, que serve para divertir ou aborrecer a quem o lê. Exemplo: As memórias de um tunante; As vespas dramáticas; e as Preleções de gramática para uso da Negrinha.

O Artigo semanal pode ser masculino, feminino, ou neutro, conforme o gosto de quem o lê. Serve para encher as colunas da Semana Ilustrada, e aumentar o número de suas páginas. Sem o Artigo, a Semana publicaria unicamente caricaturas.

§ 2.° — DO NOME

Nome semanal é uma voz empregada para conhecer as coisas, que merecem reparo ou caricatura por este mundo de Cristo. Exemplo:Guarda fiscal; Pedestre; Leão da rua do Ouvidor.

O Nome é substantivo, ou adjetivo.

Nome substantivo em geral, e até para a gramática da Semana, é aquele que pode estar na oração sem complemento algum. Exemplo:Celibatário; Riala; Frade ou Freira.

Nome adjetivo, também em geral, e até para a gramática da Semana, é aquele que não pode estar na oração sem algum substantivo. Ex.: Namorado; Camélia; Dr. Semana; Estômago de meirinho.

O Substantivo ou é próprio, ou apelativo.

Próprio é o que cabe a uma só coisa ou pessoa. Ex: Papa; Estátua do largo do Rocio; Subvenção ao teatro de S. Pedro, ou à Ópera Nacional.

Apelativo é o que cabe a muitas coisas ou pessoas. Ex: Egoísmo político; Classes perigosas do Rio de Janeiro; Vira-casacas; Pensionistas do Estado.

O Adjetivo é ou qualificativo, ou determinativo, ou possessivo, ou demonstrativo, ou genérico, ou numeral, ou indefinido.

Qualificativo é o que exprime a qualidade das coisas ou pessoas. Ex.: Chim ratoneiro; Cantor do Teatro Lírico com abaixamento de voz; Carroça de águas servidas nauseabunda.

Determinativo é o que determina o sentido particular e a ação dos nomes que modifica. Ex.: Limpeza pública; Irrigação das ruas.

Possessivo é o que dá uma idéia de possessão. Ex.: Vereador da Câmara Municipal dentro do quatriênio; Cambista de bilhetes à porta do teatro; Lavadeira do Campo da Aclamação.

Demonstrativo é o que dá uma idéia de designação precisa. Ex: Mãozinha preta no canto das ruas; Beco das Cancelas para quem tiver bebido cerveja ou mate; Hotel da Europa para quem tiver fome e quiser gastar dinheiro.

Genérico é o que especifica os gêneros. Ex.: Anúncio da 4ª coluna dos jornais; Carne seca podre vendida à pobreza; Manteiga rançosa; Vinho com pau-campeche.

Numeral é o que dá uma idéia da quantidade, ou ordem. Ex.: Afilhado de ministro; Cavaleiro e oficial da Rosa; Rua imunda; Taverneiro velhaco; Pedestre dorminhoco e covarde; Deputado que não fala; Eleitor adulado; Protetor de viúvas e órfãs desvalidas; Patriotas da algibeira; e Críticos literários.

Indefinido é o que modifica o nome, representando-o de uma maneira vaga. Ex.: Liberal; Conservador; Barrigudo; Pai da pátria; Literato; Escritor público; Artista; Irmão de Ordem Terceira; Homem desempregado.

§ 3.° — DO PRONOME

O Pronome é uma voz que se põe em lugar do nome. Ex: Barão do Engenho de Baixo, em lugar de João Francisco do Espírito Santo e Souza. Doutor, em lugar de Manoel Borromeu. Senado em lugar de Casa com escritos para alugar.

O Pronome é pessoal, ou conjuntivo, ou possessivo, ou demonstrativo, ou indefinido.

Pessoal é aquele que, as mais das vezes, representa as três pessoas do verbo. Ex.: — A Semana Ilustrada, que representa o Dr. Semana, o moleque e a negrinha.

Conjuntivo é o que se acha na mesma oração, em relação imediata com o nome ou pronome, que representa. Ex.: Deputado quando encontra um Eleitor Criminoso perante o Júri.

Possessivo é aquele que liga uma idéia de possessão ao nome cujo lugar ocupa. Ex.: Petit-maître a cavalo.

Demonstrativo é o que, por assim dizer, mostra os objetos que representa. Ex.: Caixa d’água de Catumbi que custou centenários de contos. Teatro Lírico, que existe desde 1852. O papel de Mademoiselle no teatro de S. Pedro. Empregado de repartição quando leva o dia a fumar.

Indefinido é o que não determina a pessoa ou coisa, cujo lugar ocupa. Ex: Larápio. Procurador. Adulador. Pretendente.

§ 4. ° — DO VERBO

Verbo é uma palavra com que afirmamos uma coisa de outra. Ex: As ruas do Rio de Janeiro andam imundas, porque os fiscais não se importam com isso. O luxo é extraordinário, porque poucos pagam as suas dívidas. A iluminação a gás não clareia depois de duas horas da noite, porque mandam apagar metade dos lampiões. As chuvas alagam a cidade, porque as valas estão sempre entupidas.

O Verbo é ou ativo ou passivo.

Ativo é aquele que afirma que se faz alguma coisa. Ex.: Botar muito dinheiro fora. Eleições sem consciência. Dar ajudas de custo sem necessidade. Prover empregos só por empenhos.

Passivo é o que afirma que uma coisa já está feita. Ex.: Notas diplomáticas dando satisfações a qualquer naçãozinha. Asneiras políticas. Víveres falsificados. Ponte dos despejos na praia de Santa Luzia.

§ 5. ° - DO PARTICÍPIO

Particípio é uma voz que do nome participa os casos e do verbo os tempos. Ex.: Matéria velha do Jornal do Comércio. A Nódoa de Ouro. Carroças de Asseio Público.

§ 6. ° - DO ADVÉRBIO

Advérbio é uma voz indeclinável que, junto ao nome ou verbo, exprime o modo ou circunstância de um e outro. Ex: Guarda-fiscal. Passeio público. Câmara Municipal. Guarda nacional. Iluminação a gás. Barcas Ferry.

Os advérbios dividem-se em:

Afirmativos. Ex.: Tudo entre nós é mal feito. Cada um puxa a brasa para sua sardinha. Quem sabe ler, escrever e contar é uma inteligência.

Negativos. Ex.: A Companhia dos Ônibus não têm burros gordos. A arborização não é das primeiras necessidades no nosso país. A lavoura não precisa de braços.

Comparativos. Ex.: Os frades de pedra do largo do Rocio e a Estátua eqüestre. A nova casa da moeda e o Senado. O teatro lírico e o Circo Spalding and Rogers.

Demonstrativos. Ex.: A ponte das barcas velhas. O campo da Aclamação. Os negros de tigres com ferro ao pescoço. Os mendigos às portas das igrejas.

De tempo. Ex.: Daqui a cem anos teremos esgotos no Rio de Janeiro. Em 1999 o Correio há de melhorar o seu sistema de entrega de cartas. O Brasil há de ser grande nação quando todas as outras forem pequenas. O café há de prosperar quando a natureza se lembrar de dar cabo do bicho.

De lugar. Ex.: Em qualquer parte fazem-se despejos. O largo de S. Francisco é o salão de baile dos tílburis, que atrapalham a quem passa. O teatro de S. Pedro é o ponto das quitandeiras de dote.

De quantidade. Ex.: Falta de patriotismo. Praticantes nas repartições saídos das escolas. Vagabundos de esquinas. Ratoneiros de galinhas. Cambistas de teatros e de cavalinhos. Moças namoradeiras. Negociantes de funda.

De modo. Ex.: Autoridades que maltratam as partes. Negras minas atrevidas. Professores que tratam bem as meninas, para depois a polícia mandar-lhes fechar os colégios.

§ 7. ° — DA CONJUNÇÃO

Conjunção é uma voz indeclinável, que serve de atar ou ajuntar uma palavra ou oração com outra. Ex.: Liga de cetim branco da marca Honny soit qui mal y pense. -Pontes flutuantes da Companhia Ferry. Estola de padre no ato do casamento. Cadarços de ceroulas.

As conjunções dividem-se em:

Copulativas. Ex.: Pombo em cima do jacá quando dá comida aos filhos. Línguas viperinas, que falam da vida alheia. Solda de consertador de porcelanas da Rua do Parto.

Condicionais. Ex.: A menina bonita casa se não tem muitos namorados. O corpo legislativo marchará de acordo se não houver interesses pessoais. Os alfaiates farão muitas casacas contanto que não elevem o preço dos feitios.

Conclusivas. Ex.: Os homens que se casam perdem a liberdade. Depois de um grande jantar tomam todos a sua xícara de café (há exceções a favor do chá). Quando um ônibus de bestas magras está cheio, cada passageiro é obrigado a pagar o seu bilhete (não há exceções).

Declarativas. Ex.: Eu te amo. Minha mulher anda sem meias por casa, e não penteia os cabelos. As gravatas de meu marido são retalhos dos meus vestidos.

Disjuntivas. Ex.: Aperto de mão entre inimigos. Apartes no parlamento. Intrigas nos bastidores. Filhos malcriados de dois amigos. Ciúmes de namorados. Miséria repentina em qualquer casa conhecida.

Negativas. Ex.: Não há quem mande ajuntar a lama quando chove. Não há costureira que não saiba fazer ponto atrás e bainha de laçada. Não há repartição pública que não tenha mexeriqueiros.

Causais. Ex.: A inveja afasta os homens uns dos outros. O talento chama inimigos. O interesse é o irmão de muitas amizades.

§ 8.° — DA INTERJEIÇÃO

Interjeição é uma voz indeclinável, que sem ajuda do verbo exprime por si só os vários afetos e paixões do nosso ânimo. Ex. Que cidade do Rio de Janeiro imunda! Que escuridão nas ruas depois de uma hora da noite! Que cavalos de tílburi tão lazarentos!

As interjeições são:

De declamação. Ex.: Oh! escola dramática do teatro de S. Pedro!! Ah! que oradores às vezes nas câmaras! E a maior parte dos pregadores de igreja!

De sentimento e de implorar socorro. Ex.: Que carroças de asseio público! Que chapéus monstros nas cabeças dos pretos do ganho nas horas de mais concorrência! Que quantidade de cambistas de bilhetes de loteria às portas dos tesoureiros! Que de benefícios nos teatros!

De espanto. Ex.: Quanta mulher feia no Rio de Janeiro! Que número de deputados mudos! Quanto militar poltrão!

De repugnância. Ex.: Que menina presunçosa! Abaixo os ganhadores políticos! Um homem de gravata de três cores!!

De dor. Ex.: Que de barras de vestidos na lama! Oh! botas de quinze dias com buracos! Ai, que cantora sem voz!

De admiração. Ex.: Que alinhamento de ruas para casas novas! Que de pobres nas igrejas! Quanta negra de vestido de moiré antique.

De prazer. Ex.: Oh! minha boa cama! Por hoje nada mais! Aos leitores de preleções de gramática, adeus!

§ 9.° - DA PREPOSIÇÃO

10 DE AGOSTO DE 1862.

Preposição é uma voz indeclinável, que serve para reger os nomes, e para compor os verbos e os nomes.

Ex.: Partido — Progressista Constitucional. Contrabandos — abrilhantados. Encampações — Unidas — Industriosas. Correio — Mercantil. Harpocrático — a — respeito — de — Política. Diário — Mudo — Silencioso — idem —idem.

As Preposições regem Genitivo, Dativo, Acusativo e Ablativo.

Mutandis mutandis vêm todas elas dar no mesmo. Ex.: Descrença — político — social — brasileira. Crédito — sem — crédito — monetário. Sanguessugas — parlamentares. Conservadores — liberais e liberais — conservadores.

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