Comentários da semana - 8 DE FEVEREIRO DE 1862

Ao redator dos “Ecos Marítimos”

Meu caro, — Praz-me acreditar que, nos longos anos da nossa intima e nunca estremecida amizade, tenho-te dado sobejas provas de que não costumo subordinar as minhas opiniões ao interesse ou conveniências, e que, errôneas ou verdadeiras, são-me elas sempre ditadas pela consciência.

Sabes que não pertenço ao número desses otimistas que tem sempre nos lábios um elogio e nos bicos da pena uma justificação para todo ato de poder, somente porque é do poder.

E, pois, tentando defender o atual ministro da Marinha de acusação que julgaste dever dirigir-lhe, faço-o constrangido, é verdade, por achar-me em divergência com um amigo a quem muito prezo, mas sem temor de que me classifiques entre os turiferarios e amigos interesseiros de que falaste no teu primeiro artigo.

Nesta contenda ficaremos colocados em campos opostos, tomaremos mesmo caminhos diversos, mas como ambos temos o mesmo fim, como ambos visamos ao mesmo norte — a elucidação da verdade, — espero que nos encontremos, e então, como agora, nós poderemos apertar as mãos, porque nem tu nem eu teremos de corar.

Não tratando por enquanto do teu primeiro artigo, porque nele te limitas a formular capítulos de acusação, que prometes desenvolver mais tarde, ocupar-me-ei com as censuras, que no segundo fazes ao sistema que se está seguindo no fabrico do vapor Amazonas.

Pensas que semelhante obra seria mais pronta e economicamente realizada, prorrogando-se as horas de trabalho, mediante abono de gratificações de sesta aos operários?

“Por este modo, dizes tu, lucraria o governo que mais cedo teria à sua disposição o Amazonas; lucrariam os operários que com esse acréscimo de salário proporcionariam às suas famílias maior soma de bem estar; lucrariam os cofres públicos,aumentando suas receitas com o aluguel do dique”.

Para admitir estas conclusões, seria mister conceder-te que a produção do trabalho durante as 2 horas da sesta é equivalente ao salário de meio dia, em tais casos abonado como gratificação, o que contesto.

O trabalho ordinário começa nos nossos arsenais ao nascer do sol e termina às 4 horas da tarde, apenas com interrupção de ½ hora concedida para o almoço; o extraordinário ou sesta prolonga-se dessa hora ao anoitecer.

Assim o sistema que preconizas exige do operário um esforço continuado de 13 horas!

E acreditas que um homem possa, no nosso clima, e durante a estação calmosa, trabalhar com a mesma atividade e perfeição por tão dilatado espaço de tempo, exposto aos raios de sol, que os gigantescos refletores de granito formados pelas paredes do dique, tornam ainda mais abrasador?

O bom senso te dirá que não.

Um ou outro indivíduo, dotado de constituição mais robusta, realizará este supremo esforço no primeiro ou segundo dia, porém, certamente sucumbirá tentando ultrapassar esse limite.

Mas me dirá, o meio que indico tem por si a sanção de inveterada prática!

Nem tudo o que é velho é bom; e não ignoras que mais de um abuso existe enraizado na nossa administração pelo emperrado espírito de rotina.

Vês, portanto, que a adoção do alvitre por ti sugerido, longe de produzir as vantagens que apontas, prejudicaria os cofres públicos, que teriam de pagar pela obra feita quantia superior ao seu merecimento; prejudicaria ao serviço naval dando como pronto um vapor que, pelo mal acabado do seu fabrico, teria mais tarde de voltar à posição de disponibilidade.

Isto é intuitivo; e seguramente escapou, porque apenas examinaste a questão por uma face.

O dique, como bem dizes, não foi construído para cevar os cofres do Tesouro, porém, para prestar o seu valioso auxílio ao material da nossa armada; conseguintemente, que importa que os navios neles se demorem mais ou menos dias, se por este modo executam-se radicalmente os concertos de que carecem?

Precipitação é antípoda de perfeição.

Se isto não fora um axioma, citar-te-ia, como exemplo, o vapor Oyapock que, segundo é voz geral, saiu do dique fazendo água.

Passemos ao outro ponto.

O ministro da Marinha não se intrometeu em atribuições privativas de outrem nem procurou exercer pressão sobre o espírito dos peritos do arsenal, no intuito de arrancar-lhes opinião favorável ao vapor Princesa de Joinville; sua intervenção neste negócio foi estritamente legal e ditada pelos preceitos da prudência e de justiça.

A companhia dos paquetes, como é de praxe, requereu que esse navio fosse vistoriado; mas, empregando as restrições mentais em que é vezeira, não falou do casco, porém simplesmente da máquina; e os peritos, que sabem ser aquele o ponto vulnerável, lavraram o seu parecer em termos genéricos declarando que haveria imprudência em arriscar o vapor em uma viagem no oceano.

Frustrada a estratégia, voltou à companhia requerendo que se discriminassem os quesitos que tinham servido de base ao juízo da comissão; ao que, como era de seu dever, deferiu o ministro. Eis quanto pela marinha se fez negócio; o mais pertence ao ministério das Obras Públicas.

A meu ver, fora melhor ter-se negado à companhia permissão para fazer seguir semelhante vapor aos portos do norte; porém, como foi ela limitada pela proibição de conduzir passageiros, acautelando-se por essa forma a segurança do público, qualquer desastre superveniente apenas alcançará a tripulação e companhias de seguro, que só terão o direito de queixar-se de sua imprudência, visto que perfeitamente conhecem os riscos que vão correr.

Não posso, todavia deixar de notar que a companhia, anunciando a saída do Joinville, calasse tão importante circunstância!

Dadas estas explicações, consentirás que te faça um pedido.

Acredita-me, amigo, abre mão de pequenas polêmicas de que não poderás tirar glória, não malbarates em pouquidades o talento que Deus te concedeu; volta-te para os grandes interesses do país, disseca as profundas chagas que corroem o nosso corpo social, põea descoberto a podridão desses cancros que, sob o nome de companhias, absorvem o melhor dos nossos recursos; e protesto-te que nesse terreno, não tendo forças para acompanhar-te, pelo menos te aplaudirá o sincero amigo.

Machado de Assis.

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