Comentários da semana - 7 DE JANEIRO DE 1862

O que é o público — Guerra da Inglaterra e Estados Unidos — O publicista dos comunicados — A pedra fundamental e o “Correio da Tarde” — O Sr. Candido Borges.

Bem se podia comparar o público àquela serpente — deus dos antigos mexicanos — que, depois de devorar um alentado mamífero, prostra-se até que a ação digestiva lhe tenha esvaziado o estômago; então o flagelo das matas corre em busca de novo repasto, emborca novo animal pela garganta abaixo e cai em nova e profunda modorra de digestão.

Esquisita que pareça a comparação, o público é assim. Precisa de uma novidade e de uma grande novidade; quando lhe aparece alguma, digere-a com placidez e calma, até que desfeita ela, outra lhe fica ao alcance e lhe satisfaz a necessidade imperiosa.

Como o réptil monstro de que falei, o público não se contenta com os manjares simples e as quantidades exíguas; é-lhe preciso bom e farto mantimento. Nada de notável havia ocorrido ultimamente que satisfizesse esta boa coletiva que tudo devora. Os comunicantes do Jornal do Comércio é que faziam as despesas da curiosidade pública; mas facilmente se compreende quanto isso era mesquinho para ocorrer às necessidades daquele estômago voraz.

O paquete trouxe com que dar que fazer ao espírito público: a notícia de uma guerra iminente, entre duas grandes potências, caiu como uma bomba no meio das nossas inocentes e ligeiras preocupações.

Era uma notícia cheia, como se quer: uma guerra homérica que fará acordar os tritões adormecidos nas suas cavernas seculares, desde os últimos poetas das Arcádias. Nem mais nem menos. Dois rivais em face; dois dragões marinhos, que, depois de haverem refeito as forças, cada um na sua região, se encontram afinal, no meio do oceano, para uma luta de morte. Há assunto para inspirar as liras dos Homeros.

Compreende-se bem que, com uma nova destas, o público deixaria de parte os ligeiros entremets que a nossa política lhe oferecia. Haverá guerra? Não haverá guerra? Eis a preocupação geral; as conseqüências da luta, a gravidade dos fatos, o exame do direito, tudo isso dá que fazer ao espírito público.

Parece que os arautos políticos da parte não oficial do Jornal do Comércio compreenderam bem a situação, porque, desde então, nenhum mais apareceu no posto do costume.

Um dia antes Scoevola havia começado uma série de artigos sobre o casamento da princesa imperial, prometendo discorrer para diante, acerca da conveniência de diversos partidos de casamento, que possam oferecer à herdeira da coroa brasileira. Até agora, nada.

Pois é pena! Estava divertido com os seus protestos de queimar a mão, e com as mesuras repetidas que fazia diante do augusto assunto de que tratava. A mim, se me afigurou ver o cabeçalho de um Manual de civilidade cortesã.

Valha-os Deus! Nisto primam eles, e a fé que não é mérito pequeno. Já não é pouco saber um homem como se há de haver nestas contingências e cortesias obrigadas. Pelo menos não se corre o risco daquele fidalgo da sociedade beata de D. João V, de que fala um romance biográfico, o qual perdera muito conceito dos seus, por ter dado a toalha, em vez das galhetas, ao oficiante a quem servia de acólito.

Esperemos, entretanto, pelo final do discurso de Scoevola, que, como o de Tarquínio, na comédia portuguesa, - Roma exige e tem de ser litografado.

Efetuou-se no dia 1.º o lançamento da pedra fundamental no baseamento da estátua do primeiro imperador. O Rocio nesse dia esteve de gala. A cerimônia correu como estava no programa.

As folhas desse dia tinham feito uma apreciação retrospectiva dos acontecimentos políticos do ano, cujas conclusões eram muito desfavoráveis ao partido político que mantém, há alguns anos, uma ordem de coisas contrária à essência do sistema que nos rege.

Não convinha que esse juízo rude, mas sincero, fosse para a caixa de cedro do pedestal, sem um conveniente tempero. Encarregou-se o Correio da Tarde da obra.

Apareceu como nota festiva no meio do coro lúgubre da imprensa. Como as vítimas indianas, queria ser inhumado radiante de plumas e miçangas. Estava realmente vistoso. Nada esqueceu; biografou os ministros, fez rápida estatística do que há hoje de mais notável, sem esquecer os principais advogados do foro.

O Correio da Tarde embalou-se na idéia de que há de ser aquela arca santa do arcediago de Notre-Dame, capaz de revelar, depois de um cataclisma universal, a idéia do mundo velho, à humanidade que sobre as ruínas deste aparecer.

Para o Correio da Tarde tudo neste país vai bem, menos a oposição. Os ministros são feitos por um só molde que se perdeu, sendo de notar que possuem as mesmas virtudes que naturalmente o Correio da Tarde há de encontrar-nos que hão de vir.

É um paladar como há poucos. A posteridade o apreciará.

Cai-me agora debaixo dos olhos o expediente do ministério do Império, publicado ontem na folha oficial.

Vejo ali que o respectivo ministro oficia ao seu colega da Fazenda, declarando que o conselheiro Candido Borges Monteiro, jubilado em uma das cadeiras da faculdade de medicina desta cidade, tem direito ao ordenado por inteiro, por ter mais de 25 anos de serviço efetivo.

Parece estranho isto. A que vem esta declaração? Deve-se supor que se pôs dúvida em fazer efetiva a determinação dos respectivos estatutos. Não consta, porém, que o tesouro caísse em equívoco aritmético.

Onde está a chave deste enigma?

Uma declaração mais franca e mais sincera teria obstado a propagação de certos boatos que não fazem a apologia do governo.

Deus ponha longe de meu espírito a idéia de crer em tais coisas, mas o vulgo quer os pontos nos ii.

Não falta quem dê à língua e diga que o lente, a que se refere o ofício do Sr. Ministro do Império, tendo sido aposentado antes da abertura das câmaras, não completou os 25 anos, que só se terminaram depois de fechado o parlamento.

Como não podia acumular os dois lugares, lente e senador, é ainda o boato que fala, julgou-se que se satisfazia o direito e a conveniência antecipando-se a jubilação.

Vê o governo quanto isto tem de grave? Em resumo o lente acumulou.

O boato é um ente invisível e impalpável, que fala como um homem está em toda a parte e em nenhuma, que ninguém vê onde surge, nem onde se esconde, que traz consigo a célebre lanterna dos contos arábicos, a favor da qual se avantaja em poder e prestígio, a tudo o que é prestigioso e poderoso.

Trate o governo de desfazer as suspeitas do boato, restabelecendo a verdade.

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