Comentários da semana - 5 DE MAIO DE 1862

Cavaco – o que vai a câmara fazer? – Uns versos.

Era um dia ...

Não vou bem. Este exórdio dá ares de história de criança, dessas que eu ouvia à ama, nos tempos que lá vão, quando não me lembrava de fazer comentários, e nem de ser lido pelos leitores do Diário, no pressuposto de que sou lido.

O que queria dizer, e que tão mal encabecei, era que havia há tempos uma revista semanal que eu publicava mais ou menos regularmente, comentando inocentemente as ocorrências notáveis de cada semana.

Motivo que não entram no domínio do público interromperam por longas semanas a publicação dos Comentários que de novo tomo e por cuja regularidade respondo.

Não será por falta de matéria que eu deixe de comunicar todas as segundas-feiras ao meu leitor a opinião que formar acerca das ocorrências da semana anterior.

Abrangendo o escrito, por sua natureza, muitos fatos e muitas esferas, à política cabe a parte principal, atenta à gravidade da situação e das questões a ventilar.

Em um país onde as censuras da imprensa oposicionista se respondem com a personalidade, não é por certo fora das câmaras que a vida política se pode manifestar. Mas as câmaras se abriram. O país por meio de seus órgãos vai perguntar ao governo o que há feito na ausência do corpo legislativo, de que questões tratou, que problema resolveu, se tem planos financeiros estudados e formulados; até onde lança as suas vistas políticas e administrativas.

Por sua vez o corpo legislativo é chamado a contribuir por si para que se defina esta situação confusa, marasmática, sem cor, nem alcance.

Este trabalho é longo e pede o concurso do patriotismo. É questão de ser ou não ser. Cabe às câmaras provar que o gabinete por inepto não pôde continuar na gerência do país, e que não é para fazer um regulamento de condecorações e outras ridicularidades que se põem sete homens a testa da governança de um império.

Não é assim de um assalto que se tomam graves e importantes funções. A glória tem seus percalços e é preciso ganhá-la à custa de vigílias e estudos, e não (passem-me pela frase que é de boa laia e adequada) e não à barba longa.

Se o exame do corpo legislativo não for profundo e patriótico, renunciemos à esperança de termos um país e um governo, porque com ministérios tais, não há país que prospere, nem situação que resista.

É diante de tais deveres, mais urgentes agora, que o corpo legislativo se abriu.

Isto quanto à parte política, e como vê o meu leitor, é vasto e farto o campo, se for olhado do seu verdadeiro ponto de vista.

Não falta onde se vá buscar matéria para comentário, e além das ocorrências acidentais e imprevistas, há muito onde ceifar à larga, se me permitem esta expressão roída pelo uso.

Estas linhas que aí deixo não deviam vir encabeçadas pelo título que lhes pus, porque na realidade de nada da semana me ocupo. Isto é uma espécie de prefácio, uma como oração de romeiro que se dispõe a atravessar o deserto depois de uma estação.

Alá me seja propício e arrede da minha cabeça e da minha caravana os flagelos do tempo e o encontro dos beduínos.

Ponho fecho a estas linhas com a transcrição de uma carta e de uma poesia que me enviou um cultor das musas:

“Meu amigo, — Abandonado no caminho da vida com o coração vazio das louras crenças que nos povoam a alma, quando o céu é para nós todo de um azul sem nuvens e o horizonte dessa cor de rosa de que vestimos todas as aspirações do espírito, apraz-me ás vezes em trazer à memória os dias do meu passado, desse passado que vi cair na imensidão do nada, como essas centelhas de luz que morrem na escuridão das trevas.

“E' triste este viver assim, quando ainda em meia vida, o espírito cansado se volve ao passado procurando embeber-se dele, porque o futuro está morto, ou pelo menos despido de todas as ilusões da juventude!”

Em um desses momentos atirei sobre o papel estas linhas que te envio . . .

Ei-las

Amei na aurora da vida,

E morro da vida em flor,

É sempre assim a existência:

Ao riso sucede a dor.

Desfolhei rosas sem conta,

Perfumes mil respirei;

E nessa luta de afetos

Nem um sincero encontrei

Minha alma descreu de tudo,

Dos sonhos de que viveu,

Centelha de luz perdida,

Suspiro que além morreu!

Bethencout da Silva.

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