Comentários da semana - 29 DE DEZEMBRO DE 1861

Créditos extraordinários – Scoevola – O Sr. Penna em missão – Cinna – O ano novo.

Houve ontem muito quem se admirasse ao ler, na folha oficial, o decreto abrindo um crédito suplementar de setecentos e tantos contos ao Ministério da Fazenda.

Isso prova que a boa fé patriarcal ainda conta neste mundo, raros e preciosos exemplos.

Admirar-se de que, façam favor? É coisa de admirar que o governo brasileiro abra créditos extraordinários?

Deu-se, é verdade, um fato. Fould, o ministro das finanças de Luiz Napoleão, acabava de condenar esse sistema de créditos suplementares, achando neles a origem da crise por que passa atualmente a França.

Este fato fez com que o imperador Napoleão declinasse de si a prerrogativa que lhe havia concedido o ato de 1851.

A imprensa fluminense, apreciando essas coisas, estranhou com razão que um país constitucional, como o nosso, andasse inteiramente ao avesso do que se acabava de praticar em um país onde a liberdade não existe.

O tom moderno da apreciando da imprensa não pôde disfarçar o contraste que resultava do paralelo.

O governo devia sentir-se tocado, pelo acúleo da consciência, e ver que, de fato, a situação desgraçada a que chegamos procedia também das despesas inúteis a que havia ocorrido com os créditos suplementares.

Se a causa da doença era a mesma, idêntico devia ser o remédio.

Contava-se, portanto, que o governo ia estudar mais profundamente a situação e as necessidades, e que não apelaria para os créditos suplementares, tão de fresco condenados, por um governo que nada tem de simpático ás constituições, e que procedeu como não procedem aos governos constitucionais.

Contava-se mal. E a prova é que, ou por convicção da necessidade do crédito ou por pirraça (expressão novissimamente introduzida no vocabulário político pelo Sr.Sergio), apareceu ontem, na folha oficial, um decreto abrindo um crédito extraordinário de setecentos contos.

Quereria o governo com o seu ato contrariar o memorial Fould, fazendo crer que nos créditos suplementares é que está o ideal financeiro, e que só neles repousam a paz pública e a felicidade nacional?

Aqui hão de me perdoar. De um ato do nosso governo só a China poderá tirar lição. Não é desprezo pelo que é nosso não é desdém pelo meu país. O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco. A sátira de Swiftnas suas engenhosas viagens cabe-nos perfeitamente. No que diz respeito à política, nada temos a invejar ao reino de Liliput.

Scoevola, que é hoje o compadre indiscreto, anda fazendo revelações dignas de toda a consideração do país.

É preciso notar que este valente romano mora modestamente nos “A pedidos” já sem aquela gala do entrelinhado, que lhe dava ares de filho direto do Olimpo.

Com esta aparência continua ele a protestar que as suas opiniões não partem de origem oficial.

A revelação de ontem é de peso.

Trata-se de uma missão diplomática, confiada em segredo, entre outras incumbências, ao Sr. conselheiro Penna, que partiu para Mato-Grosso, província que vai presidir.

A missão é conversar com o presidente Lopez, e também tocar em Montevidéu, Buenos Aires e Rosário, para refrescar e ver terra.

O Scoevola pergunta se é verdade isso. A filiação íntima que o herói romano tem com os páter-famílias dá o direito de responder afirmativamente.

Aqui temos, portanto, o Sr. Conselheiro Penna estreado na diplomacia, bossa que até aqui não se lhe havia descoberto, e que o governo, que é capaz de descobrir palpitações em um defunto, acaba de apresentar aos olhos do país.

Há certas fortunas políticas de nossa terra que não têm explicação. A do Sr. Conselheiro Penna é uma delas.

S. Excia. pertence a parte medíocre do senado, onde tem mostrado que é um dos poucos capazes de desbancar o Sr. Ministro do Império, e tirar-lhe as honras de vulgaridade, a que aliás tem um título incontestável, e incontestado, exceção feita do Correio da Tarde e da consciência de S. Excia.

Homem de minúcias e observações limitadas sobre um ou outro ponto ínfimo, S. Ex. estará tão bem em uma secretaria quanto se acha mal na grave curul de pai de pátria.

No senado, sempre esteve alistado na milícia que tem por ofício esmerilhar a conveniência da expressão, o cabimento da vírgula, a necessidade do período. As naturalizações de estrangeiros, a criação de paróquias, a concessão de loterias, eram o seu forte. A apreciação moral das leis, o exame filosófico dos atos do parlamento, a avaliação política dos atos do governo, nada disso existiu nunca para S. Excia.

Entretanto, a fada política do Sr. Penna tem sido constante em protegê-lo , e como que vive da mediocridade do afilhado.

Conta Hoffmann de um anão que, protegido por uma fada que se compadecera dele, elevou-se às mais altas posições do Estado.

Cinabre, era seu nome, recebeu de sua madrinha a faculdade de fazer passar as suas inconveniências e defeitos físicos e morais para os outros, recebendo dos outros, todas as boas qualidades, já do corpo, já do espírito. Graças a esta troca obtinha tudo e não havia concorrência com ele.

Não creio que a fortuna do presidente de Mato Grosso provenha deste milagre; mas, a julgar pelas aparências, faz crer que é assim.

Seja como seja, as palavras de Scoevola merecem toda a confiança, e é certo que temos um diplomata de mais.

Este incidente da conversa com o presidente Lopez tira-me o prazer de ocupar-me um pouco com o Scoevola, a respeito do interesse que S. S. está tomando pela sorte das repúblicas vizinhas, tornando-se até procurador das Altezas em disponibilidade.

Outros tratarão melhor do que eu.

Passemos a outra coisa.

Representou-se quinta-feira, no teatro de São Pedro, a tragédia Cinna, de Corneille.

A tradução é do Sr. Dr. Antonio José de Araújo. Pareceu-me, tanto quanto pude ouvir na primeira representação, um trabalho cuidado e feliz. E, bem que o emprego de versos agudos traga algumas vezes a desarmonia e o enfraquecimento à poesia, há trechos de um completo acabado, já na harmonia poética, já na fidelidade da tradução.

O Sr. João Caetano, no desempenho do papel de Augusto, deu mostra dos melhores dias do seu talento. O seu gesto foi sóbrio e adequado, a sua declamação justa e grave.

Esta justeza da declamação não teve a Sra. Ludovina no papel de Emília. Se acompanhasse com a declamação o seu gesto, sempre nobre e acadêmico, teria satisfeito às exigências do papel.

Os outros papéis couberam a diversos artistas; ao sair do teatro, depois da representação, trouxe um pesar na alma: lamentei queCorneille não se tivesse conservado a advogar na sua província, sem se lembrar de escrever tragédias.

O porquê, direi depois.

No mesmo teatro representa-se hoje um drama novo de autor nacional, intitulado Os grandes da época ou A febre eleitoral.

Devo despedir-me dos leitores até para o ano. O de 1861 está a retirar-se, e o de 1862 bate à porta.

Como todo ano novo, este antolha-se rico de esperanças, com uma cornucópia inesgotável de felicidades.

Como todo o ano velho, o de 1861 desaparece coberto de maldições.

Poupo a humanidade umas apreciações satíricas que vinham muitas a propósito nesta ocasião.

Quero antes acompanhar os desejos gerais, e crer que o ano novo há de ser melhor que o de 1861, e a fé que acharei razão para dizê-lo.

Em sinal de regozijo pela chegada do ano novo, aconselho aos pais, aos maridos, e. . . aos namorados, um passeio pela rua do Ouvidor, onde encontrarão nos mostradores dos armazéns com que presentear as respectivas metades de suas almas.

Não incorram naquele crime, crime sim, do avarento, de que reza este epitáfio:

Ci-gist, sous ce marbre blanc

Le plus avare homme de Rennes

Que trépassa le jour de l’an

De peur de donner des étrennes.

Comprar por um presente, neste dia especial, o silêncio dos satirizadores deste mundo, creia-me, ó pais de família, é a mais barata das permutas deste mundo.

Entretanto, a uns e a outros, presenteados e presenteadores, desejo de coração felicíssimas estréias e vida, para nos vermos no fim do que vai entrar, eu aqui, a comentar a semana, e vós, leitores, a dar-me um pouco da vossa atenção.

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