Comentários da semana - 26 DE JANEIRO DE 1862

Retificação do título – Encerramento da exposição – Poetas e utopias – Morte do Príncipe Alberto – Morte do duque de Beja– O badalo da igreja – Petição do sacristão – De Ladrão a Barão, drama.

Começo retificando: devia dizer comentários da quinzena e não da semana. Com efeito, pela primeira vez em minha vida de cronista deixei passar uma semana sem vir dar aos leitores a minha opinião acerca das ocorrências dela.

Razões que não podem ser devassadas, e que me tocam particularmente, ocasionaram esta falta de dever. Como na peça poética deElmano, se o canto não vale, valha pelo menos a desculpa.

A sinalefa não deixou de trazer um lado conveniente, e foi que, se, como costumo, tivesse vindo no prazo competente comentar e apreciar a semana que findou, com bem pouco teria de me haver.

A semana passada foi das mais fartas em notícias. Encerrou-se a exposição nacional, mas este fato passou tão despercebido, tão em família, que nada deixava a dizer a respeito. O que havia dizer, nos limites estreitos da crônica, já o disse em outra ocasião.

Caberia aqui exortar o tribunal julgador dos objetos apresentados à bem cumprir o seu dever, tendo principalmente em vista os interesses e o crédito do país? Seria isto antepor uma dúvida, que o conhecimento pessoal de alguns jurados não me consente, e que o crédito da totalidade deles tornaria intempestiva.

Tenho para mim que esta primeira participação séria que o Brasil toma na festa industrial de Londres é de alcance elevado, e suponho que, como eu, estarão todos convictos disso.

Também estou certo que, se tempo houvesse, se faria uma exposição da escolha dos objetos enviados a Londres, de forma a dar a conhecer ao público, e de um modo patente, os serviços do júri.

Infelizmente. Tão apressada foi esta primeira exposição, tão tarde se lembrou o Sr. Penna de propor aquilo que já o Sr. Ministro da Agricultura trazia no interior, que não se podia exigir mais do que foi feito.

Sem dúvida, nas exposições posteriores, das quais uma deve efetuar-se, ao que me parece, antes da universal de Paris em 1865, o governo porá mais cuidado em que nada seja esquecido, para que melhor se alcance o fim destas reuniões anuais de produtos e forças do país.

Uma coisa ficou patente com esta primeira exposição, é que as idéias mudam de natureza com as pessoas e com os tempos. A mesma idéia que agora se realizou, proposta pelo Sr. Dr. Macedo na assembléia provincial, há anos, foi tida por utopia, e granjeou ao digno deputado o nome de poeta. Com o Sr. Penna mudaram as coisas; a utilidade prática da proposta foi reconhecida, e ninguém se lembrou de castigar aquele senador com chascos afrontosos.

Também o que faltava era admitir a hipótese de um consórcio entre poesia e o Sr. Penna, coisas que, na ordem moral, representam aqueles dois pontos que, na ciência humana, são chamados – eixos do mundo.

Ainda bem que a idéia enunciada por um patriota sincero, e só poeta daquela poesia que não pode ser compreendida pelas mediocridades prosaicas que o cercavam, acaba de ser posta em prática de um modo que mostrou bem a sua realidade.

Além deste fato, outro se deu, de que me ocuparei mais adiante, e que pertence especialmente à ordem literária.

O paquete da Europa, que aqui chegou à semana passada, trouxe a notícia da morte de dois príncipes: o príncipe Alberto, de Inglaterra e o infante D. João, de Portugal.

Tinham ambos a estima sincera do seu país. O primeiro, na posição difícil em que se achava, e que Edmond Texier não hesita em chamar quase ridícula, soube conquistar essa estima pela iniciativa tomada nos progressos materiais e morais do Reino Unido, e pela solicitude e vigilância com que sempre se houve ao pé da rainha, sua esposa, a bem de amparar o sistema constitucional que faz a primeira força do povo inglês.

Dava arras do seu amor pelo país até este ponto: “Se os povos, diz Edmond Texier, gostam do licor açucarado da lisonja, também os reis não deixam de dá-lo a beber. Uma manhã de inverno, com um frio de doze graus, um capitão que acabava de jogar e perder a capa, foi encontrado em Newski pelo czar Nicolau: — Por que não trazes a tua capa? — Senhor, porque não faz frio nos Estados de Vossa Majestade. — O imperador lisonjeado passou sem insistir. Tinha encontrado um homem que não acreditava no inverno russo. Também o príncipe Alberto respondia com as suas calças brancas à calúnia propagada pelos estrangeiros contra o clima da velha Inglaterra”.

A morte do príncipe consorte foi sentida e chorada com sinceridade. A Inglaterra compreendeu que havia perdido um amigo, e como tal o pranteou.

Não menos sentida foi a morte do duque de Beja. Somente, a nação portuguesa acabava de prantear a morte de dois príncipes, um deles seu chefe político, e a sucessão dos casos tristes, trazendo ao espírito suspeito do povo umas desconfianças infundadas, posto que sinceras, de tal sorte o havia abatido, que a dor foi mais automática que estrepitosa, mais íntima do que pública.

Tais foram os fatos de que mais se ocupou o espírito público durante a semana finda.

Transtornarei a ordem cronológica dos fatos e tomarei agora um que, de fresco, acaba de ser comunicado à curiosidade pública.

Quero falar da portaria do Sr. Presidente da província do Rio de Janeiro a certo vigário, resolvendo umas dúvidas suscitadas por um sino sem badalo.

Na dúvida de quem havia de tanger o sino a recolher, S. Excia. tomou o partido de incumbir isso ao sacristão ou a outro qualquer empregado da igreja.

Para os que não leram o aviso a que aludo, poderá parecer isto invenção minha, com o intuito de criar um novo plano de Hyssope, e assim inspirar as liras cômicas dos Boileaus e dos Dinizes. Protesto contra uma tal suspeita. O fato é real. Parece questão idêntica a que trouxe muito tempo separados o bispo e o deão da igreja d’Elvas, é verdade; mas com isso o que tenho eu, e o que tem a imprensa?

Algum observador aparentado com Demócrito poderá achar razão nestas bernardices administrativas, invocando o princípio dos contrapesos e das compensações, e assim dizer que em país tão grande, territorialmente falando, como este, é bem que a direção das coisas públicas apresente este aspecto de ninharias e ridiculidades, a fim de estabelecer o alto e malo das coisas humanas . . .

Deixo aos filósofos a discussão deste dito.

E pondo de parte a apreciação do aviso inserirei aqui a petição que me foi comunicada, e que, segundo me afirmam, foi ou vai ser dirigida pelo sacristão da paróquia ao Sr. Ministro do Império.

Vejam os leitores as razões dadas pelo peticionário:

Consinta Vossa Excelência

Que a boca de um sacristão,

Com aquela reverência

Devida à alta função

De uma sagrada eminência,

Exponha um arrazoado

Contra o aviso recente

Da inteligência emanado

Do mais sério presidente

Que ainda foi nomeado.

Senhor, este caso é novo;

Faz dar voltas ao juízo;

Nem há memória entre o povo;

De modo que é este aviso

Menos aviso que um ovo.

Presume Sua Excelência

Que, por dar bem ao badalo

No sino da presidência,

Hei de eu agora imitá-lo

Ermo da mesma ciência?

E quer, ajudando o fado

Na minha tribulação,

Tornar-me mais onerado

Fazendo de um sacristão

Um sineiro despachado?

E hei de eu, deixando o leito,

O leite doce e macio,

A que me acho tão afeito,

Ir apanhar ao ar frio

Uma doença de peito?

E se um dia, ainda tonto,

Deixando o fofo colchão,

As horas erradas conto,

E vou bater o aragão,

Já à meio-noite em ponto?

Ah! Se ao menos um badalo

Tivesse o citado sino,

Então cantara outro galo!

O fado, menos mofino,

Não me dera tanto abalo!

Por certos meios arteiros,

De maior ou menor fama,

Satisfaria os parceiros;

E sem tirar-me da cama,

Fora o melhor dos sineiros.

Uma cordinha bastava,

Presa ao badalo em questão,

E a ponta que lhe ficava

Tê-la-ia em minha mão,

E tudo se conciliava.

E um dia, se Deus clemente

Permitisse à freguesia,

À vista do presidente,

Como um pouco de água fria

A sequioso doente;

Unido ao prazer geral,

Livre já do antigo abalo,

À entrada triunfal

Iria dar ao badalo

Um repique original.

Seria prêmio mofino

Do mais pobre dos bedéis

Ao funcionário ladino

Que no código das leis

Abriu capítulo ao sino!

Nem seria a mão da inveja

Que havia de despojá-lo

Da glória que tê-lo almeja,

E que há de enfim proclamá-lo

Sólon de torre de igreja.

Mas para isso, Excelência,

Para tal apoteose,

Carecia a presidência

Gastar uma nova dose

De estudo e de paciência.

Então, deixando aos vulgares

Os sediços monumentos,

Cortando por novos mares,

Teriam os seus portentos

Novos, melhores altares.

Coisa seria imponente,

Capaz de matar a inveja,

Poder contemplar a gente

Em cada sino da igreja

A efígie do presidente.

E, se a mente não erra,

Mostraria a presidência,

(Que tanta beleza encerra)

Que, além de Vossa Excelência,

Ainda há mais gente na terra

***

Passarei agora a coisas sérias.

Um novo drama nacional foi levado à cena no teatro Ginásio. O autor, o Sr. Álvares de Araújo, é um estreante, cuja inteligência se dirigiu sempre a outra ordem de aplicação, e que acaba de entrar no teatro aos aplausos dos amigos da arte e da literatura dramática.

A crítica com os estreantes deve empregar uma solicitude materna, mostrar-lhe o mau e o bom caminho, ensinar-lhe a evitar os precipícios e a alcançar o alvo a que todas as inteligências se dirigem; isto para com o poeta. Para com o público, serve ela de intérprete da idéia do poeta, defensora mesmo da sua composição, a fim de animá-lo a tomar vôo mais seguro. Deve ser amiga e, segundo diz Chateaubriand, empregar mais o louvor que a censura.

Se este último conceito se dá para a crítica destinada a construir com o poeta o edifício da sua reputação, até poder um dia, desligando-se dele, ir tomar lugar entre os espectadores e pedir-lhe conta das suas lições, é ainda o dever da crônica, cujas atribuições se estreitam na menção das obras, e na manifestação da impressão recebida.

Ora, só deixam impressão, mais ou menos viva, aquelas obras, que, encerrando alguma coisa, recomendam-se por não espúrias, senão legítimas filhas do talento.

De Ladrão a Barão, repousando sobre uma tese, usada já, qual a de origem criminosa de muita fidalguia empavesada, revela primeiro que tudo a indignação expansiva de uma consciência diante da corrupção social. Antes do poeta mostra-se o homem, antes do talento o caráter.

A tese não é nova, disse eu. Assim é. Não é novo no teatro remontar à origem das fortunas e dos pergaminhos para encontrar os meios reprovados das dilapidações forçadas e escandalosas. Mas a insistência dos poetas em tratarem do assunto é tanto mais necessária quanto à sociedade precisa mais e mais dessas correções vivas e constantes.

Todavia, escolhendo tal assunto, o Sr.Álvares de Araújo criou-se uma dificuldade. Como haver-se com ela, logo da primeira vez que entrava em terra nova? Mediu o esforço pelo dever do combate e atirou-se ao campo.

Venceu a dificuldade? Venceu e não venceu. Saiu-se bem no plano geral da peça, mas nos detalhes a sua mão acusa a inexperiência de primeiro trabalho; as suas figuras, exceto a do protagonista, que acho vigorosa, todas as mais revelam frouxidão e incerteza.

A energia máscula de Elvira dá-se mais a conhecer por tradição que por exibição. E, entretanto, que belo pensamento não foi o do poeta, dando à mulher o exemplo do castigo dos maus, e que bela criação, toda ideal embora, não ficaria, com mais algum cuidado, aquela figura imponente de mulher.

Gustavo Pereira foi o papel mais cuidado da peça, e era natural que assim fosse. É comum a todos os que estréiam, tendo personificado a sua idéia em uma personagem, concentrar todo o esforço e trabalho nessa figura principal, de modo a empalidecer as outras que vão entrelaçadas na ação.

O Sr. Álvares de Araújo estreou bem. Os aplausos que o receberam devem servir-lhe de animação. Se lhe faltam as qualidades próprias da experiência e do tempo, sobram-lhe outras, as principais, as que nascem da intuição, e que são, por assim dizer, o óbulo e a benção que a musa dá ao poeta, para começar a sua romaria.

Deu este drama lugar a que aparece um ator que, até aqui, além do papel de escrivão na Torre em concurso, não se havia podido revelar.

Falo do Sr. Flávio, a quem coube o papel de André, uma das vítimas do ladrão-barão. Representou de modo a receber merecidos aplausos.

O Sr. Joaquim Augusto tem desempenhado com relevo o papel de Gustavo Pereira, hipócrita brutal.

O papel de Elvira coube a Sra. Gabriela, cujo elevado e vigoroso talento sabe dar-lhe brilho e realce; no quarto ato, principalmente, tem merecido vivos aplausos.

O papel do nobre e sincero Emilio da Veiga deve ao Sr. Amoedo apropriada interpretação.

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