Comentários da semana - 25 DE NOVEMBRO DE 1861

Paula Brito – Questão diplomática – Palinódia do ministério -O Sr.Ministro do Império e a “Gazeta da Tarde” – Os homens sérios; reentrada da artista Gabriela – Partida da companhia francesa – o Sr. Macedo Soares – Colégio da Imaculada Conceição.

Mais um! Este ano há de ser contado como um obituário ilustre, onde todos, o amigo e o cidadão, podem ver inscritos mais de um nome caro ao coração e ao espírito.

Longa é a lista dos que no espaço desses doze meses que estão a expirar, tem caído ao abraço tremendo daquela leviana, que não distingue os amantes, como diz o poeta.

Agora é um homem que, pelas suas virtudes sociais e políticas, por sua inteligência e amor ao trabalho, havia conseguido a estima geral.

Começou como impressor, como impressor morreu. Nesta modesta posição tinha em roda de si todas as simpatias.

Paula Brito foi um exemplo raro e bom. Tinha fé nas suas crenças políticas, acreditava sinceramente nos resultados da aplicação delas; tolerante, não fazia injustiça aos seus adversários; sincero, nunca transigiu com eles.

Era também amigo, era, sobretudo, amigo.

Amava a mocidade, porque sabia que ela é a esperança da pátria, e, porque a amava estendia-lhe quanto podia a sua proteção.

Em vez de morrer, deixando uma fortuna, que o podia, morreu pobre como vivera graças ao largo emprego que dava às suas rendas e ao sentimento generoso que o levava na divisão do que auferia do seu trabalho.

Nestes tempos de egoísmo e cálculo, deve-se chorar a perda de homens que, como Paula Brito, sobressaem na massa comum dos homens.

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Nas colunas do “Jornal do Comércio” continuam a aparecer os contendores da questão diplomática. “Scoevola”, depois de ter feito sacrifício da mão direita diante de Porsena, anda mostrando que é capaz ainda de outras coisas muito mais asseadas.

O que é divertido é ver perturbados o remanso e a paz da igreja de Elvas. No dize tu, direi eu, declarações de alta importância vieram à tona do debate, o que prova desconfianças, e eis que um novo personagem, com o seu próprio nome, aparece na discussão, a tomar contas aos indiscretos.

Não entra nas condições exíguas deste escrito, nem que entrasse, faria uma mais larga apreciação do debate a que aludo. Menciono apenas como obrigação, e para prevenir o leitor menos perspicaz de que a coisa vai tomar um aspecto mais importante do que até agora.

De política é isso o que oferece algum interesse; no mais, mar morto e calmaria podre.

Não deixarei de consignar mais uma palinódia do ministério, que pode chamar-se bem o ministério das palinódias. Já o Sr. Manuel Felizardo cantou uma na questão dos correios. Suprimiu umas tantas agências, e depois foi restabelecendo-as, já se sabe, com o aplauso dos beneficiados.

Dizia não sei que homem de Estado que é de boa política fazer o mal, porque depois toda a concessão é considerada um bem de valor real. Este preceito não foi mal compreendido pelo atual chefe da nação francesa, que depois de arrecadar todas as liberdades públicas, vai agora concedendo, hoje uma largueza à imprensa, amanhã, outra ao parlamento, e depois outra no sentido da autonomia provincial, e a cada pedaço que larga à nação faminta, esta aceita agradecida e tece louvores ao seu protetor.

Também por cá se dá o mesmo. Preceito tão salutar não podia deixar de ser observado neste país. Semelhante à dos correios, houve ultimamente uma do Sr. Ministro da Justiça, que acaba de restabelecer por um aviso as prisões que competem aos oficiais da guarda nacional.

Como sempre acontece, a reparação foi considerada um benefício extremo; a guarda nacional agradeceu ao ministério o seu ato, e choveram os louvores.

Isto provaria contra o país, se não fosse fato observado em outros países. Por conhecerem da eficácia do sistema, é que os políticos o empregam; lembremo-nos de que, já na Antigüidade, Sócrates sentia prazer em começar a perna depois do arrocho.

A este respeito, os nossos ministros são de boa massa.

O Sr. Ministro do Império, esse, depois do longo e laborioso trabalho da parturição moral, relativamente ao regulamento das condecorações, ficou abatido; a crise foi tremenda; as conseqüências não podiam ser menos.Acha-se em convalescença; o pequeno está bom.

A propósito, lembro-me de uma gazeta que se publica nesta corte, ao bater das trindades, e que teve a bondade de ocupar-se de passagem com a minha humildade pessoa foi a propósito da apreciação dos meus últimos Comentários acerca do Sr. Ministro do Império.

Acha ela que o Sr. Ministro do Império, longe de ser vulgar na tribuna e no gabinete, é uma figura eminentíssima tanto neste como naquela ; acredite quem quiser na sinceridade da gazeta de lusco-fusco, eu não; sei bem que ela..ia escrevendo um verbo que ainda não adquiriu direito de cidade ; direi por outro modo : sei que ela faz a corte ao Sr. ministro. Está no seu direito; mas agora, querer encaracolar os cabelos de S. Excia. à minha custa, isto é que é um pouco duro.

Passemos leitor, ao teatro.

O Ginásio representou domingo um drama do repertório português, Os homens sérios, de Ernesto Biester, para reentrada da Sra. Gabriela da Cunha.

A reentrada de uma artista como a Sra. Gabriela não é um fato comum e sem valor; ocorre-me, portanto, o dever de mencioná-lo nesta revista.

O drama de Ernesto Biester é para mim uma composição de bom quilate. Bem travado e bem deduzido, interessa, comove, oferece lances bem preparados e cenas traçadas por mão hábil. Dos dramas que conheço deste autor é este o que se me afigura mais completo.

Desapareceram nos Homens sérios os defeitos que eu sempre achei no Rafael. Há na peça de que trato mais movimento que nesta última, e menos expansão da fibra lírica, que tornava o Rafael uma elegia, bem escrita é verdade, mas uma elegia, que não pode ser um drama.

Não menos pelo escritor se recomendam Os homens sérios; o estilo brilhante e conciso, o diálogo travado sem esforço, o epigrama fino, a frase sentimental, a expressão sentenciosa, cada coisa no seu lugar tudo a propósito, tais e outras belezas são atestadas que Ernesto Biester dá de seu talento, e que não podem ser recusados por falta de reconhecimento legal.

O papel de Amélia, a protagonista, é um belo, mas difícil papel: a Sra. Gabriela deu-lhe esse tom dramático que caracteriza as suas melhores criações.

Os que confiavam no seu talento (e não há duas opiniões a respeito) não se admiraram; aplaudiram e sabiam que haviam de aplaudir.

Não esqueceu o menor toque exigido pelo original do poeta; no 2.º e 4.º atos, principalmente, esteve brilhante.

Um poeta dizia que eram flores que a artista deitava à sua antiga platéia. Flores por flores, também o público as teve, e muitas para pagar as que lhe deu.

Se eu fizesse crítica de teatros, entraria em apreciação mais detida do desempenho. Mas não é assim. Só me cabe apontar muito de leve os fatos. O Sr. Joaquim Augusto acompanhou bem a Sra. Gabriela, no papel de Luiz Travassos, marido brutal no interior, e delicado e solícito em público. Estas duas figuras foram as principais. No papel da condessa a Sra. M. Fernanda fez progressos.

Devia responder agora aos dois artigos que, a respeito do Teatro, a concorrência e o governo, publicaram no Correio Mercantil o Sr. Macedo Soares é o verdadeiro nome das iniciais M. . S. , com que saiu o primeiro artigo.

Permitirá o meu ilustrado e talentoso contendor que eu fuja ao debate; por convicção de erro, não; por medo, fora possível, se eu atendesse só a minha inferioridade pessoal, e não à consideração de que estou no terreno da verdade.

Mas a que chegaremos nós? O Sr. Macedo Soares, nos seus dois últimos artigos, não pôde, apesar do seu talento e da sua ilustração, demonstrar que o teatro não escapa à lei econômica, que rege as corporações industriais; eu continuo convencido do contrário. E pelas condições deste escrito não me é dado estabelecer uma discussão sobre a matéria; com as minhas espaçadas aparições o debate seria fastidioso.

Tenho uma observação a fazer: quando eu disse que a opinião do Sr. Macedo Soares devia ser a última lembrada, se merecesse ser lembrada, não quis de modo algum exprimir um desdém, que tomaria as proporções do ridículo, partindo de mim para com o Sr. Macedo Soares.

Termino mencionando os belos resultados obtidos no colégio da Imaculada Conceição, do sexo feminino, em Botafogo. As meninas mostraram, perante o numeroso concurso que assistiu aos exames, um grande adiantamento mesmo raro, entre nós.

Folgo sempre de mencionar destas conquistas pacíficas da inteligência; são elas, hoje, os únicos proveitos para o presente e para futuro.

Fazer mães de família é encargo difícil; por isso também, quando há sucesso, compensam-se os espíritos.

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