Comentários da semana - 24 DE MARÇO DE 1862

O dia 25 de Março. — A revolução. — Toleima ou esperteza? — Os gansos. — Sá de Miranda. — A pólvora. — Publicações literárias. Biblioteca Brasileira e o Futuro. — Publicação política, o Jornal do Povo.

É amanhã a inauguração da memória do Rocio. É também amanhã o aniversário da proclamação da nossa carta política. Por ultimo, na opinião do ministério, é amanhã a realização de uma revolta popular, preparada pelos chefes liberais à bem de se apossarem do governo.

Nada direi do aniversário que festejamos, mesmo por não entrar na apreciação dos atos pecaminosos que hão desvirtuado o nosso código político. Não me autorizarei mesmo de uma circunstância que alguém notou, a de estar a figura do primeiro imperador, que hoje se há de descobrir, com a constituição estendida para o lado do teatro, querendo daí concluir o malévolo que o pacto fundamental é uma comédia.

Tão pouco me ocuparei com a estátua que se vai inaugurar.

Fora preciso recorrer aos fastos da história e cotejar atos e apreciações, talvez em detrimento de opinião aceita, e por mal das constituições públicas e solenes, que o sol da manhã vai presenciar.

Já não pratico assim com o boato da revolução. Devo investigar se o ministério com estas precauções que toma, e com estes boatos que assoalha, tende à parvoíce ou à esperteza. É difícil o problema. Existem ambos os elementos no gabinete, e decidir qual deles prepondera na questão, é um trabalho de minuciosa análise.

Por onde descobriria o ministério que o dia 25 seria ensangüentado pelos dentes do tigre popular? Onde encontrou sintomas denunciantes? Na imprensa? Não. Nunca ela foi mais moderada, nem mais sóbria no apontar os erros administrativos.

Nenhuma doutrina que cheire a subversão tem sido alardeada e proclamada nas folhas liberais. Nos clubes? Onde existem eles? Onde se reúnem? Ninguém os conhece. O ministério compreende bem que uma revolução, no sentido literal da palavra, pede o concurso da maioria, e que esse concurso não deve ser eventual e filho do momento.

Pouco depois das eleições o ministro do império do gabinete Ferraz exigiu mudança de política de reação, em vista da situação que, na opinião dele, tendia à anarquia. Esta exigência, que era simplesmente uma pose do ministro novato, tinha uma razão de ser; acabava-se de uma eleição altamente pleiteada, e o nobre ministro, depois do que havia presenciado, concluiu que o país estava fora dos eixos. Aproveitou a circunstância e quis fazer figura. E fez.

Hoje, porém, que a situação está calma, ou para me servir do vocabulário do Sr. Ministro da Marinha está em calmaria podre, será admissível, sem querer passar por tolo, a suspeita de uma revolução?

Não suponho que o ministério ande de boa fé nestes sustos e temores de revolução; creio em outros motivos menos inocentes, mas por ventura menos humilhantes.

Reza a história de uns gansos que salvaram por seus grasnos a integridade da cidade eterna. Também vigiam gansos o nosso Capitólio? Mas estes, cansados há tanto de espreitar, sem nada verem chegar, e querendo a todo custo dar testemunho de sua vigilância, gritam um belo dia por socorro e clamam pela salvação de Roma. Mas Roma está tranqüila, nenhum inimigo lhe assoma às portas; César dorme tranqüilo no afeto e na dedicação da cidade-rainha. Nada acontecerá, mas a suspeita pôde ficar para o futuro, e os gansos terão feito uns bonitos papéis.

Que tal? O meio é seguro para ganhar conceito em ânimos augustos. É assim que estes piolhos se metem pelas costuras. Mas os príncipes devem ser versados e sabedores das coisas passadas. Foi a respeito desses tais enliçadores que Sá de Miranda escreveu estes versos na sua carta a D. João III:

Senhor, hei-vos de falar

(Vossa mansidão me esforça)

Claro o que posso alcançar;

Andam para vos tomar

Por manhas, que não por força.

Alguns fatos poderiam demover-me da opinião em que estou de que o ministério quer provar amores assoalhando calculadas fantasias. Tal é, por exemplo, o da apreensão de alguns barris de pólvora em várias casas.

Mas a Atualidade explica a origem desta apreensão que tanto alarma causou, e com as quais quer o ministério afetar que descobriu os conspiradores. Foi apenas uma denúncia de proprietário incomodado pela vizinhança de fabricantes de fósforos.

Demais, fazem-se durante o ano tantas apreensões de pólvora, que estas não devem por modo merecer o mais leve reparo.

Insisto na minha apreciação; o ministério estéril, tacanho, ramerraneiro, como é, busca a confiança imperial na prevenção de revoltas imaginárias.

E o jogo é bonito e fino. Passando, como há de passar, o dia 25 sem demonstração alguma, é ao terror das medidas anteriormente tomadas que se atribuirá a tranqüilidade da festa.

Voltemos, porém, de rumo.

Deixemos de vez essas demências políticas que, por justo título, fazem do nosso país a fábula dos folhetinistas do resto do mundo.

Outra parte nos chama, amigo leitor, a da mocidade estudiosa, trabalhadeira, esperança de melhor futuro.

Pode dizer-se que o nosso movimento literário é dos mais insignificantes possíveis. Poucos livros se publicam e ainda menos se lêem. Aprecia-se muito a leitura superficial e palhenta, do mal travado e bem acidentado romance, mas não passa daí o pecúlio literário do povo.

É no meio desta situação que se anunciam duas publicações literárias: Biblioteca Brasileira, publicação mensal de um volume de literatura ou de ciência, de autores nacionais, e o Futuro, revista quinzenal e redigida por brasileiros e portugueses.

Vamos por partes. A Biblioteca é dirigida por uma associação de homens de letras. Tem por fim dar publicidade a todas as obras inéditas de autores nacionais e difundir por este modo a instrução literária que falta à máxima parte dos leitores.

Como se vê, serve ela a dois interesses: ao dos autores, a quem dá a mão, garantindo como base da publicação de suas obras uma circulação forçada; e ao do público, a quem dá, por módica retribuição, a posse de um bom livro cada mês.

Com tais bases, não há negar que entra nesta instituição de envolta com o sentimento literário muito sentimento patriótico. Em que pese aos que fazem limitar a pátria pelo horizonte das suas aspirações pessoais, é assim. E são destes serviços ao país que mais fecundam no futuro.

Esclarecer o espírito do povo de modo a fazer idéias e convicções disso que ainda lhe não passa de instintos, é, por assim dizer, formar o povo.

Do esforço individual e coletivo dos que se dão ao cultivo das letras é que nascerão esses resultados necessários. O piano daBiblioteca Brasileira, cômodo e simples, oferece um bom caminho para ir ter aos desejados fins, e é já um auxiliar valente de idéias que se põe em campo.

O Futuro, revista que aparecerá cada quinzena, é mais um laço de união entre a nação brasileira e a nação portuguesa. Muitas razões pedem esta intimidade entre dois povos, que, esquecendo passadas e fatais divergências, só podem, só devem ter um desejo, o de engrandecer a língua que falam, e que muitos engenhos têm honrado.

O Futuro, concebido sobre uma larga base, é uma publicação séria e porventura será duradoura. Tem elementos para isso. A natureza dos escritos que requer um folheto de trinta páginas, publicado cada quinzena, muitos dos nomes que se me diz farão parte da redação, entre os quais figura o do velho mestre Herculano, e a inteligência diretora e proprietária da publicação, o filho direto do autor do Bilhar, F. X. de Novaes, dão ao Futuro um caráter de viabilidade e duração.

Este abraço literário virá confirmar o abraço político das duas nações. Não é por certo no campo da inteligência que se devem consagrar essas divisões que são repelidas hoje.

Os destinos da língua portuguesa figuram-se brilhantes; não individuemos os esforços; o princípio social de que a união faz a força é também uma verdade nos domínios intelectuais e deve ser a divisa das duas literaturas.

Para 7 de abril anuncia-se a publicação de um jornal político que terá por titulo Jornal do Povo.

É redigido por dois talentos jovens, mas que já fizeram as suas primeiras armas nesta liça da imprensa. O Jornal do Povo não representa escola alguma, não acompanha princípios estatuídos de nenhuma parcialidade política. É simplesmente um jornal consagrado a doutrinar o povo e a pugnar pelos interesses dele.

Sendo assim o Jornal do Povo será logicamente conduzido a pôr-se ao lado liberal que corresponde imediatamente às aspirações populares.

E o concurso dele será tanto mais valioso quanto que não pode haver dúvida sobre as opiniões liberais de seus redatores.

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