Comentários da semana - 2 DE MARÇO DE 1862

Haabás, drama do Sr. R. A. de Oliveira Menezes. – Ensaios literários, do Sr. Ignácio de Azevedo. – Almanaque administrativo, mercantil e industrial, do Maranhão. – O terreno de Mendoza. Drama lírico do major Taunay. – O carnaval.

Tenho à vista dois livros oriundos da academia de São Paulo. A sua publicação não data da semana que findou ontem, mas data de poucos dias o conhecimento que tenho deles. Não me foi preciso demorada leitura para avaliá-los; de relance se lhes pôde ver a importância e o alcance, ainda mesmo quando não há fundo de erudição que dê a uma apoucada inteligência foral do juiz.

O Sr. Rodrigo Antonio de Oliveira Menezes escreveu um drama em um prólogo e dois atos que intitulou Haabás. É um livro tosco pela forma e brilhante pelo fundo; é uma bela idéia mal afeiçoada e mal enunciada, o que não tira ao livro certo mérito que é forçoso reconhecer!

Haabás é um escravo que mata o feitor em um desforço de honra por haver-lhe aquele seduzido a mulher. É perseguido por este motivo. Seu senhor é implacável. Haabás consegue escapar. Entretanto, apanha uma criança, fruto de amor criminoso de sua senhora moça, leva-a consigo fá-la educar, até entregá-la a seus pais vinte anos depois.

Tal é, em poucas palavras, a trama de Haabás. O autor fundou o seu drama sobre duas idéias, ou antes, sobre dois fatos: primeiro, a condição precária dos cativos; depois, a generosidade que pôde existir nessas almas, que Herculano diria atadas a cadáveres.

O intento foi nobre, e não lhe diminui o alcance moral a rusticidade da forma; mais cuidado e mais conhecimento das regras dramáticas, Haabás seria então uma bela realidade, não passando, como está, de uma generosa intenção.

A ação não se acha desenvolvida; a travação das cenas é irregular; estas parecem antes os trechos restantes de uma tradição, acumulados para base de uma obra que não foi escrita, e que a outro caberá desenvolver.

Por mim, quisera antes que o autor a desenvolvesse; que importa existir já esta tentativa? Tome o seu pensamento e trate de ampliá-lo; escreva um drama, ou mesmo um romance, sobre a larga base que desaproveitou com aquela frágil e acanhada construção.

O que lhe faltaria para isto? Linguagem, não; a de Haabás, se não é de pureza exemplar acusa raras qualidades que a prática desenvolverá.

E nessa nova composição apareceria de certo aquela 2.ª cena do 2.° ato, delicioso idílio, escrito com arte e espontânea suavidade. Nem faltariam expressões felizes, como muitas das que ornam as páginas desta tentativa.

Não creio que, no que levo dito, me pareça com o empertigado crítico que visitou o autor em sonhos, como ele conta espirituosamente no prólogo.

Uma coisa que ele não lhe reconheceu, e que eu julgo dever mencionar, tanto mais quanto se eu o não fizesse, Haabás encarregar-se-ia de fazê-lo, é que possui um belo talento e que poderá com vantagem aplicar-se ao teatro para honra da literatura nacional.

***

Passo agora aos Ensaios literários do Sr. Ignácio de Azevedo. O Sr. Ignácio de Azevedo é irmão daquele autor dos Boêmios e dePedro Ivo, cuja perda choramos ainda hoje.

É talvez a esta consangüinidade, além da assistência na academia, onde Álvares de Azevedo deixou imitadores, que se deve a cor sombria e fantástica que o autor procurou dar a quase todas as páginas deste livro.

O Sr. Ignácio de Azevedo é uma inteligência a formar-se; participa dos defeitos do que se chamou escola azevediana, sem todaviaempregar nos seus escritos os toques superiores que o estudo mais tarde lhe há de dar. As almas na eternidade é uma revista de espíritos, uma imprecação minuciosa de alcance secundário.

Os contos revelam imaginação, mas estão em alguns pontos descarnados de mais, e se o autor me permite individuar, lembro-lhe, entre outros exemplos, aquela página 98.

***

Com a imaginação e a inteligência que tem, o Sr. Ignácio de Azevedo deve procurar no estudo e na reflexão as qualidades indispensáveis de escritor, e estou certo que da vontade e do cabedal que possui nascerão obras de mais significação literária que osEnsaios.

Não riam as imaginações poéticas e as almas seráficas se passo a falar de um almanaque, e menos me acusem de lisonjear os utilitários. Em geral, um almanaque é um livro importante, mas este de que vou falar tem ainda outro valor; por isso descansem que não me ocuparei com a exatidão e divisão da estatística, nem com outras matérias próprias destas obras.

O almanaque administrativo, mercantil e industrial para 1862, do Maranhão, entra agora no seu 5.° ano.

Como é natural em obras de utilidade geral, a publicação vai tomando maiores e mais sérias proporções. Fecha-se o deste ano com alguns artigos relativos à lavoura e uma das brasilianas do Sr. Porto-alegre.

O primeiro daqueles artigos é uma página bem lançada, escrita com reflexão e proficiência, na qual se demonstra a necessidade de pôr termo à rotina que impede o desenvolvimento da agricultura. Aconselha o escritor aos lavradores que, em bem de tornar a lavoura outra coisa que não é, façam dar a seus filhos uma educação agrícola nas escolas européias. Enunciando este conselho, o escritor passa a examinar a conveniência oferecida por cada um dos países onde se podem ir buscar esses estudos, e decide-se pela escola de Grignon, na França, cujas condições oferecem mais vantagens e melhores esperanças de resultado.

Acompanham este artigo diversas transcrições relativas ao mesmo assunto, e por fim a brasiliana, do Sr. Porto-alegre, Destruição das matas. A raridade da edição das Brasilianas, e o grande mérito da composição do nosso épico, tornam mais importante a inserção destes versos no Almanaque do Maranhão.

***

Está ainda fresca na memória, pela proximidade do acontecimento, a terrível catástrofe que destruiu a cidade de Mendoza. Entre os que foram salvos do terremoto notam-se Mr. Teisseire e sua filha de quatro anos que se acham nesta capital. Mr. Teisseire era um antigo tenor de Paris que se havia estabelecido naquela cidade. A catástrofe sucedeu quando ele começava a construir uma pequena fortuna.

Veio esta menção para anunciar a publicação de um drama lírico fundado sobre o episódio da catástrofe relativo àquelas duas ressurreições e que traz o nome do major Taunay.

Esta composição é destinada a favorecer a Mr. Teisseire e sua filha, restos de uma família numerosa que pereceu na destruição deMendoza.

Esse é o seu principal mérito; a obra não é notável, mas o autor aproveitou nela o que podia aproveitar do fato a que aludiu.

E com isto deixo o leitor, que arderá por ir tomar parte na folgança destes três dias, a não ser que, como eu, olhe para estas coisas de mascarados como uma distração muito vulgar. Em verdade, será preciso esperar o carnaval para ver mascarados? Há muita gente que, apenas o Sr. Laemmert publica as suas folhinhas, corre a ver em que época é o carnaval. Essa gente é de patriarcal simplicidade. O carnaval desta terra é constante, e é a política que nos oferece o espetáculo de um continuo disfarce e dansatrizfarofia, como dizia Filinto.

Se pensas como eu, ó serio leitor, limita-te a ver passar os que se divertem, e vai depois entreter o resto da noite com a leitura do livro que imortalizou Erasmo.

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