Comentários da semana - 10 de novembro de 1861

Vaga senatorial – Agências do correio – Companhia italiana: Norma – Compositores nacionais – Condecorações – Batuta – Associação de caridade – Aventura inglesa – Uma volta de artistas.

Vagou uma cadeira no senado. É a que pertenceu ao eleito por Mato-Grosso, João Antonio de Miranda, que acaba de falecer, levando consigo a experiência e o conhecimento do egoísmo de um partido político. Tão gordo posto fez arregalar o olho a mais de um; e eis quetodos quanto gozam da inefável ventura de andarem entradetes no outono da vida começam a fazer valer os seus direitos e os seus serviços.

Fala-se de muitos, e chega-se até a indicar todas as probabilidades. A folha oficial, que toma o seu papel a sério, sem reparar que encanta mais “par son plumage que par son ramage”, não se arreceou de comprometer no futuro o queijo do experiente, e abriu o largo bico para dizer que entre muitos candidatos um havia que merecia exclusivamente os sufrágios dos eleitores.

Deve supor-se que é esse o escolhido do partido do governo, que é sempre o legítimo partido. Um outro candidato, ministro como o que foi apresentado por “ Maître Corbeau”, não fará concorrência, porquanto, depois de ter naufragado em dois diques, no do Maranhão e no Rio de Janeiro, não quer arriscar-se a fazer uma figura triste neste país, que é o da lindas figuras. Além destes dois, havia um que, se o governo quisesse, podia fazê-lo triunfar, o Sr. Sergio de Macedo, homem que, afora a missão diplomática, o cargo de ministro e o exercício de deputado, tem dado conta da mão saindo-se brilhantemente de toda a empresa que comete.

Tais e outros são os ovos que estão incubando, agasalhados pelas asas protetoras daquela remota e passiva província de Mato-Grosso; estão sim, mas a ansiedade da surpresa não se dará no fim do termo legal da incubação; já se conhece o ovo que há de gerar, e a mim até me parecer ver já o pinto no poleiro. A tal ponto chega à ciência política!

É tão bom ter uma cadeira no senado! A gente faz o seu testamento, e ocupa o resto do tempo em precauções higiênicas, a bem de dilatar a vida e gozar por mais tempo das honrarias inerentes ao posto de príncipe do império. Alguns não observam tão salutar preceito, e esfalfam-se em orações políticas contra os abusos do poder; por isso vão mais depressa à sepultura, onde ninguém é senador nem tem honrarias de príncipe.

Com a questão da vaga senatorial veio naturalmente a questão da presidência da província, que há de ser a presidência da eleição. Estava nomeado antes da vaga o Sr. Conselheiro Penna; mas S. Excia., que é exímio em ordenar um expediente e em fazer o seu discursozinho sobre questões de ordem, não se abalançará a presidir uma eleição em província que não conhece, e tão longe do governo central.

Trata-se, portanto, segundo ouvi dizer a mais de um, de substituir o nomeado, o que eu acho que é uma coisa muito justa. Pois falta com que distrair os tédios do Sr. Conselheiro Penna no intervalo da sessão legislativa? Não haverá outro ponto do império onde S.Excia. tomar ares? Por força que há de haver.

Tais são as notícias importantes do mundo político que chegaram ao meu conhecimento. Quanto ao Sr. Ministro da agricultura, que é o meu predileto, está fazendo “ amende honorable” de um erro administrativo: restabelece as agências postais do interior, que um dia de sestro econômico lembrou-se de suprimir. Deus o conserve em tão boas disposições!

Apesar da importância dos fatos que muito singela e rapidamente acabo de referir, o que mais deu que falar nestes últimos dias foi acompanhia italiana, que aqui está de passagem para Buenos Aires.

Falou-se muito antecipadamente na primeira-dama, a Sra. Parodi, que trazia consigo um diploma de reputação européia. Tinha ela de cantar a Norma diante de um público que ainda conservava as impressões de Mme. Lagrange. Por isso todo mundo diletante se agitou, e na noite da representação da Norma lá estavam os antigos entusiastas do canto italiano a esperar pela novidade.

A Sra. Parodi confirmou o que dela se tinha dito: tem muito talento e profundos conhecimentos da arte a que se dedicou; é ao mesmo tempo uma eminente cantora e uma trágica eminente. O seu gesto é nobre, os seus movimentos largos e desembaraçados, as suas posições belas, como as das estátuas antigas. Aquilo é que era a sacerdotisa gaulesa. Depois Lagrange ninguém viu melhor. Quando experimentava um sentimento, exprimia-o com a voz, com o gesto, com a fisionomia, sem procurar agradar aos basbaques com os recursos das mediocridades. Ah! É que possui a flama sagrada e consumiu o tempo em uma escola européia, que eu peço licença para considerar melhor que nossas, se me é dado falar dos ausentes.

O tenor Mazzis conhece a arte e canta bem; acrescentai a isto uma bela figura, e compreendereis, leitor, que Norma se apaixonasse por Pelion.

Bela e fresca é a voz do baixo Rossi, que foi aplaudido com justiça, e que muito mais o deve ser no Ernani, que sobe hoje à cena.

Coube o papel de Adalgiza a uma moça, quase diria menina, tanto o seu ar ingênuo e tímido me pareceu aquele da criatura que passa a infância à adolescência. A sua voz, fresca e melodiosa, corresponde perfeitamente ao seu todo virginal; começa agora, mas tem condições para ocupar uma bela posição no teatro.

Tal é a companhia que se destina a Buenos Aires. Só tenho palavras de inveja para os nossos vizinhos, que bem podiam ceder-nos a sua companhia por alguns meses.

Assim não há de acontecer, entretanto; e, ao que ouço, a “voluptuosa coqueta del Plata” tem em breve de ouvir e ver esses artistas, a quem os dilettanti bonaerenses animarão e pagarão com entusiásticos aplausos.

O período é musical; três companhias de canto, a italiana, a francesa e a nacional alternam as suas representações no mesmo teatro. Os compositores nacionais aparecem. Acha-se nesta corte, vindo de São Paulo, o Sr. Elias Álvares Lobo, autor da “Noite de São João”; retirado à sua província natal, o Sr. Álvares Lobo escreveu uma nova ópera, cujo livreto é devido à pena de um dos nossos jovens escritores dramáticos; o Sr. Gurjão está no Pará, e deve voltar brevemente, para fazer cantar uma das quatro óperas, compostas na Itália, terra da música e dos mestres; um jovem professor, o Sr. J. Teodoro de Aguiar, está a concluir uma ópera, cujo livreto tem por assunto um episódio da nossa história indígena, coisa que para alguns espíritos rabugentos é enormemente ridícula. Não sou dessas suscetibilidades que fazem caretas ao ver um indígena em cena; não quero saber a que nação e a que civilizaçãopertencem os personagens; exijo simplesmente que eles sejam verdadeiros, porque invariavelmente hão de ser belos; “ rien n’est beauque le vrai, disse Boileau, que, se me concedem, era uma pessoa de muito critério e siso e pensava nestas coisas um pouco melhor que os censuristas.

Por último, está a vir da Europa o Sr. Henrique Alves de Mesquita, talento de uma grande esfera, que mais se ampliou e fortaleceu com a aquisição de sérios estudos, condição essencial do bom compositor, sem a qual se fica em risco de não passar da antecâmara da glória, que esquiva e exigente como ninguém.

O Sr. Mesquita já ligou o seu nome à nossa história musical, compondo algumas daquelas peças em que José Maurício se mostrou mestre. As suas missas trazem o cunho da verdadeira música religiosa. Como compositor de outro gênero, todos conhecem até que ponto chega a sua caprichosa imaginação e a sua instrução musical. Será o digno chefe de tão distinta plêiade.

Creio que podemos dizer: - temos música. E mais – temos animação para os principiantes. Não acaba o chefe do Estado de ornar o peito do Sr. A. C. Gomes, para quem lhe foi pedida pela Academia das Belas-Artes uma condecoração? Este ato, olhado como estímulo, deve garantir os operários da idéia de que serão sempre acolhidos, não só pelas graças do público, como pelos favores dos poderes do Estado.

Devo dizer, falando de condecorações, que um artista de outro ramo, o Sr. Victor Meirelles, autor do belo quadro A primeira missa no Brasil”, obteve da própria inspiração imperial uma condecoração honrosa, em prova de apreço pelo seu trabalho. O favor honorífico caiu para a pintura como para a música.

O autor da “Noite do Castelo” recebeu, finalmente, das mãos de uma senhora, em pleno teatro, por ocasião de se executar a sua ópera, a batuta de ouro com que o brindaram várias representantes do sexo amável. O trabalho artístico é de um perfeito acabado e honra bem as ofertantes.

Na apoteose dos talentos, bem como no conforto dos que padecem, a mulher exerce sempre a sua alta missão; tanto galardoa como consola. Reúnem-se muitas, associam- se para fazer caridade, e por meio de uma noite de folgares e risos tiram o óbolo, que vão depois depositar no regaço da indigência.

É o que deve efetuar-se na noite de 12 deste mês. A Associação de Caridade das Senhoras anuncia para essa noite um concerto vocal e instrumental no salão do Casino Fluminense, cujo produto deve ser empregado no desempenho dos fins da sociedade. Honra e glória para essas almas evangélicas!

Algum filósofo esquisito poderá dizer que um egoísmo que infecciona os homens faz com que estes só abram a bolsa em troco de um prazer, e que o dinheiro que compra o pão dos pobres comprou antes o divertimento dos abastados. Guarde esse as suas moedas de Pompéia, que não tem valor na circulação; se não quer parecer egoísta, não vá lá; a humanidade é assim; as abstrações quiméricas não é que a hão de modificar, responderemos eu e o meu século.

Muita gente fala em egoísmo, sem definir propriamente o que ele é. Em minha opinião, que não dou como infalível, ele vale tanto como instinto de conservação, que reside nas organizações animais; é, por assim dizer, o instinto moral, que procura para o espírito o que oinstinto animal procura para os sentidos. Vão lá pregar contra o egoísmo aos ingleses; verão como eles os escovam. O egoísmo é a divisa dos súditos de Sua Majestade a Rainha, recentemente Imperatriz das Índias; e tanto a observam que fazem muitas vezes profundas modificações no direito das gentes e no código social das nações, parecendo que os respeitam.

Para prova do que digo, deu-se ultimamente em nosso porto, um fato que é nada menos que uma grave ofensa à soberania nacional. Mal saía a visita da polícia de um vaso brasileiro, apresentou-se um oficial inglês no escaler de sua nação, exigindo a sua introdução a bordo! Está me parecendo este caso igual ao Charles Georges em Portugal. Nações fracas devem sofrer tudo, dizem as potências de primeira ordem; e, sem atender que, como dizia o conceituado Camões é “franqueza ser leão entre ovelhas”, fazem alarde de sua importância e força material. Benza-os Deus, antes querem um aleijão no moral que uma quebra desse poder que atemoriza os fracos, indignando a consciência. Vamos ver o que fará o nosso governo. Dizem que somos colônia da Inglaterra; não sei se somos, mas é preciso provar que não.

Esta questão de visita marítima tolhe-me a palavra e irrita-me a pena. Creio que não poderei continuar naquele estilo descuidoso e calmo com que comento as coisas. Tenho uma última notícia a dar. Vi nas mãos de um amigo uma carta da Bahia, em que se anuncia a próxima vinda de alguns artistas, muito conhecidos do nosso público, que ali faziam parte da companhia dramática, que, na frase do vice-presidente daquela província em seu relatório, satisfazia perfeitamente as necessidades da civilização baiana.

Declinando-lhes os nomes, faz-lhes a apologia; falo de Gabriela da Cunha e Moutinho de Souza, a criadora de Marco e MargaridaGauthier, e o intérprete feliz do marinheiro da “Probidade”.

Colocada na primeira plana dos nossos artistas (e poucos são), a Sra. Gabriela tem sempre um lugar na capital, em que seus triunfos foram mais celebrados, e onde criou a sua carreira. Além dela e do Sr. Moutinho, diz-se que deve também chegar um novo ator, galã de muita aptidão, e, ao que ouço, o primeiro depois de Furtado Coelho.

Uma não vem talento em flor, que amanhecia cheio de esperança, e que lá fica debaixo do chão, livre dos amargores da vida, mas também sem os louros que a esperavam. Aos que a viram ensaiar aqui os seus primeiros passos sem dúvida se confrangerá o coração quando não lerem entre os nomes de sua família o nome da Ludovina Moutinho.

Gil.

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