Comentários da semana - 1 de dezembro de 1861

O que ficou provado a respeito da Itália – Exposição nacional – Morte de um general – A Resignação – “La Dame Blanche” – Comissão para teatro – Ainda o Sr. Senador Jobim.

Está acabada a questão do reconhecimento da Itália. Evidenciou-se pela discussão da imprensa que o governo quis atenuar um pouco a coragem com que reconheceu a Itália, trazendo à imprensa considerações que não respiravam a dignidade nem estavam revestidas da lógica que deve assistir aos atos de um governo livre.

Em bom e leal português chama-se a isto – acender uma vela a Deus e outra ao diabo. Ou, se quiser ainda recorrer à filosofia popular – desmanchar com os pés o que se fez com as mãos.

Supunha-se que o gabinete tivesse olhado as coisas políticas da Europa de um ponto de vista justo, e, portanto elevado. Era caluniá-lo; e para não haver dúvida veio ele próprio declarar que faz a sua apreciação do movimento do espírito humano do alto da varanda do palácio imperial.

Qualquer que seja o respeito que merece aquele ponto de vista, palpita-me que o mundo é alguma coisa mais larga, e que as idéias pairam um pouco mais acima dos augustos telhados da monarquia.

Se o governo é dos que, como rei Guilherme I, ainda andam embebidos pela idéia de que Deus se ocupa em fazer coroas para constituir direitos que têm outra fonte real, bem pode renunciar a querer fazer do império uma coisa que preste, e desde já fica habilitado a tirar diploma de imbecilidade ou de especulação.

Para isso tem amplo e indisputável direito.

Será mais um episódio da sua biografia, já opulenta destes e quejandos.

A festa industrial que se vai inaugurar amanhã é uma das coisas boas que hão de tirar a triste monotonia da história do gabinete de2 de março.

Bem que ao governo não caiba o primeiro viço de originalidade desta idéia, que, como se devem lembrar todos, foi iniciada na assembléia provincial, há anos, pelo Sr. Dr. Macedo, todavia o mérito da execução é também um mérito, e eu, nos meus princípios de inteira justiça, não lhe negarei.

A exposição não se abre completa, por falta de tempo; muitos objetos chegados e por chegar esperam ainda um lugar nessa primeira e grande étalage das nossas forças agrícolas, industriais e artísticas.

Do Pará temos ainda as belas madeiras e os magníficos produtos naturais, que fazem daquela província uma das primeiras do império. De Minas há ainda que expor e, como desta, de outras.

O exemplo do governo, ao que parece, será fecundo. Já em Minas Gerais se havia feito em setembro uma exposição industrial, que apresentou os melhores resultados. O paquete do norte nos trouxe a notícia de que na Bahia se organizara uma sociedade, com os fins de promover a cada ano uma exposição provincial.

Ainda bem que por toda parte vai ganhando terreno esta bela usança, que é uma verdadeira força de progresso e de civilização.

Mercê de Deus, não é capacidade que nos falta; talvez alguma indolência e certamente a mania de preferir o estrangeiro, eis o que até hoje tem servido de obstáculo ao desenvolvimento do nosso gênio industrial. E pode-se dizê-lo, não é uma simples falta, é um pecado ter um país tão opulento e desperdiçar os dons que ele nos oferece, sem nos prepararmos para essa existência pacífica de trabalho que o futuro prepara às nações.

Poupo ao leitor uma dissertação que tinha muito lugar agora sobre essa existência, que é o sonho dourado dos filósofos verdadeiramente amigos da humanidade.

Quero antes voltar folha, e convidar o leitor a acompanhar-me na dor que, à sua classe particularmente, e ao país em geral, acaba de causar a morte de um distinto militar – o general Pereira Pinto.

Há uma coisa de particular e de tocante nos passamentos como este; quando um companheiro de perigos, com quem se correram os azares da fortuna da guerra, deixa o campo para refugiar-se na morte, a dor dos membros dessa classe tem alguma coisa de mais profundo, e infunde maior emoção nos ânimos. É simples: a comunhão do perigo, a partilha dos revezes, ligam mais profundamente os homens, e afluem mais intimamente as almas.

A classe militar perdeu um membro valente; chora-o por isso; e, com ela, o país de quem foi um honrado servidor.

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Esta linha de pontinhos indica que vou passar a assuntos de outro gênero, para os quais não achei uma transição capaz.

A franqueza não será das minhas menores virtudes.

Fui ao Ginásio ver o drama do Dr. Varejão, A Resignação. Bem escrito, contendo lances dramáticos de efeito, esta composição está no caso de merecer o aplauso dos que sinceramente apreciam o desenvolvimento literário do país, naquela especialidade.

Há incerteza e incorreção nos traços das suas personagens, pode-se mesmo dizer que elas pela maior parte estão apenas esboçadas; mas este é o resultado legítimo das proporções acanhadas que o autor deu ao seu drama, e descorado das partes ressente-se do campo estreito em que aprove ao poeta fechar-se.

Aconteceu com a Resignação o contrário do que se deu com a Época. Nesta, a ação está rarefeita, diluída nos cinco atos em que o autor a dividiu; na Resignação, a ação aperta-se, acanha-se, concentra-se.

Mas, se há pontos vulneráveis na peça, há também belezas dignas de apreço. Do autor da Época e da Resignação podemos, portanto, esperar composições, em que, desaparecidos os senões dos seus primeiros ensaios, se reproduzam e porventura centupliquem as qualidades superiores que lhe serviram de valioso diploma ao entrar na literatura dramática.

A companhia francesa deu-nos no Lírico a ópera de Boieldieu La Dame Blanche , com uma execução que excedeu a expectativa dos diletantes. Mme Marti e Mr. Emon foram os primeiros entre todos os artistas. Mme Marti é sempre a artista elegante e gentil cuja presença enche a cena de vida e de animação. Ainda desta vez obteve aplausos merecidos. Mr. Emon conseguiu, por seu talento reconhecido, dar-nos um tipo completo no rendeiro Dikson. Na assinatura que vai começar daquela companhia temos de apreciar mais outras belas partituras do melhor repertório.

Estou no capítulo dos teatros; cabe mencionar aqui a nomeação de uma comissão que o governo acaba de fazer para examinar o contrato com o teatro subvencionado, e dar a sua opinião sobre a celebração de um que encaminhe o teatro a melhoramentos mais reais.

Essa comissão, composta dos Srs. conselheiros José de Alencar e Drs. Macedo e João Cardoso de Menezes e Souza, acham-se com a iniciativa de uma verdadeira organização teatral. Os seus membros dispõem de talento e conhecimentos próprios à bem de completar um trabalho desta ordem.

Fora inútil apontar aqui os títulos do Dr. Macedo, a pena já vigorosa, já faceta, que tanto tem enriquecido o teatro, e o escritor dos mais populares da literatura nacional; os do Sr. Conselheiro José de Alencar, romancista e dramaturgo elegante; e os do Sr. Dr. João Cardoso, poeta mavioso e prosador correto. O teatro é uma coisa séria, carece de muito trabalho e de muita constância. Em uma terra onde tudo está por fazer, não seria teatro, cópia continuada da sociedade, que estaria mais adiantado. A este respeito, não nos iludamos, é preciso trabalhar inteligente e conscientemente.

Aproveitem os esforços já tentados e construa-se um edifício sólido e duradouro.

Antes de pingar o ponto final, permita-me o leitor que eu retifique um erro que me escapou nos comentários últimos. Quando falei de um personagem que preferia a ciência dos selvagens à ciência das academias, o que prova bem que lhe assiste o direito de ser colocado entre os primeiros, disse – diretor da Academia de Medicina – em vez de – diretor da Faculdade.

E, já que falo no diretor, lembra-me esse trecho de um discurso de S.Excia., em que a palavra cloaca era repetida, sem embargo da presença das augustas personagens, em sessão pública e solene. Nem ao menos, o sexo delicado, que ali tinha um régio representante, mereceu de S. Excia. uma consideração de deferência e atenção.

Se o bom do homem é retrógrado em ciência, em cortesia mostra uma simplicidade rústica, digna dos primeiros tempos da humanidade.

E é senador, e é diretor de uma Faculdade!

Où la science et la pairie vont-elles se nicher !

Gil.

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