Americanas - ÍNDICE


Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente no Rio de Janeiro, por B.-L. Garnier, em 1875.

ÍNDICE

POTIRA

NIÂNI

A CRISTÃ-NOVA

JOSÉ BONIFÁCIO

A VISÃO DE JACIÚCA

A GONÇALVES DIAS

OS SEMEADORES

A FLOR DO EMBIRUÇU

LUA NOVA

SABINA

ÚLTIMA JORNADA

OS ORIZES

POEMA PRESENTE NA PRIMEIRA EDIÇÃO

CANTIGA DO ROSTO BRANCO


[1] Simão de Vasconcelos não declara o nome da índia, cuja ação refere em sua Crônica.

Achei que não foi o caso desta tamoia o único em que tão galhardamente se manifestou a fidelidade conjugal e cristã. O padre Anchieta, na carta escrita ao padre-mestre Laynes, a 16 de abril de 1563, menciona o exemplo de uma índia, mulher de um colono, a qual, depois de lho matarem os índios, caiu em poder destes, cujo Principal a quis violentar. Ela resistiu e desapareceu. Os índios fizeram correr a voz de que se matara; Anchieta supõe que lês mesmos lhe tiraram a vida. Caso análogo é referido pelo padre João Daniel (Tesouro descoberto no Amazonas, p. II, cap. III); essa chama-se Esperança e era da aldeia de Cabu.

[2] A vila de são Vicente.

[3]Conduz nos braços trêmulos a moça

Que renegou Tupã...”

Tinham os índios a religião monoteísta que a tradição lhes atribui? Nega-o positivamente o Sr. Dr. Couto de Magalhães em seu excelente estudo acerca dos selvagens, asseverando nunca ter encontrado a palavra Tupã nas tribos que freqüentou, e ser inadmissível a idéia de tal deus, no estado rudimentário dos nossos aborígenes.

O Sr. Dr. Magalhães restituiu aos selvagens a teogonia verdadeira. Não integralmente, mas só em relação ao sol e à lua (Coaraci e Jaci), acho notícia dela no Tesouro do padre João Daniel; e o que então faziam os índios, quando aparecia a lua nova, me serviu à composição que vai incluída neste livro.

Sem embargo das razões alegadas pelo Sr. Dr. Magalhães, que todas são de incontestável procedência, conservei Tupã nos versos que ora dou a lume; fi-lo por ir com as tradições literárias que achei, tradições que nada valem no terreno da investigação científica, mas que têm por si o serem aceitas e haverem adquirido um como direito de cidade.

[4]Quando ferve o cauim...”

É ocioso explicar em notas o sentido desta palavra e de outras, como pocema, muçurana, tangapema, canitar, com as quais todo leitor brasileiro está familiarizado, graças ao uso que delas têm feito poetas e prosadores. É também desnecessário fundamentar com trechos das crônicas a cena do sacrifício do prisioneiro, na estância XI; são coisas comezinhas.

[5]As asas colhe

Guanumbi, e o aguçado bico embebe

No tronco, onde repousa adormecido

Até que volte uma estação de flores...”

Simão de Vasconcelos (Not. do Bras., livro 2º), citando Marcgraff e outro autores, conta, como verdadeira, a fábula a que aludem estes versos. Aproveitou-se dali uma comparação poética: nada mais.

[6]Cova funda

Da terra, mãe comum...”

Veja G. Dias, Últ. Cant., pág. 159:

...Quando o meu corpo

À terra, mãe comum...

[7]Inútil foges; gavião te espreita...”

Anajê, na língua geral, quer dizer gavião.

[8]Panenioxe é guerreiro

Da velha, dura nação...”

Tratando de descobrir a significação de Panenioxe, conforme escreve Rodrigues Prado, apenas achei no escasso vocabulário guaicuru, que vem em Aires do Casal, a palavra nioxe traduzida por jacaré. Não pude acertar com a significação do primeiro membro da palavra, pane; há talvez relação entre ele e o nome do rio Ipané.

[9] “Estas duas armas (lança e facão) têm sido tomadas aos portugueses e espanhóis, e algumas compradas a estes, que inadvertidamente lhas têm vendido.” (RODR. PRADO, Hist. dos Índ. Cav.)

[10]Niâni ao melhor deles

Não dera o seu coração...”

Niâni é o nome transcrito na Hist. dos Índ. Cav. Na língua geral temos niâni, que Martius traduz por infans. Esta forma pareceu mais graciosa; e não duvidei adotá-la, desde que o meu distinto amigo, Dr. Escragnolle Taunay, me asseverou que, dialeto guaicuru, de que ela há feito estudos, niâni exprime a idéia demoça franzina, delicada, não lhe parecendo que existia a forma empregada na monografia de Rodrigues Prado.

[11] Os Guaicurus dividem-se em nobres, plebeus ou soldados, e cativos. Do próprio texto que me serviu esta composição se vê a que ponto repugna aos nobres toda a aliança com pessoas de condição inferior.

A este propósito direi a anedota que me foi referida por um distinto oficial da nossa armada, o capitão-de-fragata Sr. Henrique Batista, que em 1857 esteve no Paraguai comandando o Japorá, entre o forte Coimbra e o estabelecimento Sebastopol. Ia muita vez a bordo do Japorá um chefe guaicuru, Capitãozinho, muito amigo da nossa oficialidade. Tinha ele uma irmã, que outro chefe guaicuru, Lapagata, cortejava e desejava receber por esposa. Lapagata recebera o título de capitão das mãos do presidente de Mato-Grosso. Opunha-se com todas as forças ao enlace o Capitãozinho. Um dia, perguntando-lhe o Sr. H. Batista por que motivo não consentia no casamento da irmã com Lapagata, respondeu altivo e Guaicuru: — Oponho-me, porque eu sou capitão por herança de meu pai, que já o era por herança do pai dele. Lapagata é capitão de papel.

[12] As bocaiúvas servem de alimento aos Guaicurus; nas proximidades de sazonarem os cocos fazem eles grandes festas. (Veja CASAL E PRADO).

[13]Colar de prata não usa,

Como usava de trazer;

Pulseiras de finas contas

Todas as veio a romper...”

Tais eram os adornos das mulheres guaicurus. (Veja PRADO e D’AZARA).

[14] “As moças ricas vão enfeitadas, como se ornariam para o próprio noivado.” (AIRES DO CASAL, Coroa., 280).

[15]Óleo que a unge,

Finas telas que a vestem, atavios

De ouro e prata que o colo e os braços lhe ornam,

E a flor de trigo e mel de que se nutre,

Sonhos, são sonhos do profeta...”

Alude a um trecho do profeta Daniel:

“9 — E lavei-te na água, e alimpei-te do teu sangue; e te ungi com um óleo;

“13 — E foste enfeitada de ouro e prata, e vestida de linho e de roupas bordadas, e de diversas cores; nutriste-te da farinha e de mel e de azeite, e foste mui aformoseada em extremo.” — (DANIEL, XV)

[16] “...a delicada virgem

Que entre os rios nasceu...”

Rebeca, filha da Mesopotâmia.

[17] Bento do Amaral Gurgel, que dirigiu a companhia de estudantes por ocasião daquela e da seguinte invasão, em 1711.

[18]Israel tem vertido

Um mar de sangue. Embora! à tona dele

Verdeja a nossa fé...”

Ângela pratica o inverso daquele conselho atribuído aos rabinos de Constantinopla, respondendo aos judeus de Espanha que batizassem os corpos, conservando as almas firmes na Lei. Ângela conserva o batismo da alma, e entrega o corpo ao suplício como se fosse verdadeiramente judeu. Nega a fé com os lábios, confessando-a no coração: maneira de conciliar o sentimento cristão e a piedade filial.

[19] A verdadeira pronúncia desta palavra é an-hanga. É outro caso em que fui antes com a maneira corrente e comum na poesia.

[20] Il y aurait une fort grande injustice à juger jésuites au seizième siècle et leurs travaux, d’après les idèes que peut inspirer le système suivi dans missions. Là on peut voir dês projets ambitieux s’allier à dês vues habiles: dans lês premiers travaux executes par les pères de la compagnie, au Brésil, tout fut désintéressé; et au besoin, Le récit de leurs souffrances pourrait le prouver. (F. DENIS, Le Brésil).

[21] “... E na verdade tem ocasiões em que festejam muito a lua, como quando aparece nova; porque então saem de suas choupanas, dão saltos de prazer, saúdam-na e dão-lhe as boas vindas. (JOÃO DANIEL, Tes. descob. no Amaz., part. II, cap. X).

[22] Não me recordo de haver lido nos velhos escritos sobre os nossos aborígenes a crença que Montaigne lhes atribui acerca das almas boas e más. Este grande moralista tinha informações certamente exatas a respeito dos índios; e aquela crença traz certamente um ar de verossimilhança. Não foi só isso o que me induziu a fazer tais versos; mas também o que achei poético e gracioso na abusão.

[23] Tinha planeado uma composição de dimensões maiores, e não a levei a cabo, por intervirem outros trabalhos, que de todo me divertiram a atenção. Foi o nosso iminente poeta e literato Porto Alegre, hoje barão de Santo Ângelo, que há cerca de quatro anos, me chamou a atenção para a relação de Monterroyo Mascarenhas, Os Orizes conquistados, que vem na Rev. Inst. Hist., t. VIII.

A aspereza dos costumes daquele povo, habitante do sertão da Bahia, cerca de duzentas léguas da capital, sua rara energia, as circunstâncias singulares da conquista e conversão da tribo, eram certamente um quadro excelente para uma composição poética. Ficou em fragmento, que ainda assim não quis excluir do livro.

[24]A ave sagrada, o nume de seus bosques,

Que de agouro chamamos, Cupuaba

Melancólica e feia, mas ditosa

E benéfica entre eles...”

“Lastimosamente cegos de dircurso, reconhecem e adoram por deus a coruja, chamando na sua linguagem Oitipó-cupuaaba; e o motivo de sua adoração consiste na benefício que recebem desta ave, que, naturalmente inimiga das cobras, numerosíssimas naquele país, as espia nos matos, e lhes tira a vida.” (J. F. MONTERROYO MASCARENHAS, Os Orizes conquistados).

[25] Não é original esta composição; o original é propriamente indígena. Pertence à tribo dos Molcogulges, e foi traduzida da língua deles por Chateaubriand (Voy. dans d’Amér). Tinham aqueles selvagens fama de músicos, como os nossos Tamoios. “Na terceira noite da festa do milho (lê-se no livro de Chateaubriand) reúnem-se no lugar do conselho e disputam a prêmio do canto. O prêmio é conferido pelo chefe verde. Concorrem as mulheres também, e algumas têm saído vencedoras; uma de suas odes ficou célebre.”

A ode célebre é a composição que transladei para a nossa língua. O título na tradução em prosa de Chateaubriand é — Chanson de La chair blanch.

Sobre o talento das mulheres para a poesia, também o tivemos em tribos nossas. Veja-se FERNÃO CARDIM, Narrativa de uma viajem e missão.


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