A Viúva Sobral - CAPÍTULO III

Vamos e venhamos: a viúva gostava um pouco do Brandão; não digo muito, digo um pouco, e talvez muito pouco. Não lhe parecia grande coisa, mas sempre era mais que nada. Ele fazia-lhe amiudadas visitas e olhava muito para ela; mas, como era tímido, não lhe dizia nada, não chegava a planear uma linha.

 

— Em que ponto vamos, em suma? Perguntava-lhe o Cesário um dia, fatigado de só ouvir entusiasmos.

 

— Vamos devagar.

 

— Devagar?

 

— Mas com segurança.

 

Um dia recebeu Cesário um convite da viúva para lá ir a uma reunião familiar: era lembrança do Brandão, que foi ter com ele e pediu-lhe instantemente que não faltasse. Cesário sacrificou o teatro nessa noite, e foi. A reunião esteve melhor do que ele esperava; divertiu-se muito. Na rua disse ele ao amigo:

 

— Agora, se me permites franqueza, vou chamar-te um nome feio.

 

— Chama.

 

— Tu és um palerma.

 

— Viste como ela olhava para mim?

 

— Vi, sim, e por isso mesmo é que acho que estás botando dinheiro à rua. Pois uma pessoa assim disposta... Realmente és um bobo.

 

Brandão tirou o chapéu e coçou a cabeça.

 

— Para falar a verdade, eu mesmo já tenho dito essas coisas, mas não sei que acho em mim, acanho-me, não me atrevo...

 

— Justamente; um palerma.

 

Andaram ainda alguns minutos calados.

 

— E não te parece esplêndida? perguntou o Brandão.

 

— Não, isso não; mais bonita do que a princípio, é verdade; fez-me melhor impressão; esplêndida é demais.

 

Quinze dias depois, viu-a o Cesário em casa de terceiro, e pareceu-lhe que ainda era melhor. Daí começou a freqüentar a casa, a pretexto de acompanhar o outro, e ajudá-lo, mas realmente porque começava a olhá-la com olhos menos desinteressados. Já aturava com paciência as longas confissões do amigo; chegava mesmo a procurá-las.

 

D. Candinha percebeu, em pouco tempo, que em vez de um, tinha dois adoradores. Não era motivo de pôr luto ou deitar fogo à casa; parece mesmo que era caso de vestir galas; e a rigor, se alguma falha havia, era que eles fossem dois, e não três ou quatro. Para conservar os dois, D. Candinha usou de um velho processo: dividindo com o segundo as esperanças do primeiro, e ambos ficavam entusiasmados. Verdade é que o Cesário, posto não fosse tão valente, como dizia, era muito mais que o Brandão. De maneira que, ao cabo de algumas dúzias de olhares, apertou-lhe a mão com muito calor. Ela não a apertou de igual modo, mas também não se deu por zangada, nem por achada. Continuou a olhar para ele. Mentalmente, comparava-os:

 

“O Cesário sempre é outra coisa; mas também não há de ser tão fácil de guiar. Se o Brandão não fosse tão comum! é ainda mais comum que o outro.”

 

Um dia o Brandão descobriu um olhar trocado entre o amigo e a viúva. Naturalmente ficou desconsolado, mas não disse nada; esperou. Daí a dias notou mais dois olhares, e passou mal a noite, dormiu tarde e mal; sonhou que matara ao amigo. Teve a ingenuidade de contá-lo a este, que riu muito, e disse-lhe que fosse tomar juízo.

 

— Você tem coisas! Pois bem; somos concordes nisto: — deixo de voltar à casa dela...

 

— Isso nunca!

 

— Então que queres?

 

— Quero que me digas, francamente, se gostas dela, e se vocês se namoram.

 

Cesário declarou-lhe que era uma simples fantasia dele, e continuou a namorar a viúva, e o Brandão também, e ela aos dois, todos com a maior unanimidade.

 

Naturalmente as desconfianças reviveram, e assim as explicações, e começaram os azedumes e as brigas. Uma noite, ceando os dois, de volta da casa dela, estiveram a ponto de brigar formalmente. Mais tarde separaram-se por dias; mas como o Cesário teve de ir a Minas, o outro reconciliou-se com ele à volta, e dessa vez não instou para que tornasse a freqüentar a casa da viúva. Esta é que lhe mandou convite para outra reunião; e tal foi o princípio de novas contendas.

 

As ações de ambos continuavam no mesmo pé. A viúva distribuía as finezas com igualdade prodigiosa, e o Cesário começava a achar que a complacência para com o outro era longa demais.

 

Nisto apareceu no horizonte uma pequenina mancha branca; era algum navio que se aproximava com as velas abertas. Era navio e de alto bordo; — um viúvo, médico, ainda conservado, que entrou a cortejar a viúva. Chamava-se João Lopes. Já então o Cesário tinha arriscado uma carta, e mesmo duas, sem obter resposta. A viúva foi passar alguns dias fora, depois da segunda; quando voltou, recebeu terceira, em que o Cesário lhe dizia as coisas mais ternas e súplices. Esta carta deu-lha em mão.

 

— Espero que me não conservará mais tempo na incerteza em que vivo. Peço-lhe que releia as minhas cartas...

 

— Não as li.

 

— Nenhuma?

 

— Quatro palavras da primeira apenas. Imaginei o resto e imaginei a segunda.

 

Cesário refletiu alguns instantes: depois disse com muita discrição:

 

— Bem; não lhe pergunto os motivos, porque sei que me hão de desenganar; mas eu não quero ser desenganado. Peço-lhe uma só coisa.

 

— Peça.

 

— Peço-lhe que leia esta terceira carta, disse ele, tirando a carta do bolso; aqui está tudo o que estava nas outras.

 

— Não... não...

 

— Perdão; pedi-lhe isto, é um favor último; juro que não tornarei mais.

 

D. Candinha continuou a recusar; ele deixou a carta no dunkerque, cumprimentou-a e saiu. A viúva não desgostou de ver a obstinação do rapaz, teve curiosidade de ler o papel, e achou que o podia fazer sem perigo. Não transcrevo nada, por que eram as mesmas coisas de todas as cartas de igual gênero. D. Candinha resolveu dar-lhe resposta igual à das primeiras, que era nenhuma.

 

Cesário teve o desengano verbal, três dias depois, e atribuiu-o ao Brandão. Este aproveitou a circunstância de achar-se só para dar a batalha decisiva. É assim que ele chamava a todas as escaramuças. Escreveu-lhe uma carta a que ela respondeu deste modo:

 

Devolvo o bilhete que me entregou ontem, por engano, e desculpe se li as primeiras palavras; afianço-lhe que não vi o resto.

 

O pobre-diabo quase teve uma congestão. Meteu-se na cama três dias, e levantou-se resolvido a voltar lá; mas a viúva tornara a sair da cidade. Quatro meses depois casava ela com o médico. Quanto ao Brandão e o Cesário, que estavam já brigados, nunca mais se falaram; criaram ódio um ao outro, ódio implacável e mortal. O triste é que ambos começaram por não gostar da mesma mulher, como o leitor sabe, se se lembra do que leu.

 

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