Uma partida - CAPÍTULO XI

— Tinha graça, disse ele. Para quê?

 

— Há maridos que jogam com as mulheres.

 

— A bisca em família?

 

— Não, não jogo a tentos.

 

— A dinheiro? Também tinha sua graça, porque o que eu ganhasse em dinheiro, pagaria depois em vestidos; mas ainda assim, pronto. Há certo interesse. Vou buscar as cartas.

 

Saiu e voltou com as cartas.

 

— Não te proponho dinheiro, disse D. Paula. Nem dinheiro nem tentos.

 

— Então quê? As estrelas? Os nossos lugares no céu?

 

— Não, a minha pessoa.

 

— Como? perguntou ele, espantado.

 

— Se eu perder, você faz de mim o que quiser; se eu ganhar, ganho a liberdade de ir para onde for da minha vontade.

 

— Repete.

 

Dona Paula repetiu a proposta.

 

— Aí está uma singular partida, exclamou Xavier. Se eu ganhar faço de você o que quiser...

 

— E se eu ganhar...

 

— Já sei. Vale a pena arriscar, porque, se você perder, não sabe em que se mete. Vingarei o meu susto exemplarmente.

 

As mãos dela estavam quentes, os olhos brilhantes. Ele, diante de uma partida nova, nunca jogada, absurda, ficara pasmado, trêmulo. Era então...? Mas quem diabo lhe metera aquela idéia na cabeça? perguntou-lhe. E depois de um silêncio:

 

— Góis, naturalmente.

 

— Não. Por que seria esse e não outro?

 

— Você sabe por quê.

 

— Não sei nada, murmurou.

 

— Sei-o eu. É a grande vantagem das cartas anônimas. Três cartas anônimas contaram-me tudo. Guardei a primeira; queimei as outras, e nunca lhe disse nada, porque não adiantavam nada.

 

D. Paula negou ainda, por boca e por gesto; afinal, calou-se e ouviu tudo o que ele continuou a dizer. Xavier falava sem cólera. Confessou-lhe que a primeira impressão foi acerba; mas depois sarou a ferida e continuou bem. Decididamente, o jogo estava acima de tudo. Era a consolação real e única da terra e do céu. Que se jogaria no céu? D. Paula rompeu finalmente:

 

— Bem, concluamos, disse ela. Estão postas as condições e aceitas. Vamos às cartas.

 

— Uma partida em três, disse ele; quem ganhar as duas primeiras, levanta a mesa.

 

Baralhou as cartas, distribuiu-as e ganhou logo a primeira. Jogaram segunda. Foram à terceira, que desempatava.

 

— O rei, disse ele, marcando um ponto.

 

Jogou a primeira carta, mas não jogou segunda. Parou, as cartas caíram-lhe, fez um gesto, e, antes que a mulher pudesse ver nada, caiu redondamente no chão. D. Paula acudiu, chamou, vieram criados e um médico vizinho; Xavier estava morto. Uma congestão.

 

 

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